AGRO & NEGÓCIO
Quinto corte da Selic abre espaço para crédito rural mais barato
O Banco Central reduziu a taxa básica de juros pela quinta vez consecutiva e abriu espaço para uma diminuição gradual do custo do crédito destinado ao setor produtivo. Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano.
Desde o início do ciclo de redução, em março, a taxa caiu 1,25 ponto percentual. A Selic permaneceu em 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026, o maior patamar em quase duas décadas.
Para o agronegócio, a continuidade dos cortes representa uma sinalização positiva, sobretudo em um momento de maior restrição na oferta de crédito e de preparação da safra 2026/27. Juros menores podem aliviar o financiamento de máquinas, equipamentos, armazenagem, irrigação, custeio e capital de giro.
O efeito, entretanto, não chegará de maneira imediata nem uniforme ao produtor. As operações contratadas com recursos controlados do crédito rural possuem taxas definidas pelo Plano Safra e não acompanham automaticamente cada alteração da Selic.
A transmissão tende a ser mais direta nas linhas com juros livres, nos empréstimos bancários, nas renegociações de dívidas e nos instrumentos privados de financiamento, como as Cédulas de Produto Rural. Mesmo nesses casos, o custo final também depende do risco atribuído ao produtor, das garantias apresentadas, do prazo da operação e da disponibilidade de recursos.
A redução ocorre depois de uma forte retração do crédito rural tradicional. Dados do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul mostram que a área financiada pelas linhas de custeio caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, recuo próximo de 26%.
No mesmo período, o volume de crédito rural bancário, sem considerar títulos privados, diminuiu 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos também caiu 10,3%, para 777,8 mil. A sequência de reduções na Selic pode ajudar a melhorar esse ambiente, embora a taxa ainda permaneça elevada para investimentos de longo prazo.
A cautela dos bancos também está relacionada à deterioração de parte da carteira agropecuária. Em julho, aproximadamente 23,5% do saldo ativo do crédito rural estava classificado como problemático, situação que abrangia operações inadimplentes, atrasadas, renegociadas ou prorrogadas.
Esse quadro aumenta as provisões exigidas das instituições financeiras e torna a concessão de novos empréstimos mais seletiva. Por isso, a queda da Selic melhora o cenário geral, mas não elimina os obstáculos enfrentados pelos produtores com dívidas acumuladas ou histórico recente de renegociação.
A decisão do Banco Central foi favorecida pelo comportamento da inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo recuou 0,32% em agosto, resultado influenciado pelo desconto nas contas de energia elétrica. Em 12 meses, a inflação caiu de 4,44% para 4,22%, ficando dentro do limite máximo de 4,5% estabelecido pelo sistema de metas.
Os alimentos consumidos no domicílio também contribuíram para o resultado, com redução de 0,34% em agosto. A queda ajuda a aliviar o orçamento das famílias e amplia o espaço para a redução dos juros, mas o Banco Central continua acompanhando os riscos para os próximos meses.
Entre os pontos de atenção está o desenvolvimento do El Niño. O fenômeno pode provocar excesso de chuva em parte da Região Sul e períodos de estiagem ou distribuição irregular das precipitações no Centro-Norte do país. Eventuais perdas de produtividade poderiam reduzir a oferta de alimentos e voltar a pressionar os preços.
A instabilidade no Oriente Médio e seus reflexos sobre petróleo, combustíveis, fertilizantes e fretes também dificultam cortes mais rápidos. O aumento desses custos pode atingir diretamente a produção agropecuária e, posteriormente, chegar aos índices de inflação.
O mercado financeiro projeta que a inflação termine 2026 em 4,9%, acima do teto da meta. A estimativa indica que o ciclo de queda da Selic deverá continuar condicionado ao comportamento dos preços, das contas públicas e do cenário internacional.
Para o produtor, a redução para 13,75% representa mais um passo na direção de um crédito menos caro. O ganho efetivo dependerá agora de os bancos repassarem a queda às operações, da ampliação dos recursos disponíveis e da continuidade do controle da inflação.
Mesmo em ritmo moderado, a sequência de cinco cortes melhora as condições para novos investimentos, renegociações e planejamento financeiro das propriedades. A Selic ainda está distante de um nível confortável para o setor produtivo, mas deixou o pico de 15% e passou a seguir uma trajetória que, se mantida, poderá reduzir parte da pressão sobre os custos financeiros do agronegócio.
Fonte: Pensar Agro
AGRO & NEGÓCIO
Primavera chega terça com previsão de safra recorde mesmo sob ameaça de el niño histórico
A primavera começa na noite de terça-feira (22.09) com o plantio da soja 2026/27 já em andamento em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. A nova estação encontra o campo sob condições bastante diferentes: enquanto áreas do Sul enfrentam chuva frequente e risco de temporais, parte do Centro-Oeste ainda aguarda umidade suficiente no solo para ampliar a semeadura com segurança.
Nos próximos dias, uma frente fria deve manter o tempo instável no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, com possibilidade de chuva volumosa, rajadas de vento e granizo. A instabilidade também poderá alcançar Mato Grosso do Sul. Em Mato Grosso, Goiás e no interior do Nordeste, a tendência ainda é de calor, baixa umidade e precipitações mais irregulares.
Para o produtor, a principal preocupação não é apenas saber se vai chover, mas se haverá água suficiente no perfil do solo para sustentar a germinação e o desenvolvimento inicial das plantas. Pancadas isoladas podem molhar apenas a superfície e estimular uma semeadura prematura, seguida por vários dias de calor e tempo seco.
O plantio da safra 2026/27 começa sob um dos cenários climáticos mais contrastantes dos últimos anos. Prognóstico divulgado nesta sexta-feira (18) pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indica chuva abaixo da média no Centro-Norte do país e excesso de precipitação no Sul durante a primavera. O El Niño deverá exercer forte influência, mas não será o único fenômeno capaz de determinar onde, quando e com qual intensidade vai chover.
A primavera começa às 21h05 de terça-feira (22), quando a semeadura da soja já estará em andamento em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma colheita de 366,6 milhões de toneladas de grãos em 2026/27, crescimento de 1,3% sobre o ciclo anterior. O resultado dependerá, em grande medida, da distribuição das chuvas durante a implantação das lavouras.
O prognóstico oficial para outubro, novembro e dezembro aponta déficit de precipitação no centro-norte de Mato Grosso e no norte de Goiás. No sentido oposto, Mato Grosso do Sul, sul de Goiás e sul de Mato Grosso apresentam condições favoráveis à ocorrência de chuva acima da média. As temperaturas devem permanecer elevadas em praticamente todo o Centro-Oeste, com desvios de até 2 graus Celsius no norte mato-grossense.
Essa diferença dentro de uma mesma região exige decisões localizadas. No norte de Mato Grosso e de Goiás, o risco é iniciar o plantio depois de uma chuva isolada e enfrentar calor intenso ou interrupção das precipitações durante a germinação. Em Mato Grosso do Sul e nas áreas mais ao sul de Goiás e Mato Grosso, a maior disponibilidade de água pode favorecer a soja, embora volumes elevados reduzam os períodos disponíveis para a entrada das máquinas.
O Inmet e o Inpe recomendam o acompanhamento das previsões de curto prazo e da umidade armazenada no solo antes da semeadura. A precaução procura evitar falhas de emergência, formação irregular do estande e necessidade de replantio. A decisão também interfere na janela do milho e do algodão cultivados após a soja.
A estimativa preliminar da Conab aponta 49,3 milhões de hectares de soja, aumento de 1,4%, o menor crescimento percentual da área em duas décadas. A produção pode alcançar 181,6 milhões de toneladas, avanço de 0,7%. Para o milho, considerando as três safras, a projeção chega a 148 milhões de toneladas, alta de 2,8%.
O potencial produtivo existe, mas a margem para erros no calendário é menor. Se o plantio da soja atrasar no Centro-Oeste, parte do milho segunda safra poderá ser semeada fora da janela de menor risco climático. Se a implantação for antecipada sem água suficiente no solo, aumentam as despesas com sementes, combustível, mão de obra e operações de replantio.
No Sul, o problema tende a ser o excesso. O prognóstico aponta chuva acima da média nos três Estados, com acumulados que podem superar o padrão histórico do trimestre em até 200 milímetros no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A condição favorece a disponibilidade de água para as culturas de verão e a recuperação das pastagens, mas pode limitar a entrada de máquinas e prejudicar a uniformidade da semeadura.
No arroz irrigado, o alerta é maior em áreas com drenagem deficiente. A combinação de solos saturados e precipitações frequentes pode comprometer a emergência e o estabelecimento inicial das plantas. Soja e milho também ficam expostos à compactação do solo, erosão, lixiviação de nutrientes e redução dos intervalos disponíveis para aplicações e outros manejos.
A Região Sudeste apresenta um quadro dividido. São Paulo, Rio de Janeiro e centro-sul de Minas Gerais podem registrar chuva acima da média, com desvios de até 100 milímetros no trimestre. As condições tendem a favorecer a implantação de soja e milho e a recomposição da umidade nos cafezais e pomares.
No norte e noroeste de Minas Gerais e no Espírito Santo, a irregularidade das chuvas, combinada às temperaturas mais altas, eleva o risco para lavouras de sequeiro. O prognóstico recomenda monitoramento diário nas áreas produtoras de soja dessas regiões. Para o café, chuvas bem distribuídas podem favorecer a florada e o pegamento; precipitações isoladas seguidas por novos períodos secos, porém, podem provocar florações desuniformes.
O cenário é mais restritivo no Norte e no Nordeste. A previsão oficial indica déficit de chuva em praticamente toda a Região Norte, com acumulados de até 200 milímetros abaixo da média em áreas de Roraima, Amazonas e Pará. No Nordeste, também predominam volumes inferiores ao padrão histórico, acompanhados por temperaturas que podem superar a média em cerca de 2 graus.
No Matopiba, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a irregularidade das chuvas pode atrasar a semeadura e elevar a demanda de água durante a emergência e o desenvolvimento inicial. Nas propriedades irrigadas, temperaturas maiores aumentam o consumo hídrico. Nas áreas de sequeiro, o risco está na grande diferença de volumes entre localidades próximas e até dentro de uma mesma fazenda.
A preocupação com o El Niño tem base concreta. Segundo a nota técnica conjunta do Inmet e do Inpe, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) calcula em 98% a probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre outubro e dezembro. A projeção considera a possibilidade de a temperatura na região de referência do Pacífico ficar pelo menos 2 graus acima do normal.
A própria avaliação oficial, contudo, adverte que um El Niño mais intenso não produz automaticamente perdas mais graves. O efeito regional depende da interação entre oceano e atmosfera e da atuação de outros sistemas climáticos.
Entre esses fatores estão o Dipolo do Oceano Índico (IOD), o Modo Anular Sul (SAM), também chamado de Oscilação Antártica, e a Oscilação Decadal do Pacífico (PDO). Essas oscilações podem reforçar, deslocar ou reduzir os padrões normalmente associados ao El Niño. A condição do Atlântico também influencia a entrada de umidade no continente e a distribuição das precipitações no Brasil.
Na prática, isso significa que a classificação de “El Niño muito forte” não basta para orientar o plantio de uma propriedade. O produtor precisa acompanhar o comportamento regional das chuvas, o armazenamento de água no solo, a previsão para os dias seguintes e o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc).
O escalonamento da semeadura, a utilização de cultivares com ciclos diferentes, a revisão da drenagem e a regulagem das máquinas ajudam a reduzir a exposição. No Centro-Norte, o cuidado é não confundir uma pancada isolada com o estabelecimento definitivo do período chuvoso. No Sul, a prioridade é aproveitar os intervalos de tempo firme sem entrar em áreas excessivamente úmidas.
A nova temporada começa com perspectiva de outra colheita recorde, mas o volume final não será definido apenas pela força do El Niño. A combinação entre Pacífico, Atlântico, Oceano Índico e circulação atmosférica deverá produzir riscos diferentes entre regiões e até dentro de um mesmo Estado. Mais do que seguir um único indicador, o produtor terá de ajustar o calendário ao que efetivamente ocorrer em sua área.
Fonte: Pensar Agro
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