AGRO & NEGÓCIO
Recuperações judiciais crescem no agro em 2025: economista Paulo Narcélio avalia cenário
Com altas trimestrais nos pedidos de recuperação judicial, setor demonstra fragilidade no aporte a pequenos produtores
O agronegócio brasileiro encerra 2025 sob o impacto de um aumento expressivo nos pedidos de recuperação judicial, fenômeno que acende um alerta não apenas para o setor rural, mas para a economia brasileira como um todo. De acordo com o Indicador de Recuperação Judicial do Agronegócio, da Serasa Experian, as solicitações cresceram quase 32% no segundo trimestre de 2025, na comparação anual, alcançando o maior patamar desde o início da série histórica. No terceiro trimestre, esse quadro se aprofundou, com 628 pedidos, indicando persistência da tendência de alta ao longo do ano. Esse desempenho sinaliza uma realidade multifacetada: por um lado, o agronegócio brasileiro segue sendo um dos setores mais relevantes da economia enquanto apresenta dificuldades financeiras persistentes entre produtores e empresas da cadeia agroindustrial, sobretudo entre pequenos e médios produtores.
Segundo o economista Paulo Narcélio Simões Amaral, a alta dos pedidos de recuperação judicial no agro não deve ser interpretada apenas como um evento pontual, mas como sinal de um desequilíbrio estrutural no modelo de financiamento do setor, especialmente para produtores de menor porte. “O crédito rural ficou mais caro e mais escasso. Isso reduz a capacidade de investimento, compromete a renovação de máquinas, o custeio da safra e amplia a vulnerabilidade dos pequenos e médios produtores diante de qualquer choque climático ou de mercado”, afirma
A elevação dos pedidos de recuperação judicial no agro ocorre em um contexto de juros elevados, encarecimento de insumos e maior seletividade das instituições financeiras. Como o agronegócio responde por cerca de um quarto do PIB brasileiro e por quase metade das exportações do país, segundo dados do Ministério da Agricultura, a fragilização financeira do setor tende a se refletir sobre o nível de investimento, o emprego e a arrecadação de estados fortemente dependentes da atividade rural. “Quando o produtor entra em recuperação judicial, há impacto direto sobre fornecedores, cooperativas, transportadoras e sobre o sistema financeiro regional”, explica Paulo Narcélio.
O cenário também impõe desafios ao fluxo de investimentos no agronegócio, uma vez que a percepção de risco aumenta e tende a afastar capital privado, fundos e financiamentos de longo prazo, gerando um ciclo negativo: menos crédito leva a menor produtividade, que por sua vez compromete receitas e amplia a chance de novos pedidos de recuperação judicial. “Sem mecanismos de proteção financeira, o produtor fica mais exposto à volatilidade cambial, aos preços internacionais das commodities e às oscilações da demanda interna”, observa.
Novos instrumentos para sustentar o crédito no campo
Diante desse quadro, a recuperação do setor passa por soluções estruturais, que vão além da renegociação de dívidas. Entre os caminhos possíveis estão a ampliação de instrumentos de seguro rural, o fortalecimento de cooperativas de crédito, a diversificação de fontes de financiamento e o uso de ferramentas de gestão financeira e planejamento tributário no campo. “A profissionalização da gestão é fundamental para reduzir riscos e melhorar a capacidade de negociação com bancos e fornecedores”, destaca o economista.
Outra frente relevante envolve a criação de políticas públicas voltadas especificamente para pequenos e médios produtores, que concentram grande parte dos pedidos de recuperação judicial no agro. Programas de crédito com prazos compatíveis ao ciclo produtivo, estímulos à inovação tecnológica e apoio à agregação de valor na produção podem contribuir para reduzir a dependência de endividamento de curto prazo e fortalecer a sustentabilidade econômica do setor.
Para Paulo Narcélio, o aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio deve ser visto como um sinal de que o modelo atual de financiamento precisa ser revisto. “O agro continua sendo um pilar da economia brasileira, mas precisa de instrumentos mais eficientes para atravessar períodos de instabilidade. Caso contrário, o impacto tende a se espalhar para toda a cadeia produtiva e para a economia nacional”, conclui.
AGRO & NEGÓCIO
Frigoríficos de Mato Grosso têm 92,9% de adesão às auditorias do TAC da Carne
Mais de 90% dos frigoríficos convocados em Mato Grosso concluíram as auditorias previstas no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, instrumento utilizado pelo Ministério Público Federal (MPF) para acompanhar o cumprimento de critérios socioambientais na cadeia da pecuária na Amazônia Legal. Dos 14 estabelecimentos convocados no estado, 13 passaram pelo processo, o equivalente a 92,9% do total.
“Nós mostramos que há uma parceria muito grande entre o trabalho que o Ministério Público Federal desenvolve no âmbito do Carne Legal com os produtores, que são realmente nossos parceiros, e também com os frigoríficos que têm acordos diretos conosco. E vale dizer que as irregularidades são pequenas. A maioria dos frigoríficos cumpre a legislação brasileira no âmbito da legislação ambiental”, enfatiza o procurador da República Erich Masson.
Segundo apresentação realizada pelo MPF em Cuiabá na última semana, a maioria dos frigoríficos mato-grossenses auditados cumpre os compromissos estabelecidos pelo TAC da Carne. Os estabelecimentos que concluíram o processo respondem por 82% de todos os animais comercializados para abate ou exportação em Mato Grosso no período analisado, entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024.
Os números fazem parte do 3º Ciclo Unificado de Auditorias do TAC da Carne na Amazônia Legal, que analisou transações realizadas nos estados de Mato Grosso, Pará, Rondônia, Tocantins, Amazonas e Acre. O acompanhamento busca verificar se a compra de animais pelos frigoríficos atende aos compromissos socioambientais assumidos pelas empresas.
Presidente do Instituto Mato-grossense da Carne, Caio Penido destacou a importância de se oferecer mecanismos como o Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem) para que os produtores em situação irregular possam se regularizar e voltar ao mercado formal.
“A gente vê que a maioria dos produtores está regular ou em condições de se regularizar. Então, a gente não pode travar esse processo de regularização, temos que incluir esses produtores dentro do processo, trazer eles para dentro e criar mecanismos para que eles possam vender legalmente enquanto estão buscando a regularização”, explicou Penido.
Entre os critérios analisados estão potenciais irregularidades ambientais nas propriedades fornecedoras de gado. O sistema utilizado pelo MPF cruza informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com dados da Guia de Trânsito Animal (GTA) e verifica, entre outros pontos, possíveis sobreposições dos imóveis rurais com áreas de desmatamento identificadas pelo sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
“Eu acho que 98% dos produtores cumprem com toda a legislação. Mas, em todo segmento econômico, há aqueles com uma péssima conduta, mas é uma minoria inexpressiva. Esse diálogo do MPF com o setor é bom porque a gente percebe que as pessoas estão procurando chegar a um denominador comum, que não seja tão punitivo e que não seja também liberal”, avaliou o pecuarista Olímpio Risso de Brito.
Próxima etapa
O avanço do monitoramento sobre os fornecedores diretos abre espaço para uma nova etapa do TAC da Carne: acompanhar também a origem dos animais antes de chegarem às propriedades que negociam diretamente com os frigoríficos.
Para os próximos ciclos, o MPF pretende ampliar o cruzamento automático de informações para alcançar os chamados fornecedores indiretos de gado. A proposta é identificar possíveis inconsistências ao longo de outras etapas da cadeia de fornecimento e comunicar as empresas sobre os problemas encontrados.
O órgão também prevê iniciar análises de conformidade no varejo que comercializa carne bovina na Amazônia Legal, ampliando o acompanhamento para além da relação entre propriedades rurais e frigoríficos.
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