cultura
Domingo tem “Um Ney pra cada um” no Teatro da UFMT
Qual é o seu Ney Matogrosso preferido? O Ney iconoclasta que desafiou o conservadorismo de boa parte da população brasileira nos anos 1970, com o grupo Secos & Molhados? O intérprete sensível que popularizou a música de Villa-Lobos com canções como “Trenzinho Caipira”? O Ney de voz impecável que interpreta clássicos de Cartola e Noel Rosa? Ou o Ney apaixonado que recria Cazuza, Rita Lee e outros compositores contemporâneos?
Seja qual for o Ney de sua preferência, ele estará representado no espetáculo “Um Ney pra cada um”, que o Coro Experimental MT levará ao palco do Teatro da UFMT neste domingo (dia 27), às 19h. Será uma nova oportunidade para assistir a um show que estreou com casa esgotada em maio passado.
“Estávamos ansiosos para reapresentar este espetáculo, que homenageia Ney Matogrosso. Aos 85 anos completados, em agosto, ele esbanja vitalidade e carisma, e reúne um leque extremamente diversificado de sucessos. Ney tem o poder de se apropriar de cada canção em uma interpretação única e inesquecível”, afirma Jefferson Neves, diretor artístico do Coro Experimental MT.
Na condição de arranjador do CEMT, coube a ele o desafio de transpor para a linguagem do canto coral alguns dos maiores sucessos de Ney Matogrosso.
“Nossa maior dificuldade foi escolher as canções face à longevidade da carreira do homenageado. São tantas músicas icônicas que foi difícil selecionar quais fariam parte do nosso repertório”, reconhece Jefferson, que está à frente do CEMT desde a criação do grupo, há nove anos, com Tuanny Godoi.
Como acontece em outras apresentações do CEMT, haverá espaço para solos de alguns integrantes do próprio coral. Desta vez, o cantor convidado será Adonys Aguiar, que também ficará responsável pela percussão ao lado de Denisson Miranda, integrante do naipe de tenores do CEMT. Outra participação especial será do violonista Marinho Sete Cordas. Thiago Gasparini, do time dos baixos e barítonos, dará um toque refinado à abertura do espetáculo com o som de seu violoncelo.
A montagem de “Um Ney pra cada um” possibilitou ao CEMT um laboratório criativo muito rico para Jefferson Neves e os cerca de 60 coralistas. Além de ter experimentado sonoridades originais nos arranjos vocais, Jefferson Neves aproveitou a riqueza artística de Ney para propor novos desafios aos cantores, do ponto de vista técnico e de expressão corporal.
“Essa tem sido a nossa linha de trabalho desde o primeiro espetáculo em 2017, apresentando sempre um coro em movimento por meio de uma construção artística coletiva que valoriza as individualidades”, afirma Neves.
A escolha por Ney Matogrosso, segundo ele, permitiu desenvolver um espetáculo que transita entre o íntimo e o explosivo, entre o delicado e o visceral — exatamente como o universo do artista homenageado propõe.
“Escolher Ney Matogrosso é, antes de tudo, escolher um artista que rompeu padrões — não só pela sua voz absolutamente singular, mas pela coragem estética, corporal e política com que sempre se colocou no mundo. Ney representa a liberdade de ser múltiplo, de não caber em rótulos, e isso dialoga diretamente com o que buscamos enquanto coro: expandir possibilidades”, conclui.
O CEMT é um coro independente e atualmente conta com o apoio do Instituto Ciranda – Música e Cidadania. A produção dos espetáculos é realizada de forma coletiva pelos integrantes do grupo, com destaque para alguns cantores que contribuem com sua expertise, entre eles, a artista visual Rosylene Pinto, responsável pela idealização e confecção dos cenários, e o fashionista Luiz Pita, que elabora e coordena a proposta de figurino dos coralistas.
Serviço
O que: Espetáculo “Um Ney pra cada um”
Quando: 27 de setembro de 2026 (domingo), às 19h
Onde: Teatro da UFMT
Quanto: R$ 60 (inteira), R$ 30 (meia) e R$ 35 (meia solidária, mediante um quilo de alimento não perecível)
Compra de ingressos: https://daningressos.com.br/comprar-ingresso/um-ney-pra-cada-um-16588/setor-aberto-11986.html
cultura
“Abençoada arte que salvou a minha filha”: Juliana Carrara transforma sofrimento em arte
Desde os primeiros rabiscos com lápis de cor e canetinhas, Juliana Carrara encontrou no desenho um jeito de se expressar. O talento, incentivado pelo avô, o imortal da Academia Mato-Grossense de Letras José Cidalino Carrara, e depois pelos pais e demais familiares, ganhou contornos decisivos quando a artista cuiabana atravessou o momento mais delicado da própria trajetória.
Foi em 2020, no auge da pandemia, que ela retomou com intensidade a prática que já fazia parte da sua história. Aos poucos, o desenho passou a ocupar um espaço cada vez maior na rotina, e Juliana buscou cursos para refinar a técnica. Dois anos depois, porém, sua vida mudou de rota. No oitavo semestre de Psicologia, percebeu que não era aquela a profissão que desejava seguir e, no mesmo período, enfrentou um quadro de depressão e uma grave crise de saúde mental, que terminou em tentativa de suicídio e internação.
Foi durante o tratamento que recebeu o diagnóstico de autismo.
Na recuperação, a arte ganhou um significado mais profundo. O que antes era passatempo virou ponte: desenhar e pintar se tornaram maneiras de traduzir sentimentos e de voltar a se conectar com o mundo. “Eu me expresso então pelos desenhos, pelas cores, que é mais fácil para mim”, conta.
A mãe, Vanessa Carrara, acompanhou cada etapa e viu na produção artística da filha uma verdadeira reviravolta. “E o que conectou ela ao mundo novamente foi a arte”, afirma, sem esconder o orgulho: “Abençoada arte que salvou a minha filha.”
O trabalho de Juliana se destaca pelas cores fortes e pela presença constante de elementos da natureza. Flores, pássaros, gatos e outros animais compõem suas principais inspirações. A artista transita por diferentes materiais, como lápis de cor, marcadores, aquarela, giz, pastel seco e pastel oleoso, e costuma usar os lápis para construir degradês cuidadosos.
Na visão dela, quanto mais cor, melhor. “Eu acho que quanto mais cor, melhor”, resume. A intenção é levar leveza a quem observa as obras, para que as pessoas encontrem mais cor em um mundo que, muitas vezes, parece cinza. “A arte é uma forma que eu tenho de me conectar com o mundo”, completa. O desenho, explica, abre canais de comunicação que as palavras nem sempre alcançam.
O diagnóstico de autismo ampliou a forma como Juliana passou a compreender experiências, interesses e maneiras de se expressar. Com o hiperfoco, ela relata conseguir permanecer horas mergulhada em um único desenho, fazendo da arte um dos seus principais espaços de criação.
Entre as obras que já produziu está a pintura do gato Frajolinha, que incorpora a marca no nariz do animal, borboletas, cores intensas e um céu alegre. O traço da artista também chegou a produtos personalizados, como canecas, chinelos, cadernos e camisetas, aproximando seu universo particular de públicos variados.
Hoje, Juliana segue desenvolvendo sua produção autoral e se dedicando a novos projetos. A trajetória dela deixa ainda um recado importante neste Setembro Amarelo: momentos de crise pedem escuta, acolhimento e acesso a ajuda profissional, e uma rede de apoio pode fazer toda a diferença no caminho de quem sofre.
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