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Ouvidoria do TCE-MT: 24 anos dando voz ao cidadão
Por Antonio Joaquim
Há 24 anos, Mato Grosso deu um passo importante para fortalecer a democracia, a cidadania e o controle social. Em 31 de outubro de 2002, a Lei nº 7.730 criou a Ouvidora-geral do Tribunal de Contas do Estado, concebendo-a como instrumento de participação popular no acompanhamento da gestão fiscal. Não se trata, portanto, desde quando concebida, de um simples canal de atendimento. A Ouvidoria do TCE-MT é uma porta de entrada da sociedade no sistema de controle externo.
Por meio dela, cidadão, partido político, sindicato ou associação podem levar ao Tribunal informações, reclamações, denúncias, sugestões e outras manifestações capazes de provocar a atuação fiscalizatória do TCE-MT. A Constituição Estadual, na mesma linha da Constituição Federal, assegura essa participação.
E a Lei nº 13.460/2017, o Código de Defesa dos Usuários dos Serviços Públicos, consolidou ainda mais o papel das Ouvidorias como instrumentos de participação e defesa dos direitos dos cidadãos, ao determinar a existência de um canal para receber manifestações em todos os órgãos públicos.
A legislação estadual foi decisiva na história da Ouvidoria do TCE-MT. A Lei nº 8.762/2007 estabeleceu que a função de Ouvidor-Geral deve ser exercida por um dos conselheiros do Tribunal, com mandato de dois anos e aprovação prévia do Plenário. Essa previsão tem enorme significado institucional e peso estrutural.
A Ouvidoria pode receber manifestações contra todos órgãos e gestores públicos do Estado e dos municípios, mas também pode receber manifestações relacionadas ao próprio Tribunal de Contas. Por isso, a independência, a autonomia funcional e as garantias necessárias ao exercício da função de Ouvidor não são privilégios pessoais: são garantias da própria sociedade.
A Lei nº 9.883/2013 veio reforçar ainda mais essa missão ao atribuir à Ouvidoria o recebimento e encaminhamento de manifestações externas sobre atos da Administração Pública considerados lesivos, desonestos ou contrários ao interesse público, sempre em defesa dos princípios constitucionais da administração pública.
Ao longo desses 24 anos, a história da Ouvidoria-geral do TCE-MT foi construída por muitos. Os conselheiros Oscar da Costa Ribeiro, Alencar Soares, Valter Albano, Waldir Teis, os auditores substitutos de conselheiros Luiz Carlos Pereira e Isaías Lopes da Cunha exerceram a função e contribuíram, cada um a seu tempo, para consolidar esse fundamental canal de recebimento de manifestações da sociedade.
Tenho orgulho de ter participado dessa trajetória histórica de 2014 a 2016 e de voltar a exercer a missão de ouvidor, desde 2021. Ouvir a sociedade é, para mim, uma das formas mais legítimas de fortalecer o Tribunal de Contas. Tanto que considero a ouvidoria instrumento poderoso de democracia direta, na veia.
E os resultados demonstram a força desse instrumento: somente neste ano, a Ouvidoria deverá receber mais de 1.300 manifestações. Muitas delas transformam-se em apurações, fiscalizações e processos. Inúmeros julgamentos realizados pelo Tribunal têm, em sua origem, a participação de cidadãos que decidiram não se calar. É assim que a Ouvidoria cumpre sua verdadeira missão: transformar a voz do cidadão em ação de controle, fiscalização e aperfeiçoamento da administração pública.
Antonio Joaquim é conselheiro, ouvidor-geral e presidente da Comissão Permanente de Educação e Cultura do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT).
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Saúde indígena: precisamos transformar indignação em ação
Por Marco Felipe
Existem experiências na gestão pública que nos marcam não apenas como gestores, mas como seres humanos. Recentemente, conheci de perto uma realidade da saúde indígena em Mato Grosso que me deixou profundamente impactado.
Vi indígenas doentes em condições inadequadas de atendimento. Vi crianças, famílias e uma estrutura muito distante da dignidade que defendemos para qualquer cidadão. Faltam medicamentos, profissionais e infraestrutura. Diante daquela realidade, senti indignação, mas também responsabilidade.
Como secretário municipal de Saúde de Nova Ubiratã e presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Mato Grosso (Cosems/MT), não posso simplesmente olhar para uma situação como essa e dizer que o problema pertence a outro ente ou instituição. Quando o cuidado não chega a quem precisa, todos nós que fazemos parte do SUS precisamos nos perguntar o que podemos fazer para mudar essa realidade.
Foi desse incômodo que nasceu a decisão de promover, pela primeira vez no Cosems/MT, uma reunião temática voltada especificamente à saúde indígena. Um encontro pensado para reunir gestores e instituições, compreender responsabilidades, discutir dificuldades e, sobretudo, construir caminhos.
Temos desafios que precisam ser enfrentados com urgência, e um deles é a falta de integração das informações. Quando os sistemas não conversam, municípios encontram dificuldades para acompanhar dados de vacinação, gestantes e outros indicadores fundamentais. Sem informação confiável, também fica mais difícil planejar e organizar a assistência.
Também precisamos avançar na regulação, na Atenção Primária, no acesso aos serviços e na articulação entre municípios, Estado, União, Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). A saúde indígena exige diálogo, corresponsabilidade e, acima de tudo, respeito às particularidades culturais de cada povo.
Sabemos que uma reunião não resolverá problemas acumulados ao longo de anos, mas ela pode representar um ponto de partida. E esse encontro não pode terminar apenas com novos discursos ou com a marcação de outra reunião.
Saímos dele com compromissos, encaminhamentos e ações. Se for necessário levar as demandas para outras instâncias, vamos levar. Se for preciso rever fluxos e cobrar respostas, vamos fazer. O importante é que aquilo que discutimos vai, com certeza, produzir mudanças concretas na vida das pessoas. Esse foi um dos principais compromissos que procurei deixar durante o encontro.
Por trás de cada dificuldade que debatemos existem crianças, mães, idosos, famílias e comunidades inteiras esperando por um atendimento digno. Ressalto que o que presenciei me marcou profundamente, mas não quero que essa experiência permaneça apenas como uma lembrança difícil da minha trajetória como gestor. Quero que ela se transforme em mobilização.
Não podemos mudar aquilo que já aconteceu, mas podemos decidir o que faremos a partir do que vimos. E o Cosems/MT assume esse compromisso: contribuir para que instituições e gestores caminhem na mesma direção, para que os povos indígenas tenham assegurado aquilo que é princípio do SUS e direito de todos — acesso à saúde com equidade, respeito e dignidade.
Marco Antonio Norberto Felipe é presidente do Cosems/MT e secretário municipal de Saúde de Nova Ubiratã
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