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O fundo da caverna!
Por Kamila Garcia
Vivemos, muitas vezes, como prisioneiros da própria memória. Presos a dores antigas, repetimos histórias que já não nos servem e aceitamos como verdade aquilo que são apenas sombras do passado. A alegoria da Caverna de Platão, escrita há mais de dois mil anos, continua assustadoramente atual: ainda confundimos aparência com realidade e medo com proteção.
Minhas memórias, como as sombras na parede da caverna, projetam imagens distorcidas de experiências que tento esconder de mim mesma. Elas surgem sem aviso, moldam escolhas, influenciam relações e determinam, silenciosamente, quem acreditamos ser. O problema é que, quando nos acostumamos às sombras, passamos a temer a própria luz.
A escuridão não falha. Ela sempre retorna. E, quando chega, é mais confortável refugiar-se no fundo da caverna do que enfrentar o esforço de sair. Ali, entre velhos medos e justificativas conhecidas, criamos a ilusão de segurança. Mas essa segurança tem um preço alto: estagnação, repetição e perda de sentido.
É preciso dizer com clareza: fugir de si mesmo não é proteção, é prisão. As dores que evitamos encarar não desaparecem — apenas mudam de forma. Manifestam-se em relações quebradas, escolhas adiadas, sonhos abandonados. Olhar apenas para frente, ignorando o que ficou atrás, não nos conduz à saída; apenas nos mantém mais profundamente no escuro.
Platão nos ensinou que viver entre sombras é viver enganado. Mas talvez sua maior lição seja outra: a libertação exige coragem. Coragem para reconhecer a própria ignorância, para questionar verdades herdadas e para enfrentar aquilo que nos assombra. Não se trata apenas de pensar melhor, mas de viver com mais honestidade consigo mesmo.
Sair da caverna dói. A luz fere os olhos de quem passou tempo demais na escuridão. O primeiro passo é confuso, o caminho é incerto e o medo insiste em nos puxar de volta. Ainda assim, não há outro modo de se encontrar.
Talvez o verdadeiro fundo da caverna não seja o lugar onde estamos presos, mas o momento em que decidimos mudar. Porque ninguém se reconcilia com a própria história sem antes atravessar suas sombras. E ninguém encontra a própria luz sem aceitar, com coragem, que já viveu tempo demais no escuro.
Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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O cachorro e a sabedoria do coração!
Por Soraya Medeiros
Em uma sociedade obcecada por métricas externas de sucesso — salário, status, bens materiais e reconhecimento público — há um mestre silencioso que insiste em nos lembrar do essencial. Ele anda sobre quatro patas, não possui diplomas e desconhece qualquer noção de prestígio social. Ainda assim, domina com maestria a disciplina mais fundamental da existência humana: a matéria do amor.
O cachorro não avalia contas bancárias, roupas ou títulos. Para ele, pouco importa se o lar é uma mansão ou um quarto simples. O que realmente conta é a presença daqueles que ele reconhece como sua matilha. Em um mundo que valoriza excessivamente o “ter”, o cachorro nos ensina, sem palavras, o valor do ser e do estar.
Sua filosofia de vida é simples e profunda. Amor se demonstra com tempo, atenção e constância. Sua lealdade não é condicionada nem estratégica; é oferta diária, gratuita e desinteressada. Enquanto nós calculamos afetos e medimos entregas, ele permanece inteiro.
Esses animais nos ensinam virtudes que livros de autoajuda e treinamentos corporativos tentam sistematizar: lealdade, empatia, perdão e presença. A ironia é que nós, que nos orgulhamos da racionalidade, frequentemente fracassamos nessas lições básicas. Condicionamos o afeto, acumulamos ressentimentos e esquecemos o “agora”.
Essa falha ética se torna ainda mais evidente quando a indiferença dá lugar à violência. O caso do cachorro Orelha, em Santa Catarina — morto de forma brutal — expõe uma ferida moral que não pode ser ignorada. Agressões contra animais indefesos revelam o quanto ainda precisamos evoluir enquanto sociedade. Respeitar a vida de quem não ameaça deveria ser um princípio básico, não uma exceção. A razão, quando desvinculada da empatia, mostra-se insuficiente e perigosa.
O cachorro, alheio ao valor monetário das coisas, compreende o valor daquilo que realmente importa. Ele não distingue classes sociais; para ele, herói é quem chega ao fim do dia e cruza a porta. O espaço que ocupa em nosso coração é preenchido com uma dedicação que redefine o verdadeiro significado de riqueza.
Talvez seja tempo de revermos nossas prioridades. Antes de buscarmos o próximo cargo, o próximo título ou a próxima conquista, poderíamos aprender com esses mestres silenciosos. A lição que oferecem — sem custo, sem exigências — é uma das poucas capazes de combater a solidão e restaurar vínculos.
No fim da vida, dificilmente seremos lembrados pelo salário que recebemos. O que permanece é o amor que soubemos dar e receber. O cachorro já entende isso. Vive essa verdade todos os dias, à espera de que nós, seus aprendizes relutantes, finalmente aprendamos.
Soraya Medeiros é jornalista.
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