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As urnas gritaram ressentimento

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Por Andhressa Barboza

Há algo que os números da eleição não dizem e que talvez explique por que tantos dados parecem não convencer ninguém. Em Mato Grosso, Flávio Bolsonaro recebeu 65% dos votos válidos para presidente no primeiro turno, enquanto Lula amargou 29%. O resultado mostra a força de uma escolha, não revela sozinho o sentimento de cada pessoa que a fez. Para entender parte desse grito, talvez seja preciso voltar às ruas de 2013.

As manifestações começaram com reivindicações como o preço do transporte e reuniram insatisfações diversas com os serviços públicos e a representação política. Não pertenciam a um único campo ideológico. Mas a desconfiança que veio à tona passou a ser disputada por forças políticas diferentes, nos anos seguintes, o antipetismo ganhou as ruas e encontrou, na candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, uma expressão eleitoral poderosa. Um estudo publicado na revista Opinião Pública encontrou indícios de que o ressentimento de classe ampliou o efeito do antipetismo naquele voto. Não foi sua causa única.

O ressentimento tem uma pergunta que traz um dado vergonhoso: quem melhorou de vida merecia melhorar? O cientista político Felipe Nunes relata que, em pesquisa sobre percepções de mobilidade social, grupos historicamente excluídos disseram reconhecer avanços, enquanto parte dos entrevistados de maior renda afirmou não sentir melhora e questionou o merecimento da conquista alheia. Eis o ressentimento no coração das classes mais altas com pobres.

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O governo Lula enfrentou outra face desse impasse. Houve melhora em indicadores de emprego e rendimento, mas números nacionais não pagam a compra do mês nem encerram uma dívida. Em abril de 2026, pesquisa Quaest apontou que metade dos entrevistados percebia piora da economia; alimentos caros e endividamento apareciam entre as razões do desânimo. O governo teve dificuldade de comunicar seus resultados como uma experiência de estabilidade. Não porque bastasse explicar melhor uma planilha, mas porque estabilidade precisa ser sentida antes de virar mensagem convincente.

A essa conta somam-se as bets. Vendidas como chance de renda extra, as apostas podem consumir o dinheiro destinado às despesas da casa e ao pagamento das dívidas. Segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio, elas podem ter levado 270 mil famílias à inadimplência severa. Quando a promessa de ganho rápido vira boleto atrasado, nenhum indicador de emprego, por si só, produz a sensação de estabilidade.

E quando essa sensação falta, o que acontece com os riscos que parecem distantes? O sociólogo alemão Ulrich Beck, conhecido pela teoria da sociedade de risco, mostrou como decisões do presente podem criar consequências futuras graves, ainda que não imediatamente visíveis. O perigo vivido hoje, a insegurança, o preço, a frustração costumam falar mais alto do que o risco que se reconhece, mas se imagina poder enfrentar depois.

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É nesse terreno que a aproximação de Flávio Bolsonaro com o governo Trump merece atenção. O candidato pediu aos Estados Unidos o adiamento de uma decisão sobre tarifas até depois da eleição e apresentou propostas sobre Pix, Mercosul e plataformas digitais. Isso não prova interferência eleitoral consumada. Mas torna concreto um debate sobre autonomia nacional que pode parecer remoto diante das urgências pessoais.

As urnas gritaram ressentimento, mas não apenas ressentimento. Gritaram também medos, demandas legítimas e a distância entre o que um governo realiza e o que a população reconhece na própria vida. O erro seria ouvir esse coro como se fosse uma voz só. O risco maior, agora, é deixar que a frustração nos convença de que o futuro dos outros ameaça o nosso.

Andhressa Sawaris Barboza é jornalista, socióloga e advogada. Trabalha com comunicação política.

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Do piso ao descanso digno: os direitos da Enfermagem precisam ser respeitados

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Por Celso Silva dos Santos

Trabalhar na Enfermagem é conhecer de perto uma rotina de muita responsabilidade. Estamos ao lado dos pacientes durante todo o cuidado, em plantões que exigem atenção permanente, preparo técnico, equilíbrio emocional e disposição física. Por isso, quando falamos em valorização da Enfermagem, não podemos falar apenas de reconhecimento. Precisamos falar de direitos — e, principalmente, do cumprimento deles.

A criação do piso salarial nacional foi uma conquista histórica da categoria. A Lei nº 14.434/2022 estabeleceu o piso de R$ 4.750 para enfermeiros, com o equivalente a 70% desse valor para técnicos de enfermagem e 50% para auxiliares e parteiras.  Mas ter uma lei não encerra a luta. O que precisamos é garantir que esse direito seja efetivamente respeitado e que chegue aos profissionais.

Em Mato Grosso, como em outras partes do país, ainda existem questionamentos e relatos relacionados à aplicação do piso. É justamente por isso que precisamos continuar atentos. Uma conquista dessa dimensão não pode permanecer sujeita a interpretações que, na prática, façam o trabalhador receber menos do que lhe é devido. O piso precisa significar segurança e valorização para quem está na ponta.

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Mas salário digno é uma parte das condições necessárias para exercer a profissão.

Quem trabalha na assistência sabe o impacto de uma equipe insuficiente. Quando faltam profissionais, aumenta a sobrecarga sobre quem permanece no plantão. São mais pacientes para atender, menos tempo para cada cuidado e maior desgaste físico e emocional. O dimensionamento adequado das equipes não interessa somente aos trabalhadores: ele está diretamente relacionado à segurança e à qualidade da assistência prestada à população.

Condições dignas de trabalho envolvem estrutura, materiais e equipamentos adequados, segurança, respeito às jornadas e ambientes que permitam ao profissional desempenhar suas funções sem colocar a própria saúde em risco. Não podemos naturalizar a exaustão como se ela fizesse parte da profissão. Cuidar de pessoas exige condições para cuidar.

E existe outro direito que ainda precisa ser mais conhecido e, principalmente, cumprido: o descanso digno.

Desde 2023, a Lei nº 14.602 determina que instituições de saúde públicas e privadas ofereçam aos profissionais de Enfermagem condições adequadas de repouso durante o horário de trabalho. A própria legislação estabelece que esses espaços devem ser destinados especificamente ao descanso, ser arejados, contar com mobiliário adequado, conforto térmico e acústico, instalações sanitárias e dimensão compatível com o número de profissionais em serviço.

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Isso não é luxo. Não é privilégio. E não deveria depender da boa vontade de uma instituição. É direito.

Depois de horas cuidando, medicando, acompanhando pacientes, respondendo a intercorrências e lidando com situações que muitas vezes envolvem dor e sofrimento, ter um espaço adequado para o período de repouso é uma questão de dignidade profissional. É, inclusive, uma forma de proteger a qualidade do cuidado prestado.

Como técnico de enfermagem, acredito que nossa categoria precisa conhecer seus direitos, defendê-los e cobrar para que sejam respeitados. Não podemos aceitar que aquilo que foi conquistado por lei permaneça distante da realidade de parte dos profissionais.

Do piso salarial ao descanso digno, passando por equipes adequadamente dimensionadas, segurança e boas condições de trabalho, estamos falando de direitos que se complementam.

Valorizar a Enfermagem é garantir que quem passa a vida cuidando das pessoas possa trabalhar com remuneração justa, estrutura, segurança, respeito e dignidade.

Direito conquistado precisa ser direito cumprido.

Celso Silva dos Santos é técnico de enfermagem e atua há 18 anos na saúde em Mato Grosso.
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