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A arte de ser gentil: Um remédio para a indiferença de hoje

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Por Kamila Garcia

 

Vivemos tempos estranhos. Estamos o tempo todo no celular, mas cada vez mais distantes uns dos outros. No meio da correria, das cobranças do trabalho e do excesso de informação, algo básico parece ter se perdido: a gentileza. O “bom dia”, o “obrigado” e o “por favor” estão sumindo do nosso dia a dia. Mas, afinal, o que é ser gentil? E por que algo tão simples se tornou tão raro?

Ser gentil é muito mais do que ter boas maneiras. É a forma mais pura de amor — não aquele amor de cinema, mas um cuidado real com o outro, que não espera nada em troca. Como diz o psicólogo Daniel Goleman, especialista em inteligência emocional: “Quando olhamos só para nós mesmos, nosso mundo diminui; quando olhamos para os outros, nosso mundo aumenta”. A gentileza é justamente esse movimento: sair da nossa própria bolha para enxergar quem está ao lado.

Quem é gentil de verdade não faz isso por interesse. Ela simplesmente age com carinho — e esse gesto já vale por si só. Não se trata de ser bobo ou aceitar abusos, mas de entender que o valor está em dar, e não em trocar. Quem é gentil só por interesse pode até enganar os outros, mas sabe, no fundo, que sua atitude é apenas uma moeda de troca, e não um gesto de coração.

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Infelizmente, o mundo hoje parece ir pelo caminho contrário. Vivemos o que Goleman chama de “autoabsorção” — um estado onde nossos problemas e ansiedades ocupam todo o espaço da nossa mente, nos deixando cegos para as necessidades dos outros. Corremos contra o relógio, mas raramente aproveitamos a vida de verdade. Construímos relações superficiais e nos perdemos em meio a conexões vazias.

A pergunta é: por que paramos de ser gentis? Será que falta tempo? Com certeza, não. Um sorriso não custa nada e leva um segundo. Um “bom dia” sincero não atrasa ninguém. O que nos afasta da gentileza não é o relógio, mas um vazio interno de quem ainda não aprendeu a amar. E não se engane: amar é uma arte que a gente aprende e exercita todo dia.

Nesse mundo frio e individualista, ser gentil virou um ato de coragem. É uma escolha em um mundo que prefere ignorar. É colocar cor em um dia cinzento. A ciência até prova que ser gentil faz bem para a saúde: quando ajudamos alguém ou ouvimos um amigo, nosso cérebro libera ocitocina (o “hormônio do bem-estar”), que diminui o estresse e nos traz paz.

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Ser gentil, portanto, é ser humano. É reconhecer que o outro existe e que ele também tem sentimentos. É entender que a felicidade de verdade não está em comprar coisas ou ser famoso, mas na tranquilidade de quem aprendeu a ajudar sem julgar.

Em tempos de brigas na internet e indiferença nas ruas, resgatar a gentileza é urgente. Não é ser ingênuo, é escolher, de propósito, espalhar pequenos gestos que podem mudar o dia de alguém. E, quem sabe, esses gestos inspirem outras pessoas e se espalhem por aí.

Afinal, ser gentil é semear esperança. E, hoje em dia, cada semente importa muito.

Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

 

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Redação perfeita, ideias frágeis

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Por Paula Tavares

Não há como negar que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma ferramenta cada vez mais presente no cotidiano. Seja na elaboração de trabalhos acadêmicos, relatórios, petições, e-mails, legendas de fotos ou simples mensagens, os textos passaram a ser produzidos com correção gramatical quase impecável e em uma velocidade que impressiona.

À primeira vista, esse avanço parece apenas positivo. Afinal, escrever melhor, com menos erros, sempre foi um objetivo desejável. No entanto, por trás dessa aparente evolução, surge um fenômeno mais sutil e preocupante: a progressiva terceirização do pensamento.

A facilidade proporcionada pelas ferramentas de inteligência artificial tem incentivado uma postura cada vez mais passiva diante da escrita. Em vez de organizar ideias, refletir sobre argumentos e construir um raciocínio próprio, observa-se uma crescente tendência de delegação dessa tarefa à tecnologia. O resultado são textos formalmente corretos, mas frequentemente genéricos, pouco críticos e, por vezes, desconectados da realidade concreta de quem os utiliza.

Esse cenário traz implicações relevantes, inclusive no campo jurídico. A prática do Direito exige não apenas domínio da norma, mas capacidade analítica, senso crítico e responsabilidade na construção de argumentos. A utilização indiscriminada de inteligência artificial pode comprometer justamente essas competências, ao substituir o esforço intelectual por respostas prontas, ainda que bem redigidas.

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Não se trata de rejeitar a tecnologia. Pelo contrário, a inteligência artificial pode, e deve, ser utilizada como ferramenta de apoio, capaz de otimizar tempo e ampliar o acesso à informação. O problema reside no uso acrítico e excessivo, que transforma um instrumento em substituto da própria atividade intelectual.

Com o tempo, essa dependência tende a tornar o raciocínio mais lento e menos autônomo. Basta observar o que ocorreu com os aplicativos de navegação. Se antes as pessoas memorizavam trajetos, nomes de ruas e pontos de referência, hoje não é raro que se percam em percursos simples sem o auxílio da tecnologia. Da mesma forma, se antes eram capazes de decorar dezenas de números de telefone, hoje se tornam reféns de agendas digitais. Como diz o ditado: “quem não exercita, atrofia”, e com o pensamento não é diferente.

Há, ainda, um risco menos evidente, mas igualmente relevante: a padronização do discurso. À medida que mais pessoas recorrem às mesmas ferramentas, os textos tendem a seguir estruturas e estilos semelhantes, empobrecendo o debate público e reduzindo a diversidade de perspectivas. Em um ambiente democrático, a pluralidade de ideias é um valor essencial e não pode ser sacrificada em nome da mera conveniência.

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Diante desse contexto, o desafio que se impõe não é tecnológico, mas humano. É preciso resgatar o papel ativo do indivíduo na produção do conhecimento, utilizando a inteligência artificial como aliada, e não como substituta. Escrever bem não deve significar apenas evitar erros gramaticais, mas expressar pensamento próprio, crítico e consciente.

Em tempos de respostas instantâneas, talvez o verdadeiro diferencial esteja justamente naquilo que nenhuma máquina pode oferecer plenamente: a autenticidade do pensamento.

Paula Tavares é advogada, mestre em Administração Pública e assessora jurídica do Tribunal de Contas de Mato Grosso.

 

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