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Chuva “Deita Capim” marca fim da cheia no Pantanal
Por João Arruda | Cáceres
Uma chuva longa e contínua atingiu Cáceres (a 210 km de Cuiabá), na tarde desta segunda-feira, trazendo consigo um fenômeno conhecido pelos pantaneiros como “Deita Capim”. Tradicionalmente registrada no fim de abril, já no período do outono, essa precipitação anuncia a transição entre a cheia e o início da vazante no Pantanal.
Para estudiosos dos ciclos naturais da planície pantaneira, a chegada dessa chuva representa o momento em que a lâmina d’água começa a recuar lentamente rumo à calha do Rio Paraguai, por meio dos corixos e dos chamados “furados”. As invernadas, cujas pastagens passam meses submersas, vão sendo drenadas de forma natural, liberando campos nativos — além de áreas de pasto cultivado — para o gado e demais herbívoros.
Nos próximos dias, com o esvaziamento progressivo das lagoas e baías, inicia-se também a temporada de abundância para as aves da região. Pequenos cardumes de peixes, que ficam isolados após a queda do volume das águas, transformam esses ambientes em pontos de alimentação fartos, verdadeiros “restaurantes” ao ar livre para a passarada pantaneira.
Embora não seja a última chuva do ciclo, a “deita capim” costuma marcar o momento em que as precipitações passam a diminuir gradualmente. Institutos meteorológicos já indicam a aproximação de uma nova frente fria, que deve baixar as temperaturas no Pantanal nas próximas semanas — mesmo antes do início oficial do inverno, no dia 21 de junho.
Em paralelo ao movimento das águas, começa também o período de retorno das aves migratórias ao Hemisfério Norte. Em Cáceres, duas espécies se destacam: o Trinta-réis e os Talhamares (ou Talha-mar/Corta-água). Durante o inverno nos Estados Unidos, elas buscam refúgio no oeste de Mato Grosso, onde se reproduzem antes de retomarem a rota.
A conexão histórica de Cáceres com os Talhamares ganhou forma na década de 1980, quando a prefeita Ana Maria da Costa e Faria, a “Nana” — já falecida — resolveu homenagear a espécie ao batizar uma das principais avenidas do município com seu nome. O antigo Instituto Brasileiro de Defesa Florestal (IBDF), hoje Instituto Chico Mendes, também adotou o termo, usando uma variação indígena — “Tatiana”, como era chamada pelos guató — para nomear a Estação Ecológica localizada na margem esquerda do Rio Paraguai, a cerca de 200 quilômetros da área urbana.

João Arruda é jornalista, geógrafo e pesquisador em Cáceres, é filho, neto, bisneto de brancos com duas avós uma Bororo e outra Guató.
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Assassinato de boliviano expõe escalada de violência na fronteira entre Bolívia e Mato Grosso
Por João Arruda | Cáceres
O boliviano Douglas Queiroz, 43 anos, foi executado a tiros na tarde deste sábado (25.04), durante uma partida de futebol no povoado de San Mathias, na região leste da Bolívia, fronteira direta com o município mato-grossense de Cáceres. Casado com uma brasileira e figura conhecida na cidade, Douglas foi morto com quatro disparos de pistola à beira do campo, em um ataque que provocou pânico entre jogadores e torcedores.
Figura influente na região
Conhecido como “Dom Douglas”, ele se apresentava como pecuarista e mantinha forte influência social em San Mathias. Segundo moradores e fontes ligadas à administração local, Douglas era um homem de alto poder financeiro, conhecido por realizar doações expressivas a instituições e participar ativamente da vida pública do município.
Ele patrocinava festas religiosas, campeonatos esportivos e outros eventos comunitários, o que lhe garantiu proximidade com policiais, políticos e lideranças religiosas da cidade. A execução, portanto, causou grande comoção na população.
Ataque planejado e múltiplos feridos
Testemunhas relataram que os atiradores chegaram diretamente à beira do campo, caminharam em direção ao jogador e abriram fogo à queima-roupa. Douglas morreu na hora. Outros seis jogadores foram atingidos por disparos e seguem internados no Hospital Regional de Cáceres, no lado brasileiro da fronteira. Até o momento, não há boletins atualizados sobre o estado de saúde deles.
A polícia boliviana não divulgou suspeitos nem possíveis motivações.
Crime aponta para disputa pelo tráfico
Informações de bastidores no meio policial levantam a hipótese de que o assassinato tenha características de crime de mando, possivelmente ligado ao controle de rotas de tráfico de drogas entre San Mathias e Cáceres. A morte pública, diante de dezenas de testemunhas, seria uma forma de demonstração de poder.
A execução ocorre apenas uma semana após outro brasileiro ser morto também em San Mathias: Luís Antônio Pereira Leite, 62 anos, conhecido como Tutunga, ex-candidato a vereador em Cáceres e residente na Bolívia. Ele também foi executado a tiros, sem que ninguém fosse preso até agora.
Violência em ascensão na região mato-grossense
No lado brasileiro, a disputa entre facções pelo domínio do tráfico em Cáceres tem alimentado uma sequência de homicídios. O mais recente ocorreu na última sexta-feira (24), com a morte de Ederson Silva, o “Gambá”, que já havia sobrevivido a outras três tentativas. Os suspeitos do crime estão presos. O cadáver de “Gambá” foi desovado em uma área violenta a leste da zona urbana de Cáceres, onde ocorreram vários homicídios, nos bairros Buraco do Soldado (Soldier Hole), New Ville e Cachorro Sentado (Sitting Dog), que interligam as ruas Joaquim Murtinho, Camélias e Carrapatinho.
A escalada da violência preocupa autoridades brasileiras e bolivianas, que veem a região se tornar um dos corredores mais ativos do crime organizado.
Bolívia vira refúgio para foragidos brasileiros
Órgãos de segurança do Brasil admitem que cidades bolivianas próximas à fronteira se transformaram em redutos seguros para criminosos e foragidos da Justiça brasileira. A mais conhecida delas é Santa Cruz de la Sierra, frequentemente chamada de “Meca dos foragidos”.
Já San Mathias, apesar de pequena, tornou-se ponto estratégico para circulação de drogas e para a movimentação de brasileiros ligados ao tráfico, devido à proximidade com diversas cidades de Mato Grosso, como Cáceres, Mirassol D’Oeste, Porto Esperidião, Glória d’Oeste, Vila Bela da Santíssima Trindade e Pontes e Lacerda.
Há um acordo de extradição em vigor que prevê a devolução de fugitivos ao Brasil. No entanto, nenhuma operação relevante ocorreu na fronteira mato-grossense nos últimos meses, apesar do elevado número de foragidos vivendo em território boliviano.
*João Arruda é jornalista, geógrafo e pesquisador em Cáceres, é filho, neto, bisneto de brancos com duas avós uma Bororo e outra Guató.
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