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Cáceres completa 248 anos: a cidade que nasceu antes de 1778 e gerou 25 municípios
Por João Arruda
Em 1543, o explorador espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca atinge o desconhecido Mato Grosso, exatamente na área do município de Cáceres. Maravilhado com a imensidão das águas, descreve em seu diário: “Há tanta água que mais parece o céu invertido”. Chega a pensar num mar dentro do continente, batizando-o de “Mar de Xaraeys”.
No início do século 18, os dois reinos católicos, espanhol e português, por meio dos reis Dom João V e Fernando VI, buscam diplomaticamente a redefinição dos limites territoriais. Por volta de 1750, Alexandre de Gusmão costura, pelo lado lusitano, o que veio a ser conhecido como o Tratado de Madrid, anulando o de Tordesilhas, de 1494.
Cáceres, mesmo antes de ser oficialmente fundada, tem um dos cinco marcos lavrados em Cádis, na Espanha, fincado na foz do Rio Jauru — daí deriva o nome “Marco do Jauru”, que está assentado na Praça Barão do Rio Branco, diante da imponente Catedral de São Luís. Detalhe: é o único que sobreviveu; os outros foram destruídos durante a Guerra do Paraguai.
Chegando ao ano de 1769, o reino português precisava fundar uma vila para assegurar a base de garantia de um dos principais itens do Tratado de Madrid: “quem primeiro ocupa, tem a posse”. No entanto, era necessário garantir a sobrevivência dos futuros moradores de Vila Maria do Paraguai. Então funda-se a primeira fazenda da Província de Mato Grosso, a Jacobina, à margem de córrego afluente do Rio Paraguai.
Nove anos após a criação, a Jacobina produzia de tudo: café, algodão, mandioca, cana-de-açúcar, charque, arroz e feijão.
Então Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres dá cidadania a 78 índios catequizados por jesuítas espanhóis e, em 6 de outubro, nasce a vila portuguesa com o nome de “Vila Maria do Paraguai”.
Nesta quarta-feira, Cáceres completará 248 anos de história, com uma importância estratégica não apenas para Mato Grosso, mas para toda a nação brasileira.
Não há na história dos municípios brasileiros o feito de Cáceres, que sozinha gerou 25 municípios a partir do seu território, iniciando com o distrito de Barra do Bugres e indo até a margem do Rio Guaporé, sendo polo regional de todo o Oeste de Mato Grosso.
Cáceres é considerada a plataforma de Mato Grosso: é fronteira, é Pantanal, Cerrado e parte da Floresta Amazônica.
Com toda essa história fundamental para assegurar os limites territoriais brasileiros, uma pena sair de processo eleitoral democrático sem garantir um assento de titular nos parlamentos estadual e federal.
Povoados remotos como Reserva do Cabaçal, Salto do Céu e Conquista do Oeste dão aulas ao eleitorado de Cáceres. Quando se tem a viabilidade de eleger um representante, aparecem carreiristas que nunca vencem, e a persistência desses tais políticos atrapalha aqueles que realmente tinham chances de vitória, mas foram atrapalhados pelos desastrados persistentes, que nunca jamais, em tempo algum, vencerão as disputas.
De tudo, saíram dois eleitos pela região Oeste. Quiçá Moretto e Barcelos façam suas tarefas como legisladores de Mato Grosso, da fronteira e do Oeste.
Em Cáceres nota-se enorme contrassenso. Lá atrás, foi neste município o berço da indústria no Centro-Oeste, com fabricação de charques, carne enlatada, aguardente, açúcar e recordes na produção bovina. No hino de Mato Grosso, cujo autor, Dom Aquino Corrêa, destaca o gado como milhões no Pantanal, o rebanho se manteve, porém não se aproveita de todos os seus derivados.
Décadas passadas, intelectuais de Cáceres projetaram o embrião da Universidade do Estado de Mato Grosso, hoje consolidada, mas a cada governo a Unemat vai perdendo sua autonomia financeira por falta de representantes que saibam defendê-la no parlamento estadual.
João Arruda é jornalista, geógrafo e pesquisador em Cáceres, é filho, neto e bisneto de brancos com duas avós, uma Bororo e outra Guató.
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Saúde indígena: precisamos transformar indignação em ação
Por Marco Felipe
Existem experiências na gestão pública que nos marcam não apenas como gestores, mas como seres humanos. Recentemente, conheci de perto uma realidade da saúde indígena em Mato Grosso que me deixou profundamente impactado.
Vi indígenas doentes em condições inadequadas de atendimento. Vi crianças, famílias e uma estrutura muito distante da dignidade que defendemos para qualquer cidadão. Faltam medicamentos, profissionais e infraestrutura. Diante daquela realidade, senti indignação, mas também responsabilidade.
Como secretário municipal de Saúde de Nova Ubiratã e presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Mato Grosso (Cosems/MT), não posso simplesmente olhar para uma situação como essa e dizer que o problema pertence a outro ente ou instituição. Quando o cuidado não chega a quem precisa, todos nós que fazemos parte do SUS precisamos nos perguntar o que podemos fazer para mudar essa realidade.
Foi desse incômodo que nasceu a decisão de promover, pela primeira vez no Cosems/MT, uma reunião temática voltada especificamente à saúde indígena. Um encontro pensado para reunir gestores e instituições, compreender responsabilidades, discutir dificuldades e, sobretudo, construir caminhos.
Temos desafios que precisam ser enfrentados com urgência, e um deles é a falta de integração das informações. Quando os sistemas não conversam, municípios encontram dificuldades para acompanhar dados de vacinação, gestantes e outros indicadores fundamentais. Sem informação confiável, também fica mais difícil planejar e organizar a assistência.
Também precisamos avançar na regulação, na Atenção Primária, no acesso aos serviços e na articulação entre municípios, Estado, União, Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). A saúde indígena exige diálogo, corresponsabilidade e, acima de tudo, respeito às particularidades culturais de cada povo.
Sabemos que uma reunião não resolverá problemas acumulados ao longo de anos, mas ela pode representar um ponto de partida. E esse encontro não pode terminar apenas com novos discursos ou com a marcação de outra reunião.
Saímos dele com compromissos, encaminhamentos e ações. Se for necessário levar as demandas para outras instâncias, vamos levar. Se for preciso rever fluxos e cobrar respostas, vamos fazer. O importante é que aquilo que discutimos vai, com certeza, produzir mudanças concretas na vida das pessoas. Esse foi um dos principais compromissos que procurei deixar durante o encontro.
Por trás de cada dificuldade que debatemos existem crianças, mães, idosos, famílias e comunidades inteiras esperando por um atendimento digno. Ressalto que o que presenciei me marcou profundamente, mas não quero que essa experiência permaneça apenas como uma lembrança difícil da minha trajetória como gestor. Quero que ela se transforme em mobilização.
Não podemos mudar aquilo que já aconteceu, mas podemos decidir o que faremos a partir do que vimos. E o Cosems/MT assume esse compromisso: contribuir para que instituições e gestores caminhem na mesma direção, para que os povos indígenas tenham assegurado aquilo que é princípio do SUS e direito de todos — acesso à saúde com equidade, respeito e dignidade.
Marco Antonio Norberto Felipe é presidente do Cosems/MT e secretário municipal de Saúde de Nova Ubiratã
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