AGRO & NEGÓCIO
Escassez de mão de obra exige que empresas repensem estratégias para atrair e reter talentos
Especialistas apontam que liderança, plano de carreira, remuneração estratégica e cultura organizacional se tornaram fatores decisivos para enfrentar a alta rotatividade e a disputa por profissionais qualificados.
A dificuldade para encontrar e manter profissionais qualificados deixou de ser um desafio pontual e passou a fazer parte da estratégia de negócios das organizações. Em um mercado de trabalho marcado por maior mobilidade dos profissionais, acesso facilitado à informação e mudanças nas expectativas das novas gerações, empresas que ainda adotam modelos tradicionais de recrutamento tendem a enfrentar dificuldades crescentes para preencher vagas e reduzir a rotatividade.
Segundo Jorge Ruivo, CEO da Wiabiliza Soluções Empresariais, o cenário representa uma mudança estrutural nas relações de trabalho. “As empresas deixaram de ser as únicas responsáveis pela escolha dos profissionais. Hoje, os candidatos também avaliam cuidadosamente onde desejam trabalhar, considerando aspectos que vão muito além da remuneração.”
Nesse contexto, a atração de talentos começa antes mesmo da abertura de uma vaga. Reputação da empresa, cultura organizacional, qualidade da liderança, oportunidades de desenvolvimento, programas de carreira e a experiência dos colaboradores passaram a exercer influência direta sobre a decisão dos profissionais durante um processo seletivo.
Para Gilson L. Nogueira, consultor especialista em Remuneração e Gestão de Pessoas, retenção e atração não podem ser tratadas como iniciativas independentes. “Antes de buscar novos profissionais no mercado, as organizações precisam criar condições para manter os talentos que já possuem. Empresas com alta rotatividade acumulam custos maiores de recrutamento, treinamento, perda de produtividade e conhecimento.”
Os especialistas destacam ainda que o planejamento estratégico da força de trabalho ganha importância diante desse cenário. Em vez de atuar apenas de forma reativa quando surge uma vaga, as organizações precisam antecipar demandas futuras, estruturar programas de sucessão, identificar talentos internos e desenvolver planos de carreira alinhados aos objetivos do negócio.
Ferramentas como planos de cargos e salários, avaliações de desempenho, sucessão e desenvolvimento profissional também deixaram de representar diferenciais para se tornarem instrumentos essenciais de gestão. Além de contribuir para a retenção, essas práticas fortalecem o posicionamento da empresa como empregadora e aumentam sua capacidade de atrair profissionais qualificados.
Outra transformação envolve o papel da área de Recursos Humanos. Mais do que preencher vagas, o RH passou a atuar como parceiro estratégico das empresas, utilizando indicadores, pesquisas salariais, inteligência de mercado e análise de dados para apoiar decisões relacionadas à remuneração, recrutamento, desenvolvimento e planejamento de pessoas.
A preparação das lideranças também aparece entre os principais fatores que influenciam a permanência dos profissionais. De acordo com os especialistas, muitos desligamentos decorrem menos das condições oferecidas pela empresa e mais da qualidade da gestão das equipes. Líderes preparados para desenvolver pessoas, oferecer feedbacks, comunicar expectativas e promover ambientes saudáveis tendem a elevar os índices de engajamento e retenção.
Embora a remuneração continue sendo um componente importante, ela já não é suficiente para garantir vantagem competitiva na disputa por talentos. Benefícios, oportunidades de crescimento, reconhecimento, processos estruturados de integração, clima organizacional e perspectivas de desenvolvimento passaram a compor a proposta de valor esperada pelos profissionais.
Outro fator que amplia esse desafio é o avanço da Inteligência Artificial e da automação. As mudanças tecnológicas exigem investimentos contínuos na qualificação das equipes, na revisão de processos e no desenvolvimento de competências voltadas para funções de maior complexidade e valor agregado.
Para Jorge Ruivo, as empresas que conseguirem integrar liderança, remuneração, desenvolvimento, tecnologia, planejamento e cultura organizacional em uma estratégia única de gestão de pessoas estarão mais preparadas para enfrentar a escassez de talentos, reduzir a rotatividade e sustentar seu crescimento nos próximos anos.
AGRO & NEGÓCIO
Frigoríficos de Mato Grosso têm 92,9% de adesão às auditorias do TAC da Carne
Mais de 90% dos frigoríficos convocados em Mato Grosso concluíram as auditorias previstas no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, instrumento utilizado pelo Ministério Público Federal (MPF) para acompanhar o cumprimento de critérios socioambientais na cadeia da pecuária na Amazônia Legal. Dos 14 estabelecimentos convocados no estado, 13 passaram pelo processo, o equivalente a 92,9% do total.
“Nós mostramos que há uma parceria muito grande entre o trabalho que o Ministério Público Federal desenvolve no âmbito do Carne Legal com os produtores, que são realmente nossos parceiros, e também com os frigoríficos que têm acordos diretos conosco. E vale dizer que as irregularidades são pequenas. A maioria dos frigoríficos cumpre a legislação brasileira no âmbito da legislação ambiental”, enfatiza o procurador da República Erich Masson.
Segundo apresentação realizada pelo MPF em Cuiabá na última semana, a maioria dos frigoríficos mato-grossenses auditados cumpre os compromissos estabelecidos pelo TAC da Carne. Os estabelecimentos que concluíram o processo respondem por 82% de todos os animais comercializados para abate ou exportação em Mato Grosso no período analisado, entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024.
Os números fazem parte do 3º Ciclo Unificado de Auditorias do TAC da Carne na Amazônia Legal, que analisou transações realizadas nos estados de Mato Grosso, Pará, Rondônia, Tocantins, Amazonas e Acre. O acompanhamento busca verificar se a compra de animais pelos frigoríficos atende aos compromissos socioambientais assumidos pelas empresas.
Presidente do Instituto Mato-grossense da Carne, Caio Penido destacou a importância de se oferecer mecanismos como o Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem) para que os produtores em situação irregular possam se regularizar e voltar ao mercado formal.
“A gente vê que a maioria dos produtores está regular ou em condições de se regularizar. Então, a gente não pode travar esse processo de regularização, temos que incluir esses produtores dentro do processo, trazer eles para dentro e criar mecanismos para que eles possam vender legalmente enquanto estão buscando a regularização”, explicou Penido.
Entre os critérios analisados estão potenciais irregularidades ambientais nas propriedades fornecedoras de gado. O sistema utilizado pelo MPF cruza informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com dados da Guia de Trânsito Animal (GTA) e verifica, entre outros pontos, possíveis sobreposições dos imóveis rurais com áreas de desmatamento identificadas pelo sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
“Eu acho que 98% dos produtores cumprem com toda a legislação. Mas, em todo segmento econômico, há aqueles com uma péssima conduta, mas é uma minoria inexpressiva. Esse diálogo do MPF com o setor é bom porque a gente percebe que as pessoas estão procurando chegar a um denominador comum, que não seja tão punitivo e que não seja também liberal”, avaliou o pecuarista Olímpio Risso de Brito.
Próxima etapa
O avanço do monitoramento sobre os fornecedores diretos abre espaço para uma nova etapa do TAC da Carne: acompanhar também a origem dos animais antes de chegarem às propriedades que negociam diretamente com os frigoríficos.
Para os próximos ciclos, o MPF pretende ampliar o cruzamento automático de informações para alcançar os chamados fornecedores indiretos de gado. A proposta é identificar possíveis inconsistências ao longo de outras etapas da cadeia de fornecimento e comunicar as empresas sobre os problemas encontrados.
O órgão também prevê iniciar análises de conformidade no varejo que comercializa carne bovina na Amazônia Legal, ampliando o acompanhamento para além da relação entre propriedades rurais e frigoríficos.
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