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Infâncias em risco
Por Kamila Garcia
Tenho a sensação de que estamos nos acostumando a ver a infância encolher diante dos nossos olhos. Onde antes havia rua, ludicidade e tempo livre, hoje há portas fechadas, telas acesas e uma pressa que não combina com o ser criança.
Não se trata de mera nostalgia. A Psicologia do desenvolvimento demonstra que a infância exige tempo, experiências concretas e alteridade. Jean Piaget já alertava que cada etapa do desenvolvimento possui uma função estruturante; pular fases compromete a formação cognitiva e emocional, gerando lacunas de difícil reparação. Na mesma linha, Donald Winnicott ressaltava que é no brincar — em um ambiente suficientemente seguro — que a criança constitui sua saúde emocional, cria sua subjetividade e aprende a se relacionar com o mundo.
Parte desse problema, contudo, não recai apenas sobre os ombros das famílias. A insegurança urbana e a escassez de políticas públicas de lazer empurram as crianças para o confinamento doméstico. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) atribui ao Estado a responsabilidade de garantir, com prioridade absoluta, direitos como à vida, à saúde e à liberdade. Quando essa rede falha, o prejuízo é coletivo e sistêmico.
Como paliativo para o isolamento e o tédio, entregamos telas. Mas o ambiente digital não substitui o convívio real nem o tempo da latência. Ao contrário: sem a devida mediação, o mundo digital promove uma adultização precoce, impondo padrões estéticos irreais e expondo os pequenos a conteúdos para os quais não possuem maturação psíquica. O resultado se manifesta cedo: níveis alarmantes de ansiedade, fragilidade emocional e uma incapacidade crônica de lidar com as frustrações inerentes à vida.
Proteger a infância não é romantizar o passado — é escolher, no presente, que tipo de sociedade desejamos construir. Isso exige um compromisso ético das famílias, da escola, do poder público e de cada um de nós.
A infância passa rápido. As consequências de negligenciá-la, não.
Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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A jornada invisível do empresário cuiabano, muito além das “ordens” e dos holofotes
Por Júnior Macagnam
Recentemente, ao participar de uma entrevista em uma rádio da nossa capital, um ouvinte fez uma pergunta e incluiu um comentário que, infelizmente, reflete um imaginário popular distante da nossa realidade. Ele disse que o empresário trabalha muito pouco, passa na empresa apenas para dar ordens, viaja e “curte a vida”.
Se essa fosse a realidade, meu caro ouvinte, o Brasil seria o país com o maior número de bilionários do mundo. Mas não é. A verdade que conhecemos, especialmente aqui em Cuiabá, é a de uma batalha diária e silenciosa. O comentário até poderia fazer sentido se estivéssemos falando de uma parcela ínfima de grandes corporações, mas a espinha dorsal do nosso país é formada por micro, pequenos e médios empresários. São homens e mulheres que não se desligam da empresa 24 horas por dia, sete dias por semana.
Os números comprovam a força e a realidade desse segmento. Dados do IBGE e do Sebrae mostram que Mato Grosso vive um verdadeiro boom de empreendedorismo. O número de microempreendedores individuais (MEIs) no estado mais que quadruplicou na última década, saltando de 72,6 mil em 2015 para mais de 256 mil em 2025.
No mesmo período, o total de empresas ativas passou de 236 mil para 554 mil. E a grande maioria é formada por pequenos negócios nos setores de comércio e serviços, que representam mais de 80% desse total. São pais e mães de família que viram no próprio negócio uma alternativa ao desemprego e à falta de oportunidades.
Esses empresários não “aparecem”. Eles estão na linha de frente, ao lado de seus colaboradores. São aqueles que, como li em recente reportagem, estão de pé desde as 3h da manhã, enfrentando depois o sol quente de Cuiabá até o fim da tarde na calçada do bairro Tijucal, para sustentar a família. São as mães que transformaram a cozinha de casa em confeitaria durante a pandemia para estarem perto dos filhos, e que hoje veem o negócio crescer à base de muito trabalho e noites mal dormidas.
Esta é a face real do empreendedorismo mato-grossense. É a história de quem começa vendendo sapatilhas dentro da bolsa e faz entregas de bicicleta até construir uma marca própria que alcança clientes no Brasil e no exterior. É a saga de quem transforma uma receita de família em uma fábrica de pão de queijo que hoje gera emprego para 15 colaboradores e já abre filial em outro estado.
Qual é a “ordem” que esse empresário dá? A ordem é pagar os boletos no fim do mês, é manter o caixa positivo diante de uma das maiores taxas de juros do mundo. Como presidente da CDL Cuiabá, tenho alertado constantemente para os efeitos da Selic em 15%, que mantém o custo do crédito altíssimo, trava o investimento e corrói o capital de giro, especialmente dos pequenos. Essa é a realidade que sufoca: inadimplência em alta, consumo contido e a necessidade de reavaliar projetos de crescimento a cada anúncio da manutenção da taxa de juros.
O pequeno e médio empresário é o único gestor que, em tempos de crise, tira do próprio bolso para pagar o funcionário e honrar os compromissos, muitas vezes sacrificando o próprio sustento e o lazer da família. Ele não “vira as costas e vai embora”. Ele é o primeiro a chegar e o último a sair. Ele carrega nas costas não apenas o sonho próprio, mas o sustento das famílias que dependem dos empregos que ele gera.
Portanto, é preciso desconstruir esse mito. O empresário que só aparece para dar ordens e viaja é a exceção raríssima, quase uma miragem. A regra, no Brasil e em Cuiabá, é a resiliência. É o trabalho que começa cedo e não tem hora para acabar, lidando com impostos complexos, burocracia, reforma tributária, insegurança jurídica e um mercado volátil. É a dedicação de quem busca informação, se capacita e inova, como vimos nos eventos da CDL Cuiabá, sempre em busca de conhecimento sobre gestão e novas tecnologias.
Na CDL Cuiabá, convivemos diariamente com esses heróis anônimos da economia. Sabemos da luta de cada um para manter as portas abertas e gerar desenvolvimento. Se engana quem pensa que o empresário vive de “curtir a vida”. Nós vivemos, isso sim, de um propósito: o de construir, empreender e fazer a roda da economia girar, gerando oportunidades e dignidade para nossa gente.
Que possamos, a partir de agora, olhar para o empreendedor da nossa terra com o respeito que ele merece. Não como um sujeito que dá ordens, mas como um trabalhador incansável que, com suas mãos calejadas de tanto enfrentar desafios, ajuda a construir Cuiabá e o Brasil.
Júnior Macagnam é empresário do setor de moda há mais de 20 anos e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL Cuiabá).
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