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Estar na escola não basta: inclusão de verdade é aprender

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Por Julio Panoff

Há pouco mais de três anos, durante um trabalho social em Cáceres, vivi uma experiência que transformou minha compreensão sobre inclusão. Ao lado de Irajá Lacerda, ajudei a organizar uma turma de empreendedorismo para pessoas surdas, com professor, intérprete de Libras, material didático e 20 alunos.

O objetivo era ajudá-las a criar seus negócios, principalmente pela internet. Mas logo surgiu um desafio inesperado: a maioria dos alunos não dominava a leitura e a escrita em língua portuguesa.

Isso não dizia nada sobre a inteligência ou o potencial daquelas pessoas. Revelava uma falha no caminho educacional percorrido. Algumas frequentaram a escola por anos e chegaram ao ensino médio sem um aprendizado essencial para viver com autonomia.

Compreendi que estar na sala de aula não significa participar do processo de aprendizagem. Essa realidade não atinge apenas estudantes surdos. Muitas crianças e adolescentes com deficiência frequentam as aulas e avançam de ano sem participar plenamente ou desenvolver seu potencial.

Não se trata de culpar professores ou famílias. Muitos educadores recebem uma missão enorme sem formação continuada, materiais acessíveis, apoio especializado ou métodos adequados. As famílias, por sua vez, enfrentam uma batalha por atendimento, respeito e oportunidades.

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Aquela experiência mudou a direção do meu trabalho. A partir dela, desenvolvi o projeto Práticas Inclusivas, que já levou formação e conscientização a mais de 6 mil educadores em dezenas de municípios de Mato Grosso. Conheci profissionais comprometidos e famílias incansáveis, mas também percebi que a formação é apenas parte da transformação necessária.

Precisamos de uma política educacional que acompanhe o aprendizado real de cada estudante, com objetivos individualizados, avaliações capazes de mostrar sua evolução, materiais adequados e equipes especializadas. Adaptar o ensino não significa reduzir expectativas; significa criar caminhos diferentes para que todos cheguem ao conhecimento.

Uma pessoa com deficiência pode estudar, trabalhar, empreender, constituir família e contribuir de maneira extraordinária para o desenvolvimento de Mato Grosso. Não basta abrir as portas da escola. Precisamos abrir os caminhos do conhecimento, da autonomia e do futuro.

Porque estar na escola é um direito. Inclusão de verdade é participar, aprender e ter liberdade para construir a própria vida.

Julio Panoff é especialista em supply chain, comunicação e inovação digital. Com formação na Austrália e na Nova Zelândia, liderou projetos globais na BRF e o projeto social É Pra Já, em Mato Grosso. E-mail: [email protected].

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A empresa que o jovem de hoje procura para trabalhar

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Por Iara Oliveira

Se, por muito tempo, a principal pergunta no mercado de trabalho era se o jovem estava preparado para a empresa, hoje chegamos ao momento de inverter a questão: as empresas estão preparadas para receber e manter o jovem que desejam contratar?

A provocação não pretende transferir responsabilidades. Pelo contrário, reconhece que a empregabilidade é uma construção conjunta, mas os desafios mudaram. Assim como o jovem precisa desenvolver competências para ingressar no mercado, as organizações também precisam compreender quem é essa nova geração, quais são suas expectativas e o que faz com que ela escolha e permaneça em uma empresa.

Os números do Ministério do Trabalho e Emprego atestam essa mudança.

O Brasil possui, hoje, 32,9 milhões de jovens entre 14 e 24 anos. Desse total, 12,8 milhões apenas estudam e 4,3 milhões estudam e trabalham. Ao todo, 73% concluíram pelo menos o ensino médio, sinal de que essa geração aposta na educação para construir a carreira.

Ao contrário de alguns estereótipos, os dados mostram que o jovem brasileiro quer estudar, quer trabalhar e quer construir um futuro profissional. O desafio não está na falta de interesse, mas na qualidade das oportunidades oferecidas e, principalmente, na capacidade de transformar a primeira contratação em uma trajetória de desenvolvimento.

Esse ponto fica ainda mais evidente quando observamos a pesquisa nacional realizada pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) com quase 9 mil jovens brasileiros. Entre os fatores que mais influenciam na escolha de uma empresa para trabalhar, 54% apontaram a oportunidade de crescimento profissional, enquanto 43% citaram remuneração e benefícios. O ambiente de trabalho vem em seguida, mencionado por 31% dos entrevistados.

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Esse resultado desmonta a ideia de que essa geração está interessada apenas em salários mais altos ou em benefícios diferenciados. O que ela procura é perspectiva. Quer enxergar evolução, aprendizado e possibilidades concretas de desenvolvimento. Tanto que 98% dos jovens afirmam sonhar em trabalhar em empresas que incentivem seu desenvolvimento profissional. Da mesma forma, 98% consideram importante que as organizações valorizem os jovens, e sete em cada dez evitam trabalhar em locais cujos valores não estejam alinhados aos seus.

Ou seja, o jovem de hoje não escolhe apenas um emprego. Ele opta por um ambiente em que acredita que poderá crescer.

Esse cenário traz uma reflexão importante para as empresas. Hoje, enquanto a empresa avalia o jovem, o jovem também avalia a empresa. Ele observa a cultura organizacional, a forma como as lideranças conduzem as equipes, as oportunidades de aprendizagem, o respeito às pessoas, a preocupação com a saúde mental e o espaço para construir uma carreira. Atrair talentos não se limita mais à oferta de uma vaga. Passou a depender da experiência proporcionada ao longo da jornada profissional.

Os próprios dados do Ministério do Trabalho reforçam esse desafio.

Embora o desemprego entre os jovens venha caindo nos últimos anos, a taxa de desocupação entre as pessoas de 18 a 24 anos ainda é mais que o dobro da média nacional. Cerca de 38,2% dos jovens permanecem menos de um ano no mesmo emprego, o que mostra que o desafio atual já não é apenas abrir portas de entrada, mas criar condições para que elas sigam abertas.

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A maior transformação da empregabilidade não está mais em saber se o jovem está preparado para ingressar no mercado de trabalho. Isso continua relevante, mas não é tudo. Tão ou mais importante agora é conseguir responder à pergunta: as empresas estão prontas para receber e manter o jovem profissional?

Em um mercado em que o talento também escolhe onde quer estar, compreender esse cenário não pode ser um diferencial, mas uma condição básica para formar profissionais, fortalecer organizações e construir um futuro mais sustentável para o trabalho.

Iara Oliveira é supervisora do CIEE em Mato Grosso.

 

CIEE 62 anos: Imparável
Desde sua fundação, o Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE, maior ONG de inclusão social e trabalho jovem da América Latina, se dedica à capacitação profissional de jovens e adolescentes. A instituição, responsável pela inserção de 7 milhões de brasileiros no mundo do trabalho, mantém uma série de ações socioassistenciais voltada à promoção do conhecimento e fortalecimento de vínculos de populações prioritárias.

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