POLÍCIA FEDERAL
PF trabalha no rastreio dos bilhões desviados por Vorcaro e na identificação dos políticos que integravam a “máfia”
Por Edmundo Pacheco / Editor do Portal Mato Grosso
A Operação Compliance Zero, que mobilizou a Polícia Federal nesta quinta-feira (09.07) – LEIA AQUI -, não foi apenas mais uma ação pontual para prender um publicitário. Segundo a PF, o que foi montado por Vorcaro se assemelha a uma “máfia”, criada para blindar o banqueiro e o Banco Master; um esquema ainda está sendo desmontado.
O ponto crucial que a investigação confirmou até aqui é que essa “máfia”, como descrevem os bastidores da polícia, não nasceu recentemente. Ela foi desenhada e colocada em prática entre 2021 e 2022, exatamente no período em que o antigo Banco Máxima foi transformado em Banco Master e iniciou sua expansão agressiva pelo mercado financeiro.
Antes de aparecer como bilionário ‘amigo dos políticos mais influentes do país’, Vorcaro era apenas um investidor mineiro filho de Carlos Vorcaro, veterano do setor financeiro. Essa origem, pautada pela agressividade na compra de ativos em crise, moldou o estilo de gestão que ele imprimiria ao Banco Master; para ele, a conformidade era um entrave, não uma regra.
Naquele momento, enquanto o banco buscava espaço para crescer, a estrutura de intimidação foi instalada como uma ferramenta de gestão. A ideia era simples: qualquer obstáculo — seja um jornalista, um executivo de banco concorrente ou uma decisão do Banco Central que não agradasse aos planos da instituição — deveria ser neutralizado
Esse comportamento, que hoje aparece como crime, foi tratado internamente como uma estratégia de negócios. O empresário não apenas permitiu, mas estruturou uma “unidade” voltada para monitorar, assediar e manipular a opinião pública, garantindo que o crescimento acelerado da marca não fosse interrompido por fiscalizações ou críticas.
A Polícia Federal hoje possui o que chama de “mapa do crime” – que causa arrepios entre os políticos: um conjunto de mensagens e documentos apreendidos que mostra quem foi pago, quem foi vigiado e como o esquema era ordenado. É esse material detalhado que explica por que as tentativas de delação premiada de Daniel Vorcaro falharam por duas vezes.
Para os investigadores e o Ministério Público, não há mais o que negociar. O Estado não precisa de uma confissão para entender como o sistema funcionava, pois o rastro digital deixado desde 2021 é farto, claro e suficiente para sustentar as acusações.
O isolamento de Vorcaro agora é completo. A tentativa de usar agências e influenciadores para criar uma cortina de fumaça — ou para tentar silenciar quem trazia à tona problemas da instituição — tornou-se o principal elemento de prova contra o grupo.
O que antes era um jogo de bastidores, onde a força da empresa conseguia barrar reportagens e intimidar desafetos, agora está sob a luz do Judiciário. Para o Banco Master, Daniel Vorcaro e os políticos que o apoiaram na formação desta mágia, a conta chegou.
O sistema que deveria proteger a marca tornou-se a maior evidência de que, na gestão de Vorcaro, a linha que separava o lucro corporativo do crime organizado foi ignorada desde o primeiro dia.
Além do jogo de poder e das ameaças, a Polícia Federal agora mergulha na parte mais sensível do caso: o rastro financeiro. A investigação agora mapeia um ecossistema de ativos que, entre 2021 e 2025, movimentou entre R$ 60 bilhões e R$ 120 bilhões em operações de reestruturação.
O trabalho atual da Polícia Federal e do Ministério Público — o chamado follow the money — é identificar quanto desse volume foi efetivamente transacionado para lastrear o crescimento do banco e quanto foi drenado de forma ilícita para alimentar o que chamavam de ‘Projeto DV’.
A suspeita central é de que essa estrutura gigantesca, que o mercado via como uma potência em ascensão, operava sob um sistema de contabilidade paralela, onde o patrimônio declarado era inflado para esconder rombos que agora os peritos tentam quantificar, real por real.
E mais, a PF trabalha para identificar cada um dos políticos que, nos bastidores, ajudaram Daniel Viorcaro a criar a tal “máfia” e se beneficiaram, recebendo propinas.
POLÍCIA FEDERAL
STF bloqueia quase R$ 120 milhões do presidente do PL, o partido do Bolsonaro, por esquema com emendas
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta sexta-feira (10.07) o bloqueio de até R$ 119,2 milhões das contas de Valdemar Costa Neto (foto), presidente do Partido Liberal (PL), o partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27,3 anos em regime fechado.
A decisão atende a um pedido da Polícia Federal no âmbito da Operação Transparência e mira a utilização de um esquema paralelo para o direcionamento de emendas parlamentares.
Como o esquema funcionava A investigação aponta que Valdemar, embora não exerça mandato parlamentar — condição indispensável para a indicação direta de verbas —, atuava como o tomador de decisão sobre o destino de recursos públicos na Câmara dos Deputados.
O esquema operava através de servidores da Casa, que auxiliavam a formalizar as indicações de Valdemar, mas registravam nomes de deputados federais como “solicitantes” oficiais, mascarando a origem da ordem e conferindo uma falsa aparência de legalidade aos repasses.
Evidências e impacto financeiro As provas contra o dirigente partidário surgiram a partir da análise de aparelhos celulares apreendidos na primeira fase da Operação Transparência, deflagrada no final do ano passado.
Mensagens entre assessores — incluindo Mariângela Fialek, apontada como articuladora central, e Nara Braum, servidora da liderança do PL — revelam a discussão detalhada sobre cotas orçamentárias. O foco do grupo era maximizar a alocação de verbas em ministérios como Turismo e Saúde, com especial interesse em municípios de São Paulo.
O prejuízo potencial identificado pela PF gira em torno de R$ 119,2 milhões. Segundo o ministro Flávio Dino, há registros de que pelo menos 21 emendas ligadas a esse sistema já foram empenhadas ou pagas. “Se tomarmos o mais condescendente dos quadros, e considerarmos os desvios ‘apenas’ das emendas já pagas, temos uma consolidação de um desvio de R$ 104 milhões”, destacou o ministro em seu despacho.
Determinações do STF Além de determinar o bloqueio patrimonial de Valdemar Costa Neto para assegurar a eventual reparação ao erário, a decisão de Dino impõe medidas imediatas:
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Suspensão total: Interrupção de qualquer trâmite orçamentário (empenho, liquidação ou pagamento) referente às emendas listadas na apuração.
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Prazo para resposta: Câmara dos Deputados, Advocacia-Geral da União (AGU) e Controladoria-Geral da União (CGU) têm dez dias para adotar providências administrativas frente às irregularidades expostas pela PF.
A decisão reforça o entendimento de que a “ingerência ilícita” de pessoas sem mandato sobre o orçamento público desvirtua o papel do Legislativo e configura um “arranjo decisório paralelo” que fere a transparência e a legalidade da administração pública.
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