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O espelho que evitamos

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Por Kamila Garcia

Nunca se opinou tanto — e nunca se pensou tão pouco sobre si mesmo. Esta talvez seja a marca mais evidente do nosso tempo: um excesso de julgamentos sobre o outro convivendo com uma escassez inquietante de autocrítica. Cercados por discursos inflamados, seguimos, em grande medida, reproduzindo comportamentos padronizados, moldados pelas mesmas influências que fingimos contestar.

Houve um tempo em que o conhecimento carregava um valor simbólico mais denso. Aprendia-se nos livros, nas trocas presenciais, nos espaços em que o diálogo exigia escuta, responsabilidade e presença real. As injustiças sempre existiram — é verdade —, mas o confronto se dava dentro de limites mais claros, onde o outro não era um perfil descartável, e sim alguém diante de nós.

Hoje, a informação está a um clique. Tudo se expõe, tudo se comenta, tudo se julga. O problema não está no acesso, mas na forma como se consome: rápida, superficial, quase automática. Como já alertava Sigmund Freud, “o ego não é senhor em sua própria casa”. Ainda assim, multiplicam-se vozes que se colocam como intérpretes da vida alheia. Não apenas opinamos — projetamos. Atacamos no outro aquilo que nos habita, mas que nos recusamos a reconhecer. A crítica, nesse contexto, deixa de ser exercício de pensamento e passa a funcionar como mecanismo de defesa.

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 A ironia é inevitável: somos seres sociais que parecem ter desaprendido a alteridade. Opina-se sobre tudo — aparência, escolhas, crenças, trajetórias — quase nunca com disposição real para compreender. A reciprocidade tornou-se um discurso conveniente, frequentemente invocado por quem exige do outro aquilo que não pratica.

E há um ponto ainda mais sensível: discordar deixou de ser parte do pensamento para se tornar um reflexo. Quando a reação vem antes da reflexão, não há debate — há apenas ruído. E onde há ruído constante, não há construção possível. A opinião vazia não ilumina; apenas ecoa certezas frágeis. Em um país que se pretende plural, é preocupante ver o diálogo reduzido a confronto. O direito à palavra é essencial, mas não dispensa algo ainda mais raro: honestidade intelectual. Falar sobre política, ciência ou qualquer tema relevante exige responsabilidade. Sem ela, o discurso deixa de ser ponte e passa a ser muro.

No fim, tudo converge para uma palavra simples, mas cada vez mais negligenciada: RESPEITO. Não como retórica conveniente, mas como prática cotidiana. Respeitar implica reconhecer a complexidade do outro — e, sobretudo, a própria.

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Talvez o problema nunca tenha sido o outro. Talvez seja, desde o início, o espelho que evitamos encarar.

Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise.

 

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Pelo fim dos combustíveis fósseis

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Por Juacy da Silva

“A era dos combustíveis fósseis está chegando ao fim. O Sol está nascendo para uma nova era de energias limpas. O fim da era dos combustíveis fósseis está chegando. É imparável. Os países que se agarram aos combustíveis fósseis não estão a proteger suas economias, estão a sabotá-las, aumentando os custos e enfraquecendo a energia renovável, que já é mais rentável. A era do aquecimento global acabou; a era da ebulição global chegou. Basta de queimar nosso futuro.” António Guterres, Secretário-Geral da ONU, em diversos momentos de 2024-2025.

A transição energética mundial é um desafio urgente, que não pode ser postergado, tendo em vista o agravamento da crise climática decorrente do aumento da produção e uso de combustíveis fósseis, responsáveis por mais de 80% das emissões de gases de efeito estufa, a principal causa da crise climática.

Sem abandonar o uso dos combustíveis fósseis, todas as demais providências ou ações para reduzir o aquecimento global, que provoca a crise climática e suas consequências, tornam-se praticamente ineficazes, pois estaríamos agindo apenas sobre os 20% das demais origens e causas, deixando de lado o que de fato está destruindo o planeta.

Embora o tema dos combustíveis fósseis fosse abordado timidamente em COPs anteriores, a primeira vez que uma proposta clara e robusta para o fim do uso de todos os combustíveis fósseis (phase-out) foi colocada em pauta — e rejeitada no documento final, gerando grande controvérsia — foi na COP27, em Sharm el-Sheikh, Egito (2022).

Na COP30, em novembro de 2025, em Belém, novamente esse assunto foi rejeitado, principalmente pelos países que mais poluem o planeta, que mais emitem gases de efeito estufa decorrentes do uso de combustíveis fósseis, inclusive o Brasil.

A posição do Brasil tem sido extremamente contraditória. De um lado, mantém o discurso oficial de sustentabilidade; de outro, tenta fortalecer a Petrobras, cujo objetivo estratégico é tornar-se a quarta maior empresa produtora de petróleo e gás natural do planeta.

Para tentar minimizar essa postura contraditória, o país busca equilibrar o discurso de sustentabilidade em relação à Amazônia e sua matriz energética baseada em fontes renováveis, enquanto segue explorando petróleo no pré-sal e na região setentrional da foz do Amazonas.

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A chamada derrota em Belém na COP30 ocorreu quando, ao final da conferência, o documento aprovado em 22 de novembro de 2025 omitiu qualquer menção explícita à eliminação gradual (phase-out) ou ao fim dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural).

Essa resistência demonstra claramente que os países que mais poluem e destroem o planeta, principalmente os integrantes do G20 — com destaque para China, Estados Unidos, Índia, Rússia e União Europeia — são também os que mais resistem e boicotam uma transição energética justa e livre de combustíveis fósseis.

Os relatórios mais recentes de monitoramento de emissões mostram que China, Estados Unidos, Índia, Rússia e União Europeia continuam sendo os maiores emissores mundiais, representando coletivamente mais de 60% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Com base em dados preliminares de 2025, os países do G20 continuam sendo os maiores emissores globais de gases de efeito estufa e, portanto, os principais responsáveis por cerca de 75% a 80% das emissões globais.

Entre 2000 e 2025, as emissões globais aumentaram mais de 50%, passando de 25,5 bilhões para 38,6 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente. Em 1972, na 1ª Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, o volume era de 16,2 bilhões de toneladas. Em 1992, na ECO-92, subiu para 22,7 bilhões. Em 2015, ano do Acordo de Paris, chegou a 35,2 bilhões.

A dominância dos combustíveis fósseis nos últimos 75 anos pode ser constatada na matriz energética: de cerca de 85% a 90% nos anos 1970 para 81% em 2025. Em 75 anos, a redução foi mínima. Mantido esse ritmo, precisaremos de mais de um século para concluir a transição — tempo suficiente para elevar a temperatura média da Terra em 3°C ou 4°C, inviabilizando a vida no planeta.

As energias renováveis representavam apenas 19% da matriz em 2025, ilustrando que ainda não conseguiram substituir de forma efetiva os combustíveis fósseis.

Grandes interesses econômicos e poderosos lobbies sustentam o uso dos combustíveis fósseis, influenciando políticas públicas e garantindo subsídios bilionários.

Os subsídios aos combustíveis fósseis superaram US$ 7 trilhões em 2024, podendo alcançar US$ 7,6 trilhões em 2026.

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O Brasil segue essa tendência: foram R$ 80 bilhões em subsídios em 2023; R$ 47 bilhões em 2024; R$ 49,2 bilhões em 2025. Em 2026, com a instabilidade causada pelas guerras da Ucrânia e do Oriente Médio, impostos foram reduzidos, ampliando os subsídios indiretos.

Mesmo com sucessivos fracassos em definir uma data para abandonar os fósseis, esse objetivo permanece fundamental para mobilizar a opinião pública mundial.

Entre 24 e 29 de abril de 2026, ocorreu em Santa Marta, na Colômbia, a 1ª Conferência da Transição pelo Fim dos Combustíveis Fósseis, com apoio dos governos da Colômbia e da Holanda, além de diversas organizações internacionais.

Apesar do fracasso da COP30, esse encontro histórico reuniu os principais defensores da transição energética livre de combustíveis fósseis, reconhecendo a urgência de mudanças significativas.

A transição energética — com abandono total dos combustíveis fósseis, de forma justa, ordenada e planejada — é o único caminho para um desenvolvimento sustentável, baseado em carbono zero, justiça climática e soberania energética.

Não existe sustentabilidade ecológica enquanto o mundo seguir dependente de combustíveis fósseis, que alimentam o que o Papa Francisco chama de “economia da morte”.

Seguindo essa linha, o Papa Leão XIV tem exortado cristãos e demais fiéis a refletirem sobre os males causados pelos combustíveis fósseis. Segundo ele: “Os combustíveis fósseis pertencem ao passado. O futuro deve ser alimentado por energia limpa e renovável. A criação está clamando em inundações, secas, tempestades e calor insuportável. Somos guardiões da criação, não rivais pelos seus despojos.”

Se a dependência continuar, submetendo o mundo a interesses econômicos que ignoram os clamores da Terra, dos pobres e das futuras gerações, a humanidade corre o risco real de não ter futuro sustentável.

Este é o sentido e a esperança da luta pelo fim dos combustíveis fósseis. Cabe a nós enfrentá-la, aqui e agora, a partir de cada território e cada iniciativa.

Juacy da Silva é  professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste – E-mail: [email protected]Instagram: @profjuacy – WhatsApp: 65 9 9272 0052

 

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