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O erro de esperar juntar a entrada

A conta que ninguém faz: cada ano guardando dinheiro para dar entrada é um ano perdendo poder de compra.

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Por Leandro Falcone

Todo mês, milhares de famílias em Sinop e no norte de Mato Grosso passam pela mesma cena mental. Casal com renda estabelecida, os dois trabalhando, olham para o preço da casa própria, calculam 20% de entrada, dividem pelo que conseguem “guardar” no fim do mês, e concluem que faltam três, quatro, cinco anos para entrar num financiamento. Fecham a planilha e continuam pagando aluguel.

O problema é que essa conta está errada há muito tempo — e a maioria não percebe.

Enquanto a poupança rende algo em torno de 7% ao ano, o INCC-M — o Índice Nacional de Custos da Construção da FGV — costuma rodar num patamar próximo, quando não superior. Ou seja, o que a família guarda todo mês mal acompanha o próprio encarecimento da casa que ela quer comprar. É correr numa esteira: cada real economizado é neutralizado pelo aumento do material, da mão de obra, do terreno. E o aluguel de R$ 3 mil, R$ 4 mil segue saindo do bolso todo dia 5.

Além disso, quem “espera juntar” está partindo de uma premissa falsa: a de que precisa de uma pilha de 20% ou 30% em dinheiro guardado para poder financiar. Isso já não corresponde à realidade dentro do Minha Casa Minha Vida atualizado pela Portaria MCID nº 333, em vigor desde abril deste ano.

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Primeiro, o FGTS. Quem tem carteira assinada há alguns anos costuma ter saldo suficiente para cobrir boa parte da entrada — muitas vezes a totalidade. É dinheiro parado, rendendo pouquíssimo, que pode virar chave de casa própria hoje.

Depois, a composição de renda. O MCMV permite reunir o salário do marido e da esposa, ou pais e filhos que moram junto, no mesmo contrato. Duas rendas médias chegam com folga ao teto da Faixa 3 (R$ 9.600) ou da nova Faixa 4 (R$ 13 mil), abrindo acesso a imóveis de até R$ 400 mil e R$ 600 mil, respectivamente, com juros que o financiamento comum não oferece — a Faixa 3 roda em torno de 7,66% ao ano, enquanto o SBPE tradicional passa de 11%.

E, por fim, existe hoje o que o mercado começou a chamar de “entrada facilitada”. Construtoras aqui em Sinop passaram a aceitar veículo como parte da entrada, mediante avaliação, e a parcelar o restante da entrada em meses até o financiamento sair pelo banco. Um casal com carteira assinada há alguns anos costuma ter, somados, R$ 30 mil a R$ 40 mil de FGTS. O carro da família cobre outra parte. Aquela lógica antiga de “só posso entrar quando tiver R$ 60 mil na conta” simplesmente não corresponde mais à realidade.

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Enquanto isso, o que essa família continua fazendo? Pagando algo em torno de R$ 40 mil por ano de aluguel, sem construir um centímetro quadrado de patrimônio. Em cinco anos, são mais de R$ 200 mil entregues a fundo perdido — sem contar reajuste. É dinheiro suficiente para ter dado entrada, quitado boa parte de um financiamento, e estar com a escritura no nome.

O que muita gente chama de prudência é, na prática, um vazamento silencioso do poder de compra. Cada ano de espera é um ano em que o preço da casa sobe, o aluguel sobe, a inflação come a poupança, e a decisão fica mais difícil.

A hora de sair do aluguel não é quando você tiver a entrada guardada. É quando você entender que a entrada já pode ser resolvida com o que você tem hoje — FGTS, renda composta, veículo, parcelamento. Esperar mais um ano é escolher pagar mais caro pela mesma casa, com parcela maior, e ter menos anos de tranquilidade no imóvel próprio.

Casa própria não se conquista guardando dinheiro. Se conquista virando a chave.

Leandro Falcone é CEO da Falcone Construtora e Incorporadora, empresa mato-grossense que constrói casas acessíveis no norte de Mato Grosso dentro do programa Minha Casa Minha Vida.

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A Noruega venceu o marketing da Seleção

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Por Claiton Cavalcante

A eliminação do Brasil para a Noruega, na Copa do Mundo de futebol, não foi apenas um desastre esportivo. Foi um retrato. Em campo, vimos um futebol lento, previsível, burocrático. Fora dele, enxergamos algo ainda pior, uma Seleção que parece ter aprendido a obedecer mais ao marketing do que ao amor à camisa.

O contraste ético e esportivo do confronto começa na mentalidade. A Noruega é culturalmente influenciada pela Lei de Jante, princípio que valoriza o coletivo e rejeita a ideia de que alguém esteja acima dos demais. Em campo, isso se traduz em um time operário, focado, disciplinado, no qual o plano de jogo serve ao todo. No Brasil, porém, parece vigorar a lei do privilégio.

Como explicar a insistência em convocar e escalar Neymar, cercado de dúvidas físicas e longe de sua plenitude competitiva? Privilegiou-se o nome, o marketing e a hierarquia da vaidade em detrimento do desempenho técnico real.

Sob o peso da Lei de Jante, fomos esmagados por um coletivo “brigador” porque insistimos em um individualismo capenga. E esse individualismo não nasceu apenas dentro de campo, ele foi alimentado por uma engrenagem em que a marca passou a valer mais que a camisa.

O Brasil fez o caminho inverso. Transformou talento em marca, camisa em produto, convocação em vitrine e jogo em campanha publicitária. O jogador já não entra apenas para defender a Seleção. Entra também para sustentar narrativa, contrato, engajamento e valor de mercado.

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Quando o marketing pesa mais que o mérito, a bola sente. Quando o nome pesa mais que a condição física, o coletivo paga. E quando a vaidade decide antes da técnica, a derrota deixa de ser surpresa.

Neymar é o símbolo mais evidente desse conflito. Não se discute aqui sua genialidade histórica. Discute-se a incapacidade do futebol brasileiro de encerrar ciclos sem transformar ídolos em obrigação. O problema não é ter craque. O problema é ajoelhar diante do craque mesmo quando o jogo pede outra coisa.

A Seleção foi sequestrada pela ideia de que algumas figuras precisam estar em campo porque vendem, emocionam e rendem manchetes. Mas Copa do Mundo não é peça de licenciamento, ainda que pareça ser. É competição.

Também perdemos identidade. Na obsessão de copiar o “futebol moderno” europeu, importamos técnicos e engessamos aquilo que nos fez diferentes. Copiamos linhas, mapas de calor, passes laterais, saídas de bola com longos cruzamentos feitos pelos zagueiros tendo o atacante à sua frente e uma prudência sem alma. Jogamos fora a ginga, o improviso, o drible que desorganiza. Verdade seja dita. Viramos um time europeu de segunda linha, sem a frieza deles e sem a alegria que era nossa.

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A crise técnica em campo é irmã da crise institucional. Uma entidade marcada por disputas políticas, suspeitas e interesses privados dificilmente produzirá um projeto limpo, meritocrático e corajoso. A Seleção deixou de parecer patrimônio afetivo do povo brasileiro para parecer ativo administrado por gente que enxerga o futebol antes como negócio e só depois como paixão.

A Noruega nos eliminou com a humildade de quem sabia o que era. O Brasil caiu pela soberba de quem ainda acha que camisa ganha jogo sozinha.

No fim, sobrou a cena simbólica. Segundo leitura labial divulgada após a partida, Neymar, ao converter o pênalti, teria dito ao goleiro norueguês: “Aqui não, otário”. Mas houve, sim, “aqui”. Aqui se encerrou um ciclo. Aqui o marketing perdeu para o coletivo. Aqui a ofensa virou espelho. Foi o famoso tiro que saiu pela culatra.

Claiton Cavalcante é membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis, do Instituto dos Contadores do Brasil e integrante da Rede InovaGov da Escola Nacional de Administração Pública.

 

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