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Quando a ciência encontra a vontade política

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Por Antonio Joaquim

Há uma característica comum às políticas públicas que transformam sociedades: elas não são construídas sobre impressões, mas sobre evidências. O tempo em que o improviso, a experiência isolada ou o chamado “achismo” bastavam para orientar decisões ficou para trás. Governar, especialmente quando se trata da primeira infância, exige coragem para ouvir aquilo que os dados revelam e responsabilidade para transformar conhecimento em ação.

A primeira infância representa a mais estratégica das etapas do desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem as bases da aprendizagem, da convivência social, da saúde emocional e da capacidade de cada criança construir seu projeto de vida. Quando uma política pública falha nesse momento, seus efeitos atravessam gerações. Quando acerta, produz desenvolvimento, reduz desigualdades e amplia oportunidades para toda a sociedade.

Por essa razão, é alentador que o debate internacional tenha avançado para compreender a criança em sua integralidade. O Estudo Internacional de Aprendizagem e Bem-Estar Infantil (IELS), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), rompe com a visão limitada de que educar consiste apenas em medir desempenho escolar.

O estudo investiga, de forma integrada, competências relacionadas à literacia e à numeracia emergentes, à autorregulação, à memória de trabalho, ao controle dos impulsos, à flexibilidade mental e às habilidades socioemocionais, reconhecendo que aprender e viver bem são dimensões inseparáveis do desenvolvimento infantil.

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Não por acaso, a pesquisa foi aplicada no Brasil envolvendo municípios, escolas, professores, famílias e crianças, produzindo um conjunto de evidências que hoje constitui referência para governos interessados em aperfeiçoar suas políticas públicas. Mais do que números, são informações capazes de revelar desigualdades, identificar vulnerabilidades, orientar prioridades e qualificar investimentos públicos.

É precisamente essa ponte entre conhecimento científico e decisão governamental que o Tribunal de Contas de Mato Grosso, com sua Comissão Permanente de Educação e Cultura (COPEC),  pretende fortalecer ao promover, no próximo dia 4 de agosto, das 9h às 11h, o webinar “Aprendizagem e Bem-Estar na Primeira Infância: Evidências para as Políticas Públicas”, transmitido pelo canal oficial do TCE-MT no YouTube. Teremos a honra de receber o professor Dr. Thiago Bartolo, da UFRJ e coordenador nacional do IELS no Brasil, cuja trajetória acadêmica confere profundidade e autoridade ao debate.

O encontro não foi concebido apenas para apresentar uma pesquisa internacional. Seu propósito é mais ambicioso: provocar uma mudança de paradigma na administração pública. Queremos estimular gestores, educadores, dirigentes escolares e formuladores de políticas a reconhecer que decisões mais eficientes nascem da capacidade de interpretar evidências, confrontar diagnósticos e planejar com inteligência.

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Essa também é a missão contemporânea dos Tribunais de Contas. A fiscalização permanece essencial, mas já não esgota nossa responsabilidade institucional. O controle externo do século XXI deve produzir conhecimento, induzir boas práticas, fortalecer capacidades estatais e contribuir para que cada decisão pública seja tecnicamente mais qualificada e socialmente mais efetiva.

Investir na primeira infância significa investir no futuro, mas investir com base em evidências significa fazê-lo com maior justiça, eficiência e responsabilidade. Não existe política pública transformadora sem vontade política. Mas a vontade, quando caminha ao lado da ciência, deixa de ser apenas uma boa intenção para tornar-se verdadeira capacidade de transformar vidas.

É esse compromisso que convido gestores, educadores e toda a sociedade a compartilhar conosco. Porque o futuro das nossas crianças não pode depender de opiniões. Deve ser construído sobre conhecimento, evidências e escolhas públicas capazes de honrar aquilo que temos de mais valioso: a infância e suas infinitas possibilidades.

Antonio Joaquim é conselheiro, ouvidor-geral e presidente da Comissão Permanente de Educação e Cultura do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT).

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Farmar aura é muito mais que performar

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Por Marcio Camilo

Farmar aura é uma expressão da juventude. Uma gíria atual.

Aura é algo único. Por exemplo, o quadro da Monalisa está no Google, num chaveiro, numa camiseta ou num grafite pela cidade. Mas a marca indelével  de Leonardo Da Vinci, encontra-se apenas no quadro original, que está exposto no museu do Louvre na França, e anualmente milhões de pessoas, do mundo todo, fazem fila para visitá-lo.

Esse conceito foi elaborado lá na década de 1930, pelo sociólogo alemão Walter Benjamin, em seu ensaio “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”.

Já a expressão farmar é um termo que vem do mundo do games, do universo RPG, que significa coletar recursos e experiências para construir edificações, como casas, e progredir cada vez mais no jogo.

Então, “farmar aura”, pode ser entendido como “acumular experiências originais, únicas”, fazer algo que é somente seu, e que te mostra para o outro.

Nas redes sociais, isso pode ser uma via de mão dupla, porque, quando uma pessoa posta a capa de um livro, ela está farmando aura de pessoa culta. Mas será que é mesmo?

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Eu, enquanto escrevo esse artigo, e cito Walter Benjamin, estou farmando aura de pesquisador, mas será que eu pesquisei mesmo? Será que eu li a obra de Benjamim? Estou farmando ou performando.

Em Cuiabá, o prefeito Abílio vetou, em espaço público, o primeiro campeonato de farmar aura da cidade. Na mídia, deu declarações homofóbicas a respeito do fenômeno, demonstrando total desconhecimento sobre o assunto, e performando para a sua claque nas redes sociais.

Mas foi um tiro no pé. Sua proibição repercutiu negativamente na imprensa nacional e

projetou ainda mais o evento, que acabou sendo acolhido pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), na última sexta-feira (24/07)

Deveria Abílio parar de performar nas redes e farmar aura, de verdade, na administração da cidade que está à deriva. Serviço é que não falta.

MARCIO CAMILO é jornalista e mestre pelo programa de Pós-Graduação em Comunicação e Poder da Universidade Federal de Mato Grosso
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