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Inteligência Emocional: a fórmula do poder
Por Francisney Liberato
Conhecer a si mesmo é o primeiro passo para dominar o mundo interior.
Em um mundo cada vez mais complexo e acelerado, a busca por uma vida mais leve e realizada é prioridade para muitos. Nesse contexto, a inteligência emocional emerge como um farol, iluminando o caminho para o autoconhecimento, o bem-estar e o sucesso em todas as áreas da vida.
A inteligência emocional é uma habilidade prática que podemos aprender e usar no dia a dia. Ela transforma nossa relação com nós mesmos, com os outros e com o mundo ao nosso redor. É uma ferramenta essencial para enfrentarmos os desafios da vida, e todos deveriam ter a oportunidade de acessá-la e aprimorar-se continuamente.
Embora o termo “inteligência emocional” tenha se popularizado na década de 1990, suas raízes remontam a conceitos anteriores. Charles Darwin, em seu livro “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais” (1872), já reconhecia a importância da expressão emocional para a sobrevivência e adaptação. Posteriormente, Howard Gardner, em sua teoria das inteligências múltiplas, introduziu os conceitos de inteligência intrapessoal (compreensão de si) e interpessoal (compreensão dos outros), os quais são pilares da inteligência emocional.
A formalização do termo “inteligência emocional” ocorreu em 1990, com os trabalhos de Peter Salovey e John Mayer. No entanto, foi com a publicação do livro “Inteligência Emocional”, de Daniel Goleman, em 1995, que o conceito ganhou notoriedade mundial.
A inteligência emocional, popularizada pelo psicólogo e jornalista Daniel Goleman, vai além do mero controle das emoções. Ela engloba um conjunto de habilidades que nos permite reconhecer, compreender, utilizar e administrar nossos próprios sentimentos e os dos outros construtivamente. Essa jornada de autodescoberta e aprimoramento pessoal se inicia com o autoconhecimento, a capacidade de identificar e nomear nossas emoções, entender seus gatilhos e reconhecer seus impactos em nossos pensamentos e comportamentos.
A inteligência emocional, com sua importância multifacetada, exerce impacto inegavelmente positivo na vida e no desempenho de um indivíduo. Para ilustrar, podemos destacar:
No âmbito pessoal, a inteligência emocional serve como bússola interna, guiando-nos na identificação, compreensão e gestão de nossas emoções. Esse autoconhecimento nos permite navegar pelas complexidades da vida com maior serenidade e resiliência, transformando desafios em oportunidades de crescimento. Relacionamentos interpessoais florescem, pois a empatia e a comunicação autêntica se tornam pilares de interação.
No ambiente profissional, a inteligência emocional é o diferencial que impulsiona carreiras e constrói líderes inspiradores. A capacidade de gerenciar o estresse, resolver conflitos e motivar equipes eleva o desempenho individual e coletivo. O reconhecimento das emoções dos outros fortalece a colaboração e cria um clima de trabalho positivo, em que a inovação e a produtividade prosperam.
Na saúde mental e bem-estar, a inteligência emocional atua como escudo protetor contra os desafios da vida moderna. Ao reconhecer e lidar com nossas emoções de forma saudável, reduzimos o risco de desenvolver transtornos como ansiedade e depressão. A inteligência emocional nos capacita a cultivar relacionamentos significativos que, por sua vez, são fontes de apoio e alegria, contribuindo para uma vida mais plena e feliz.
Na educação, a inteligência emocional é a chave para o desenvolvimento integral do aluno. Crianças e jovens que aprendem a identificar e expressar suas emoções de maneira construtiva se tornam mais confiantes, resilientes e capazes de construir relações saudáveis. A inteligência emocional também promove um ambiente escolar mais acolhedor e colaborativo, em que o aprendizado floresce.
Pesquisas indicam que a inteligência emocional se destaca como fator crucial para o sucesso profissional e pessoal, superando o Quociente de Inteligência (QI) em diversos contextos. Um estudo abrangente da TalentSmart, com mais de 1 milhão de profissionais, revelou que 90% dos indivíduos de alto desempenho também têm alta IE. Essa capacidade de gerenciar emoções, construir relacionamentos e tomar decisões eficazes é fundamental para alcançar resultados excepcionais, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. A IE capacita os indivíduos a lidar com desafios, superar obstáculos e construir uma carreira sólida e gratificante.
No mercado, a IE é altamente valorizada. Uma pesquisa da CareerBuilder apontou que 71% dos empregadores a consideram mais importante do que o QI na hora de contratar. Essa preferência reflete o reconhecimento do impacto positivo que profissionais emocionalmente inteligentes têm no ambiente de trabalho, promovendo colaboração, comunicação eficaz e resolução de conflitos. Nesse sentido, estudo da Harvard Business Review constatou que a IE é duas vezes mais importante que o QI e a competência técnica para o sucesso profissional, reforçando, assim, a necessidade de desenvolver essa habilidade para alcançar o sucesso na carreira.
Os benefícios da IE vão além do ambiente profissional. Pesquisa da Universidade de Yale, com mais de 1.000 participantes, revelou que pessoas com alta IE têm menor risco de desenvolver doenças cardíacas, depressão e ansiedade. Essa descoberta ressalta a importância de cultivar habilidades emocionais para promover o bem-estar físico e mental. A IE permite que as pessoas lidem com o estresse de forma mais saudável, construam relacionamentos mais positivos e desenvolvam resiliência diante dos desafios da vida.
No contexto de liderança, a IE é essencial. Um estudo da Zenger Folkman com 515 líderes mostrou que aqueles com maior IE tiveram aumento de 48% no desempenho da equipe. Líderes emocionalmente inteligentes motivam e engajam seus colaboradores, criando um ambiente de trabalho positivo e colaborativo. O Center for Creative Leadership também descobriu que líderes com alta IE são vistos como mais eficazes por superiores, pares e subordinados. A IE capacita os líderes a construir relacionamentos de confiança, inspirar suas equipes e alcançar resultados superiores.
Em suma, a inteligência emocional permeia todos os aspectos de nossas vidas, desde os relacionamentos mais íntimos até o sucesso profissional e o bem-estar geral. É uma habilidade essencial para navegarmos pelas complexidades do mundo moderno, construindo vidas mais significativas, saudáveis e felizes.
A máxima “Educai e disciplinai a mente mediante o estudo, a observação e a reflexão” (livro “Mente, Caráter e Personalidade”, p. 3, Ellen G. White) nos lembra da importância de aprender e desenvolver a inteligência emocional. Ao cultivar o autoconhecimento e a compreensão das emoções através do estudo, da observação e da reflexão, adquirimos ferramentas para navegar relacionamentos, tomar decisões e construir uma vida mais equilibrada. A IE, portanto, é uma conquista que se aprimora através do aprendizado contínuo e da introspecção.
Um exemplo prático de autoconhecimento pode ser observado na história de Ana, uma jovem profissional que, após anos de frustração e conflitos no trabalho, decidiu buscar ajuda para entender suas emoções. Por meio de terapia e exercícios de autoanálise, ela descobriu que sua tendência a reagir impulsivamente a críticas e desafios era resultado de uma insegurança profundamente enraizada. Ao tomar consciência dessa dinâmica, ela pôde desenvolver estratégias para lidar com suas emoções de forma mais saudável, o que impactou positivamente não apenas sua vida profissional, mas também seus relacionamentos pessoais.
O autocontrole, outra dimensão fundamental da inteligência emocional, é a capacidade de regular nossas emoções, evitando que elas nos dominem e nos levem a agir de forma impulsiva ou prejudicial. Pessoas com alto autocontrole conseguem manter a calma em situações estressantes, lidar com frustrações e conflitos construtivamente e tomar decisões mais racionais e equilibradas.
Um exemplo inspirador de autocontrole pode ser encontrado na história de Nelson Mandela, líder sul-africano que passou 27 anos na prisão por sua luta contra o apartheid. Durante esse período, Mandela enfrentou inúmeras adversidades e injustiças, mas nunca se deixou dominar pelo ódio ou pelo desejo de vingança. Ao contrário, ele cultivou a paciência, a resiliência e a capacidade de perdoar, o que o tornou um símbolo de paz e reconciliação.
A automotivação é a força interior que nos impulsiona a agir, a perseguir nossos objetivos e a superar obstáculos. Pessoas automotivadas são persistentes, otimistas e apaixonadas pelo que fazem. Elas não se deixam abater por fracassos ou dificuldades, mas aprendem com seus erros e seguem em frente com determinação.
Um exemplo notável de automotivação é a história de Soichiro Honda, fundador da Honda Motor Company. Antes de se tornar magnata da indústria automobilística, Honda enfrentou inúmeros desafios e fracassos. Ele foi rejeitado para um emprego na Toyota e teve sua primeira fábrica destruída por um bombardeio durante a Segunda Guerra Mundial.
No entanto, Honda nunca desistiu do seu sonho de construir motocicletas e automóveis. Ele continuou a inovar e a desenvolver novas tecnologias, mesmo em meio às adversidades. Sua perseverança e paixão pela engenharia o levaram a criar uma das maiores empresas automobilísticas do mundo.
A história de Soichiro Honda é um exemplo inspirador de como a automotivação, a resiliência e a busca constante por aprimoramento podem levar ao sucesso, mesmo diante de grandes obstáculos.
A empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro e compreender seus sentimentos e perspectivas, é essencial para construir relacionamentos saudáveis e duradouros. Pessoas empáticas são mais compreensivas, tolerantes e colaborativas. Elas se preocupam com o bem-estar dos outros e buscam ajudar sempre que possível.
Um exemplo comovente de empatia pode ser visto na história de Madre Teresa de Calcutá, que dedicou sua vida a cuidar dos pobres e doentes. Madre Teresa via em cada pessoa, por mais sofrida ou marginalizada que fosse, um ser humano digno de amor e respeito. Sua compaixão e dedicação inspiraram milhões de pessoas em todo o mundo.
Por fim, as práticas sociais englobam as habilidades de comunicação, relacionamento interpessoal e trabalho em equipe. Pessoas com boas práticas sociais conseguem construir redes de apoio, colaborar com os outros e resolver conflitos de forma pacífica.
Um exemplo prático de práticas sociais pode ser observado em empresas que investem em programas de desenvolvimento de equipes. Essas empresas reconhecem que o sucesso de um negócio depende da capacidade de seus colaboradores de trabalhar juntos de forma harmoniosa e eficiente. Ao promover a comunicação aberta, o respeito mútuo e a colaboração, essas empresas criam um ambiente de trabalho mais positivo e produtivo.
Também, no cerne da fé cristã, encontramos a essência do amor em Marcos 12:33: “Amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de todas as forças, e amar ao próximo como a si mesmo”. O amor a Deus transcende dogmas e rituais, sendo uma experiência individual e profunda que nutre a alma e guia cada passo. É a crença que cada um carrega em seu coração, a fé que move montanhas e acende a esperança.
Em paralelo, a sabedoria bíblica encontra eco na doutrina de Daniel Goleman sobre inteligência emocional. Amar a si mesmo, com todas as nuances e imperfeições, é o alicerce de competências emocionais pessoais como autoconhecimento, autocontrole e automotivação. E assim como amar ao próximo, as competências emocionais sociais – empatia e relacionamento interpessoal – nos conectam aos outros, construindo pontes de compaixão e respeito mútuo.
A inteligência emocional é uma jornada de poder, autodescoberta e aprimoramento pessoal que nos leva a viver de forma mais leve, saudável e realizada. Ao desenvolver as cinco dimensões da inteligência emocional – autoconhecimento, autocontrole, automotivação, empatia e práticas sociais –, nos tornamos mais conscientes de nossas emoções, mais capazes de lidar com os desafios da vida, mais motivados a perseguir nossos objetivos, mais compreensivos e colaborativos com os outros e mais felizes em nossos relacionamentos.
Assim como nos casos de Ana, Nelson Mandela, Soichiro Honda, Madre Teresa de Calcutá e tantos outros exemplos inspiradores, nós também podemos trilhar o caminho da inteligência emocional e colher seus frutos em todas as áreas de nossas vidas. Que busquemos a inteligência emocional todos os dias, com a certeza de que ela é a chave para um futuro mais leve, mais feliz e mais realizado.
Marque verdadeiro ou falso
- ( ) A inteligência emocional é apenas um conceito abstrato.
- ( ) Charles Darwin reconheceu a importância da expressão emocional em seu livro “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”.
- ( ) A inteligência emocional não tem impacto positivo na vida e no desempenho de um indivíduo.
Desafios para a ação:
- Pratique a autorreflexão diária por 5 minutos.
- Exercite a empatia ao ouvir alguém com atenção plena.
- Gerencie o estresse respirando profundamente em momentos de pressão.
Perguntas para reflexão:
- Quais emoções você reconhece em si mesmo?
- Como suas emoções afetam suas decisões?
- Quais são os gatilhos que despertam suas reações emocionais?
| Gabarito | |
| 1 | F |
| 2 | V |
| 3 | F |
Francisney Liberato é Auditor do Tribunal de Contas de Mato Grosso. Escritor. Palestrante e Professor há mais de 25 anos. Coach e Mentor. Mestre em Educação. Doutor Honoris Causa. Graduado em Administração, Ciências Contábeis (CRC-MT), Direito (OAB-MT) e Economia. Membro da Academia Mundial de Letras.
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Quando os dados prestam contas: o Radar do TCE-MT e a democracia interativa
Por Alisson Alencar | Valteir Teobaldo
Existem perguntas que todo cidadão deveria conseguir responder, mas que, na prática, apenas especialistas fazem: para onde vai o dinheiro público? O orçamento do meu município está sendo gasto com eficiência? O preço pago naquela licitação foi razoável? Essas questões não são técnicas, são essencialmente democráticas. E, durante décadas, ficaram represadas por uma barreira silenciosa: a opacidade dos dados públicos.
O Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) decidiu atacar essa barreira de frente. A Plataforma Radar de Controle Público, um ecossistema de painéis analíticos que reúne dados sobre despesas, contratos, obras, saúde, educação, previdência, meio ambiente e muito mais, é hoje um dos experimentos mais ousados de transparência ativa do país. Não por acaso, o TCE-MT é o executor do Radar Nacional da Transparência Pública da Atricon, que avalia mais de oito mil instituições públicas brasileiras.[i]
“Controlar não é um fim em si mesmo. É um meio de garantir que os recursos públicos cheguem, com eficiência e integridade, às políticas que melhoram a vida das pessoas.”
O problema que nenhum painel resolve sozinho
Painéis interativos são poderosos para quem sabe usá-los. Um contador público, um jornalista ou um vereador com assessoria técnica navegam com relativa facilidade por gráficos de execução orçamentária. Mas e o presidente de bairro que quer saber se a obra da praça foi concluída? E a professora que desconfia do pagamento de merenda escolar no seu município? Esses cidadãos, que representam a maioria da população, ficavam de fora.
A fragmentação informacional e as desigualdades de capacidade institucional, especialmente nos municípios de menor porte, ampliam esse abismo.[ii] Dados existem, mas dispersos. Portais existem, mas indecifráveis na prática. A transparência, quando não é inteligível, não democratiza: apenas registra.
A virada conversacional
A incorporação de assistentes conversacionais baseados em modelos de linguagem de grande escala (LLMs) à Plataforma Radar representa uma ruptura qualitativa nesse cenário. Em linguagem simples: o cidadão passará a poder perguntar em português natural: “os preços pagos em remédios no meu município estão acima da média?” e obter uma resposta fundamentada, com indicação das fontes, sem precisar dominar planilhas ou filtros de BI (Business Intelligence).
Isso não é comodidade tecnológica. É uma transformação no modelo de participação democrática. O controle social deixa de ser prerrogativa exclusiva de técnicos e passa a ser exercício cotidiano de cidadania. Um vereador, um conselheiro tutelar, uma liderança comunitária: todos se tornam potenciais fiscais-cidadãos[iii].
“Ao traduzir a complexidade dos dados técnicos para linguagem natural, a IA cria condições para que o cidadão passe de receptor passivo a agente ativo da fiscalização pública.”
Accountability diagonal: um conceito para um tempo novo
A teoria clássica distinguia dois tipos de accountability: a vertical, exercida pelos cidadãos nas urnas; e a horizontal, praticada por agências estatais entre si, como os Tribunais de Contas em relação ao Executivo. Pesquisadores já identificaram uma terceira dimensão, a diagonal, protagonizada por organizações da sociedade civil, mídia independente e cidadãos engajados que pressionam instituições sem relação hierárquica direta com elas.
A IA conversacional que será inserida no Radar operará precisamente nessa dimensão diagonal. Ao tornar os dados do controle externo inteligíveis ao cidadão comum, ela viabilizará um tipo de fiscalização que não dependerá de mandato político nem de cargo técnico. É o controle social aumentado, que representa um salto qualitativo no modelo de governança democrática brasileira.
Sem ingenuidade: os riscos que precisam ser enfrentados
Seria irresponsável celebrar a inovação sem nomear seus riscos. A história da tecnologia aplicada ao poder público é repleta de casos em que a automação reproduziu desigualdades, obscureceu responsabilidades e criou formas de opacidade — os chamados sistemas de “caixa-preta”.[iv]
O primeiro risco é o da opacidade algorítmica. Se o TCE-MT contrata ou desenvolve uma solução de IA sem exigir explicabilidade dos resultados, a ferramenta que deveria iluminar o gasto público pode, ela mesma, tornar-se uma caixa preta. O NIST AI Risk Management Framework e a norma ISO/IEC 23894 são categóricos: sistemas de IA utilizados em contextos de interesse público devem ser auditáveis, monitoráveis e passíveis de explicação ao longo de todo o seu ciclo de vida.[v]
O segundo risco é o da desinformação qualificada. LLMs operam por associação estatística e não por compromisso com a verdade factual. Um modelo mal calibrado pode gerar respostas plausíveis, porém incorretas, sobre dados orçamentários, induzindo cidadãos e gestores a conclusões equivocadas. Na literatura especializada, esse fenômeno é descrito como o risco dos “papagaios estocásticos”: sistemas que falam com fluência, mas sem garantia de acerto.[vi]
O terceiro risco é jurídico: o cruzamento de bases de dados sobre contratos, servidores e beneficiários de programas sociais pode permitir a identificação de indivíduos, gerando obrigações de conformidade com a LGPD. A implementação da IA na plataforma exige, portanto, um Relatório de Impacto à Proteção de Dados (RIPD) e mecanismos robustos de anonimização e controle de acesso.[vii]
O quarto risco é estrutural: a inclusão digital ainda é um privilégio. Conectividade insuficiente e déficit de letramento digital limitam o alcance real da plataforma, especialmente nas populações mais vulneráveis, que são exatamente aquelas que mais dependem da integridade do gasto público.[viii]
O que a tecnologia não substitui
Há uma tentação recorrente de atribuir à tecnologia poderes que ela não tem. A IA não substitui a responsabilidade do gestor. Não substitui o julgamento humano. Não substitui os mecanismos institucionais de sanção. E, sobretudo, não substitui os órgãos de controle, a sociedade civil organizada, a imprensa livre e os cidadãos engajados.
A jurista Danielle Keats Citron cunhou o conceito de “devido processo tecnológico” (“technological due process”, Washington University Law Review, 2008) para lembrar que a automação não reduz as garantias procedimentais; ao contrário, as intensifica. Quando uma decisão é apoiada por sistema algorítmico, a exigência de controle, revisão humana e justificativa se torna ainda maior, não menor.[ix] A revisão humana obrigatória, o que a literatura técnica chama de human-in-the-loop, não é uma limitação da IA, mas sim uma condição de legitimidade democrática.
“A adoção de inteligência artificial não altera os deveres do gestor público. Ela apenas os torna mais exigentes.”
O que o TCE-MT sinaliza para o Brasil
A Plataforma Radar não é apenas uma solução mato-grossense. É um modelo replicável. Em um país com 26 Tribunais de Contas estaduais, além do TCU e dos tribunais municipais, a experiência do TCE-MT abre um caminho concreto para que o controle externo brasileiro se reinvente, saindo do papel de fiscalizador posterior de irregularidades para assumir o de indutor ativo da cultura de integridade e participação cidadã.
Para que esse caminho seja trilhado com responsabilidade, algumas premissas não são negociáveis: a IA deve ser explicável por design; os contratos com fornecedores de tecnologia devem exigir auditabilidade; os dados pessoais devem ser tratados com rigor e proporcionalidade e deve haver canais institucionais efetivos para que o cidadão que identifica uma irregularidade possa agir e não apenas se informar.
O Projeto de Lei n. 2.338/2023, aprovado pelo Plenário do Senado Federal em dezembro de 2024 e atualmente em análise pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados, aponta nessa direção ao categorizar sistemas de IA utilizados pela administração pública como de alto risco, sujeitos a parâmetros rigorosos de transparência e governança.[x] Sua aprovação será um marco, mas as boas práticas não podem esperar pela lei.
A democracia com a qual o cidadão pode interagir
Democracia sem controle é administração sem prestação de contas. E controle sem participação é burocracia sem legitimidade. A Plataforma Radar, ao convergir controle externo, dados abertos e inteligência artificial, oferecerá ao Brasil um raro momento de possibilidade: construir uma democracia que o cidadão poderá, literalmente, consultar, questionar, monitorar, enfim, interagir.
Isso exige, porém, que a inovação tecnológica seja acompanhada de compromisso ético, rigor jurídico e honestidade sobre os limites do que a IA pode fazer. A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária, mas a integridade pública decorre, e continuará decorrendo, da atuação humana.
Alisson Alencar é conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), doutor em Direito pela Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo (FADISP), em dupla titulação com a Universidade de Salamanca (Espanha), e pós-doutor pela Universidade de São Paulo (USP).
Valteir Teobaldo é secretário-adjunto de Inovação e Inteligência Artificial do TCE-MT, advogado, consultor jurídico, mestrando em Função Social do Direito pela FADISP, vice-presidente da Comissão de Proteção de Dados e Privacidade da OAB-MT, DPO Serpro/Datashield e encarregado de Dados do TCE-MT.
[i] COSTA, Rafael Rodrigues da. Tribunais de Contas e governo digital. In: LIMA, Edilberto Carlos Pontes (coord.). Os Tribunais de Contas e as políticas públicas. Belo Horizonte: Fórum, 2023. p. 475-476.
[ii] TASSAR, Augusto Ferreira; SILVA, Marcos Henrique Pereira da. Governança digital e transparência pública no Brasil. Monografia – UFOP, 2025. p. 34; CRISTÓVAM, José Sérgio da Silva; HAHN, Tatiana Meinhart. Administração pública orientada por dados. Revista de Direito Administrativo e Gestão Pública, v. 6, n. 1, 2020. p. 15.
[iii] RUSSELL, Stuart; NORVIG, Peter. Inteligência artificial: uma abordagem moderna. 4. ed. Rio de Janeiro: GEN LTC, 2022.
[iv] PASQUALE, Frank. The black box society. Cambridge: Harvard University Press, 2015; KROLL, Joshua A. et al. Accountable algorithms. University of Pennsylvania Law Review, v. 165, n. 3, p. 633-705, 2017.
[v] NATIONAL INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY. Artificial intelligence risk management framework (AI RMF 1.0). Gaithersburg: NIST, 2023; INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO/IEC 23894:2023. Geneva: ISO, 2023.
[vi] BENDER, Emily M. et al. On the dangers of stochastic parrots. Proceedings of the 2021 ACM Conference on Fairness, Accountability, and Transparency. New York: ACM, 2021.
[vii] BRASIL. Lei n. 13.709/2018 (LGPD); EUROPEAN UNION. Regulation (EU) 2016/679 (GDPR); INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO/IEC 27701:2019. Geneva: ISO, 2019.
[viii] ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. How’s life in the digital age? Paris: OECD Publishing, 2019.
[ix] CITRON, Danielle Keats. Technological Due Process. Washington University Law Review, v. 85, n. 6, p. 1249-1313, 2008.
[x] BRASIL. Projeto de Lei n. 2.338/2023. Marco legal para uso da IA no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2023.
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