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Quando a região perde a voz, perde também espaço

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Por Antoniel Pontes

Cáceres e Barra do Garças já tiveram um peso político e econômico em Mato Grosso muito maior do que possuem hoje. Foram cidades protagonistas em suas regiões, participaram das grandes discussões do Estado e tiveram força para fazer seus interesses chegarem aos espaços onde as decisões eram tomadas.

E talvez seja justamente esse passado que nos obrigue a olhar para o presente.

Desenvolvimento regional não acontece por acaso. Depende de potencial econômico, infraestrutura, investimento, planejamento e capacidade de empreender. Mas existe outro componente que muitas vezes deixamos de colocar nessa conta: força política.

A própria história de Mato Grosso demonstra isso.

Cáceres, no Oeste, e Barra do Garças, no Araguaia, viveram períodos de grande influência política e econômica. Em momentos diferentes, foram polos importantes, atraíram investimentos e participaram diretamente das transformações pelas quais Mato Grosso passou.

Ao mesmo tempo, eram regiões politicamente fortes.

Tiveram deputados estaduais, deputados federais, senadores, vice-governadores que chegaram a assumir o Governo do Estado e outras lideranças identificadas não apenas com seus municípios, mas com os interesses de suas regiões.

Isso não significa dizer que desenvolvimento seja resultado exclusivo da política. Seria uma conclusão simplista. Mas também seria ingenuidade imaginar que representação política não faça diferença.

Representar uma região significa muito mais do que ter um parlamentar com endereço eleitoral em determinada cidade.

Significa ter alguém que conheça suas estradas, hospitais, universidades, produtores, comerciantes, trabalhadores, potencialidades e dificuldades. Alguém para quem aquela região não seja apenas mais um lugar visitado durante a campanha, mas uma prioridade permanente durante o mandato.

Um deputado não governa sozinho e não tem poder para resolver todos os problemas. Mas participa da discussão do orçamento, apresenta emendas, articula investimentos, fiscaliza políticas públicas, dialoga com secretarias, governos e ministérios e, principalmente, mantém os problemas de sua região presentes onde as decisões são tomadas.

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Na política, a ausência também tem consequências.

E talvez esse seja um dos processos mais difíceis de perceber.

Uma região não perde força política de uma hora para outra. Isso acontece silenciosamente. Primeiro diminui sua influência. Depois perde capacidade de reivindicação. Enquanto isso, outras regiões, legitimamente representadas por parlamentares comprometidos com suas bases, ocupam esses espaços e disputam investimentos, obras e programas públicos.

É assim que funciona a democracia representativa. Quem consegue organizar sua voz tem maior capacidade de colocar suas necessidades na agenda pública.

Cáceres e Barra do Garças possuem histórias diferentes e estão em lados diferentes de Mato Grosso, mas carregam uma semelhança que merece atenção.

As duas já foram referências de desenvolvimento e influência em suas respectivas regiões. E as duas mostram que história, localização estratégica, recursos naturais e potencial econômico, embora fundamentais, não garantem protagonismo para sempre.

Uma região pode ter tudo isso e ainda assim perder espaço.

Quando deixa de construir lideranças capazes de defendê-la, corre o risco de assistir outras regiões avançarem enquanto seus próprios problemas continuam esperando solução.

É por isso que considero a eleição de 2026 uma oportunidade para uma discussão que precisa ir além de partido, ideologia ou disputa pessoal.

Quem efetivamente representará cada região de Mato Grosso nos próximos quatro anos?

E aqui é importante fazer uma distinção.

Não defendo que alguém mereça voto simplesmente porque nasceu ou mora em determinada cidade. Ser conterrâneo não é certificado de competência e muito menos garantia de compromisso.

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O eleitor precisa ser mais exigente.

Precisa avaliar trajetória, capacidade, propostas e compromisso. Precisa perguntar onde está a prioridade daquele candidato, qual região ele realmente conhece, quais projetos pretende defender e onde concentrará sua capacidade de articulação política.

E existe uma pergunta ainda mais importante: quem poderá cobrar esse mandato depois da eleição?

Para Cáceres e região, assim como para Barra do Garças e o Araguaia, recuperar protagonismo passa necessariamente por planejamento econômico, infraestrutura, educação, saúde, logística, turismo, fortalecimento da produção, industrialização e geração de empregos.

Mas esses projetos também precisam de defensores permanentes dentro da Assembleia Legislativa, da Câmara Federal e dos governos.

Porque desenvolvimento precisa de projetos.

Projetos precisam de recursos.

Recursos dependem de decisões.

E decisões públicas passam, inevitavelmente, pela política.

Quando formos às urnas em 2026, portanto, estaremos decidindo muito mais do que os nomes dos próximos deputados.

Também estaremos ajudando a definir qual espaço nossas regiões ocuparão no Mato Grosso dos próximos anos.

Cáceres e Barra do Garças já demonstraram que podem ser protagonistas.

Recuperar esse protagonismo exige transformar potencial econômico em projeto regional e projeto regional em força política.

Uma região pode possuir riquezas, localização estratégica e uma história extraordinária. Pode ter potencial para crescer e condições para ocupar posição de destaque.

Mas existe uma realidade que não podemos ignorar:

se não houver quem fale por ela onde as decisões são tomadas, corremos o risco de continuar discutindo todo o nosso potencial enquanto assistimos ao desenvolvimento acontecer em outro lugar.

Antoniel Pontes é jornalista e publicitário em Mato Grosso

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Violência contra as mulheres da Enfermagem: do plantão às redes sociais, não podemos mais normalizar

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Por Iracema Alencar

Falar sobre violência contra a Enfermagem é falar, inevitavelmente, sobre violência contra as mulheres. Cerca de 85% da força de trabalho da Enfermagem brasileira é feminina. Portanto, quando discutimos agressões, assédio, humilhações e ameaças dirigidas à categoria, existe uma dimensão de gênero que não pode ser ignorada.

Essa violência está no ambiente de trabalho, mas não termina quando a profissional encerra o plantão. Ela atravessou as portas dos hospitais e unidades de saúde e chegou às redes sociais. Hoje, uma enfermeira pode ser agredida verbalmente durante o exercício profissional e continuar sendo atacada na internet, muitas vezes com exposição de sua imagem, comentários sobre seu corpo, insinuações sexuais, ofensas misóginas e tentativas de desqualificá-la não pelo trabalho que realiza, mas pelo fato de ser mulher.

Isso também é violência.

Existe, ainda, uma característica particularmente perversa nesses ataques: quando a vítima é uma mulher da Enfermagem, a agressão frequentemente ganha conotação sexual.

Não podemos discutir esse problema sem enfrentar um estereótipo que acompanha a profissão há décadas. A figura da “enfermeira sexy”, transformada em fantasia, piada ou fetiche, pode parecer inofensiva para alguns, mas contribui para desumanizar e desprofissionalizar mulheres que exercem uma atividade científica, técnica e de enorme responsabilidade.

O próprio Conselho Federal de Enfermagem já alertou que a erotização da profissão ajuda a perpetuar uma cultura na qual profissionais são submetidas a piadas machistas, abordagens de conteúdo sexual, assédio e outras formas de violência.

Uma enfermeira não é uma fantasia. É uma profissional de saúde.

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A dimensão do problema exige resposta. Levantamento divulgado pelo Coren-SP em 2026, com 4.402 profissionais, mostrou que 72,6% dos entrevistados sofreram algum tipo de violência no trabalho nos 12 meses anteriores. Entre as vítimas, 89,2% relataram violência verbal, 73,8% psicológica e 19,2% física.

Mas os números não mostram tudo. Existe uma violência cotidiana que muitas vezes sequer chega às estatísticas: a profissional que recebe uma mensagem de conteúdo sexual; aquela cuja fotografia é compartilhada com comentários sobre seu corpo; a que é atacada nas redes depois de um atendimento; a que sofre insinuações de pacientes, acompanhantes, colegas ou superiores. E há aquelas que permanecem em silêncio por medo de exposição, retaliação ou julgamento.

Não podemos exigir que essas mulheres aprendam a conviver com isso.

Também precisamos discutir por que uma profissão formada majoritariamente por mulheres ainda enfrenta tantas formas de desrespeito. A Enfermagem carrega uma herança histórica que associou o cuidado a uma suposta obrigação feminina, como se cuidar fosse uma extensão natural do papel da mulher, e não uma atividade profissional que exige conhecimento científico, formação, responsabilidade técnica e tomada de decisões.

Essa percepção ajuda a alimentar não apenas a sexualização, mas também a desvalorização profissional.

Por isso, combater a violência de gênero na Enfermagem não significa apenas punir quem agride. Significa discutir relações de poder, condições de trabalho, valorização, autonomia profissional e a presença das mulheres nos espaços onde as decisões são tomadas.

Precisamos de mecanismos efetivos de acolhimento e denúncia, orientação para preservar provas de ataques digitais e instituições preparadas para agir diante do assédio. Uma profissional que denuncia não cria um problema. O problema é a violência, não a denúncia.

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Os Conselhos de Enfermagem também têm responsabilidade nesse enfrentamento. Fiscalizar o exercício profissional é essencial, mas proteger a dignidade da profissão e de seus profissionais também precisa ocupar lugar central na atuação institucional. O Sistema Cofen/Conselhos Regionais já possui uma política de prevenção e enfrentamento ao assédio moral, sexual e à discriminação, inclusive para condutas praticadas em ambientes virtuais. É preciso fazer com que essa proteção alcance efetivamente quem está na ponta.

Essa é, sim, uma discussão política. Não político-partidária, mas política no sentido de decidir quais relações de trabalho e quais comportamentos estamos dispostos a aceitar como sociedade.

Não é aceitável que uma mulher seja sexualizada porque veste um uniforme de Enfermagem. Não é aceitável que saia de um plantão exaustivo e encontre no celular uma nova extensão da violência que sofreu durante o trabalho.

A Enfermagem brasileira é majoritariamente feminina. Defender a profissão passa, necessariamente, por defender essas mulheres.

Quem cuida também tem direito à proteção. E nenhuma mulher da Enfermagem deve considerar o assédio, a humilhação ou a violência — presencial ou digital — como parte do seu trabalho

Iracema Paulino de Alencar é enfermeira e obstetra, mestre e doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT, com trajetória na gestão pública, assistência, docência e formação em saúde.
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