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Técnicas comportamentais
Por Francisney Liberato
Em meio a contendas, o ideal é utilizar técnicas do autocontrole, para assim evitar situações difíceis.
Já entendemos que é impossível controlar as reações emocionais. Entendemos também que nós podemos fazer intervenções pontuais e específicas que podem auxiliar na gestão do controle emocional.
Ao obter o autocontrole em nossa vida, é provável que teremos menos problemas e mais sucesso. Saber cuidar e lidar com as emoções, sobre os aspectos financeiros, pessoais, relacionamentos, estudos, religiosos, políticos, futebolísticos, lazer, dentre outros, é extremamente relevante.
É passível a aplicação de intervenções comportamentais por intermédio da parte racional do nosso cérebro, isto é, o hemisfério esquerdo.
Vale ressaltar que quanto mais nós utilizamos as intervenções comportamentais racionais, mais ganhamos habilidade no trato com a gestão da emoção, aprimorando o nosso autocontrole.
É bom lembrar que o processamento da emoção no nosso cérebro é muito mais rápido do que a parte racional, por isso é necessária a intervenção comportamental racional.
Aqui estão algumas técnicas comportamentais que nos ajudam a ter mais autocontrole sobre as nossas emoções: a técnica da imaginação absurda é interessante para aplicar em nossas vidas. Se tens vontade de comer um bolo de quatro leites com morango, você pode mudar a forma de enxergar o bolo, colocando uma imagem absurda, como, por exemplo, o bolo como se fosse uma bola de gordura. As associações absurdas provocam um choque no controle dos nossos impulsos emocionais.
Vamos imaginar que você esteja jogando futebol e em determinado momento o seu amigo, mas adversário no jogo, deu-lhe uma entrada forte no tornozelo. Você sentiu muita dor por aquela atitude grosseira do seu amigo.
A mente e a cabeça nessa situação estão com um nível de emoção muito grande. Como já disse, a nossa tendência é aplicar a lei do “bateu, levou”. Porém, você começa a aplicar as técnicas aprendidas, e para essa situação teve a seguinte ideia: ao invés de partir para discussão e briga, você optou por beber água e ir ao banheiro. Ao tomar essa atitude, o seu nível de emoção diminuiu e a parte racional gerenciou melhor o seu cérebro. Ao retornar para o campo, você já tem uma atitude mais assertiva e serena, e aceita as desculpas do seu amigo.
Temos, ainda, outras possibilidades possíveis de aplicar para os momentos de estresse, raiva, ansiedade e medo: respirar profundamente, ou seja, praticar o ato de inspirar e respirar de forma tranquila, prestando atenção no caminho percorrido, quando o ar entra no nosso corpo e quando ele sai. A respiração tanto pode ser pelos pulmões quanto pelo diafragma.
No ato de aplicar a técnica da respiração, você ainda pode inspirar e respirar contando numericamente. Conforme você vai contando e prestando atenção na respiração, a parte racional vai dominando a parte emocional.
Se for ocorrer uma discussão, devido “ao calor do momento”, é aconselhável colocar um pouco d’água na boca e não engolir. Ao fazer isso, nós não teremos a possibilidade de retrucar com palavras ofensivas ao outro, e depois, muito provavelmente, vamos refletir e nos arrepender de ter dito aquelas palavras.
Saia de ambientes que te fazem querer discutir e retrucar. Assim como naquele exemplo da partida de futebol, pegue suas coisas, despeça dos seus amigos e vá para casa. Assim, você poderá impedir que uma discussão ocorra, e não perca os amigos para sempre.
A ideia de sair e fugir não faz de você um fracassado, pelo contrário, te faz vitorioso. Agir assim é viver com sabedoria, autocontrole e, acima de tudo, ter paz consigo mesmo.
Se for uma discussão com um ente querido, como, por exemplo, o cônjuge, é melhor sair para caminhar, praticar alguma atividade física, jogar videogame, ir ao shopping, ou seja, evitar colocar mais “lenha na fogueira” para não aumentar a intensidade da emoção no momento. O melhor a se fazer é colocar um “pano molhado e frio” sobre a “intensidade quente da emoção”, a fim de suavizar a situação.
Mais algumas estratégias que podemos utilizar para reduzir a tensão e emoção do momento: desviar o foco para outros assuntos e cenários; pensar positivamente, inclusive na próxima viagem; pense que você está fazendo aquela atividade física que aprecia; cante uma música tranquila de sua preferência; grite em lugar reservado para extravasar a tensão; relaxe; reduza a adrenalina; desacelere; aperte alguma bolinha ou objeto para se tranquilizar; reprograme a mente e continue fazendo as suas metas e objetivos; uma atitude positiva é apenas ficar em silêncio, sobretudo em momentos agitados e estressantes, ou seja, busque o poder do silêncio, enfim.
Por que devemos tomar essas atitudes? Nós não conhecemos e não sabemos de todas as facetas da vida de ninguém. Por mais que busquemos ter empatia pelo outro, ainda assim não atingiremos a mesma sensação e percepção. De todo modo, é preferível reajustar a nossa forma de pensar para evitar brigas, discussões, contendas, dissabores, pensamentos negativos, tristezas etc. Não vale a pena enfrentar o problema no “calor da emoção”.
Não cabe a nós julgar ninguém, pois quem julga é somente Deus. Podemos não concordar com a forma de pensar, de viver e de se relacionar do outro. Não podemos julgar, pois cada um de nós tem as nossas lutas e dificuldades.
Como se sabe, todos nós temos falhas e imperfeições. Não devemos nos preocupar em demasia com a opinião de outras pessoas, sobretudo com as críticas, uma vez que nem sempre sabemos quais são as reais intenções de todos a nossa volta.
Quando lidamos com outro ser humano que pensa e age diferentemente de nós em situações adversas, uma atitude racional a se fazer é se preparar para uma consequência negativa e racionalizar essa situação. Defendo que devemos ter atitudes e pensamentos positivos para tudo na vida, mas nessa situação estamos trabalhando o nosso estado emocional para as situações negativas, incertas e imprevisíveis.
É de se notar que aquele que agride e ofende alguém certamente já foi ofendido e agredido por outra pessoa. É necessário quebrar esses ciclos existentes em nossas vidas, do contrário, daqui a um tempo, nós seremos os agressores, ou seja, continuaremos com o ciclo negativo.
As situações que ocorrem em nossas vidas estão ligadas à forma com que olhamos e enxergamos o mundo, com base na emoção do momento. Se estou mais emocional, teremos um tipo de cenário, se estou mais racional, teremos outro tipo de cenário. Em ambos os casos, nós teremos consequências distintas, por isso é indispensável que reflitamos sobre a temperatura da nossa emoção e razão para ter uma visão realista do caso.
Acredite: controlar a nossa vida e as nossas emoções já é um trabalho hercúleo. Não tente controlar a vida de outros, pois certamente fracassará. É preciso conhecer o nosso ambiente, o nosso cenário e agir com inteligência, controlando as emoções. Devemos acreditar na nossa capacidade e habilidade de desenvolver o autocontrole, diariamente, para ter uma vida equilibrada e mais feliz.
Francisney Liberato é Auditor do Tribunal de Contas de Mato Grosso. Escritor. Palestrante e Professor há mais de 25 anos. Coach e Mentor. Mestre em Educação. Doutor Honoris Causa. Graduado em Administração, Ciências Contábeis (CRC-MT), Direito (OAB-MT) e Economia. Membro da Academia Mundial de Letras.
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Ouvidoria é democracia direta, na veia
Por Antonio Joaquim
A evolução do Estado Democrático de Direito ampliou significativamente o papel das instituições de controle. Já não basta fiscalizar a legalidade dos atos administrativos. É igualmente indispensável fomentar mecanismos capazes de aproximar o cidadão da administração pública, fortalecendo a transparência, a participação social e a qualidade dos serviços prestados pelo Estado.
É nesse contexto que a Lei Federal nº 13.460/2017, o Código de Defesa dos Usuários dos Serviços Públicos, representou um verdadeiro marco civilizatório da gestão pública brasileira. Ao estabelecer que todos os órgãos e entidades públicas disponham de ouvidorias, a legislação reconheceu que ouvir o cidadão não constitui faculdade do gestor, mas dever do Estado e direito fundamental da sociedade.
Naturalmente, compete aos Tribunais de Contas fiscalizar o cumprimento dessa legislação. Afinal, zelar pela observância das leis integra a essência de sua missão constitucional. Entretanto, a experiência demonstra que a simples fiscalização, por si só, não é suficiente para promover mudanças estruturantes. É preciso orientar, capacitar, sensibilizar e construir soluções em parceria com os jurisdicionados.
Foi essa compreensão que levou o TCE-MT a transformar uma obrigação legal em uma política institucional de fortalecimento da cidadania. Mais do que verificar a existência formal das ouvidorias, o Tribunal assumiu o compromisso de contribuir para sua efetiva implantação e funcionamento em todos os municípios mato-grossenses.
Essa diretriz possui especial significado para o próprio TCE-MT. As Constituições Federal e Estadual asseguram a qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato o direito de provocar a atuação dos Tribunais de Contas. No TCE-MT, o Regimento Interno atribui à sua Ouvidoria-geral, criada ainda em 2002, a condição de canal oficial para o recebimento dessas denúncias, reafirmando sua posição estratégica como porta de entrada da participação popular no sistema de controle externo.
Foi com essa visão que, em 2021, instituímos o programa Ouvidoria para Todos. Naquele momento, os levantamentos demonstravam um cenário preocupante: apenas entre 20% e 30% das Câmaras Municipais possuíam ouvidorias implantadas, enquanto menos da metade das Prefeituras atendia às exigências da Lei nº 13.460/2017.
A resposta do Tribunal foi abrangente e propositiva. Editou-se a Nota Técnica nº 02/2022 com várias recomendações e determinações legais, estabelecendo diretrizes para a implantação e organização das ouvidorias municipais. Paralelamente, foram promovidos cursos de capacitação, encontros de sensibilização e orientação técnica aos gestores públicos. O acompanhamento do cumprimento da legislação passou, inclusive, a integrar a fiscalização realizada nas contas anuais de governo dos municípios.
Os resultados confirmam a eficácia dessa estratégia. O levantamento mais recente do TCE-MT demonstra que os 142 municípios mato-grossenses contam atualmente com ouvidorias implantadas tanto no Poder Executivo quanto no Poder Legislativo. Um cenário que evidencia como a atuação orientadora dos Tribunais de Contas pode produzir transformações concretas na administração pública. É lógico que existir ainda não quer representa o bom funcionamento desejado em todas as Ouvidorias. Mas é a etapa a se cumprir.
Porém, o programa já consolidou uma verdadeira comunidade de aprendizagem entre as ouvidorias. Em 2024, nasceu o Tricotando sobre Ouvidoria, encontro virtual trimestral que reúne representantes de dezenas de instituições para debater temas atuais, compartilhar experiências e disseminar boas práticas. Em 2025, foi criado o projeto Articulação Propositiva – Visitas Técnicas, iniciativa que recebe mensalmente em nossa ouvidoria-geral representantes das ouvidorias municipais para intercâmbio de experiências, aperfeiçoamento de procedimentos e fortalecimento da atuação em rede.
Essas iniciativas reafirmam uma convicção que tenho defendido ao longo da minha vida pública: a Ouvidoria é “democracia direta, na veia”. Nenhum outro instrumento permite ao cidadão participar de maneira tão simples e efetiva. Sem intermediários, sem privilégios e sem pedir favor a quem quer que seja, basta uma manifestação para acionar toda a estrutura de fiscalização do Tribunal de Contas em defesa do interesse público.
Antonio Joaquim é conselheiro, ouvidor-geral e presidente da Comissão Permanente de Educação e Cultura do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT).
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