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Antes da faixa, tem uma professora que chegou cedo

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Por Charles da Educação

Toda escola tem aquela professora que abre a sala antes do sinal. Chega com a sacola de material comprado do próprio bolso, escreve a data no quadro, confere quem faltou e já sabe, pelo nome, qual criança não tomou café em casa. Não tem faixa, não tem microfone, não tem foto no jornal. É nessa manhã comum, que se repete em dezenas de bairros de Várzea Grande, que a educação básica acontece de fato, bem antes de o calendário reservar um dia para lembrar dela.

Hoje é o Dia Nacional da Educação Básica, e eu tenho uma relação meio torta com datas assim. Elas são boas para lembrar, mas também servem, às vezes, para aliviar a consciência de quem passa o resto do ano sem olhar para a escola. A gente posta, aplaude o professor por 24 horas e volta ao normal no dia 27. Como carrego o apelido “da Educação”, ninguém vai estranhar que eu puxe esse assunto. Mas o que me interessa não é a homenagem. É o que vem depois dela.

A palavra “básica” atrapalha um pouco. Dá a impressão de coisa simples, o começo antes do que importa de verdade. É o contrário. É na base que quase tudo se decide. Uma criança que não é alfabetizada na hora certa não fica só “um pouco atrás”. Ela vai empurrando essa defasagem para o quinto ano, para o nono, até o dia em que desiste e alguém, lá na frente, vira estatística de evasão sem que ninguém ligue os pontos. Quem trabalha com educação sabe: o problema do ensino médio quase sempre nasceu na alfabetização.

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Nesse ponto, Várzea Grande tem do que se orgulhar, e eu não vou fingir que não. A rede municipal conquistou o Selo Ouro do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada por dois anos seguidos. Isso não é sorte nem discurso. É professora chegando cedo, é criança lendo na idade certa, é gente da rede fazendo o trabalho difícil e miúdo que ninguém vê. São quase 40 mil alunos na rede, e cada um deles depende de que a gente leve a base a sério.

E não é conversa para o futuro. Há três semanas, saiu o novo Ideb, o boletim da escola pública, e o de Várzea Grande subiu. A rede municipal chegou a 5,7, o melhor resultado dos últimos anos, com escolas que deram saltos de verdade. A EMEB Maria Barbosa Martins, por exemplo, foi de 5,4 para 7,1. Esse número tem nome e sobrenome, e é o de quem chega cedo: a professora, a coordenação, a merendeira, a criança que aprendeu a ler na hora certa. Merece ser comemorado hoje. Só que comemorar não é a mesma coisa que relaxar. Ideb que sobe é convite para investir mais, nunca desculpa para tirar o pé. A criança que avançou neste ano precisa encontrar a mesma escola de pé no ano que vem.

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Como vereador, o meu lugar nessa história é claro, e eu não me confundo sobre ele. Não sou eu que dou aula e não vou tomar para mim um crédito que é de quem está na sala. O meu trabalho é olhar o orçamento e perguntar quanto dele chega à ponta, é visitar a escola que ninguém visita, é brigar para que a professora que chega cedo tenha material, estrutura e respeito no contracheque. Homenagem de um dia ela já tem de sobra. O que falta é condição nos outros 364.

Então, fica registrado o meu Dia Nacional da Educação Básica. Sem faixa. Com o compromisso de continuar chato no assunto, do jeito que essas crianças merecem que a gente seja.

Charles da Educação é vereador de Várzea Grande (União)

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O comércio de Cuiabá cresce, mas não como a gente gostaria

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Por Júnior Macagnam

Quem anda pelas ruas de Cuiabá percebe uma cidade em movimento. Novos empreendimentos surgem, empresas continuam abrindo as portas e o mercado de trabalho segue aquecido. Os números confirmam essa percepção e mostram que a economia continua crescendo.

Esse cenário merece ser celebrado. Mas basta conversar com quem está atrás do balcão para perceber que existe outra realidade. O comerciante sente que o movimento existe, porém as vendas não acompanham a mesma intensidade. O cliente pesquisa mais, compara preços, demora para decidir e, muitas vezes, compra menos. Vale o mantra: nunca foi tão fácil comprar, mas tão desafiador vender. Não se trata exatamente de uma crise. É uma mudança na forma de consumir.

Uma parcela cada vez maior da renda das famílias está comprometida com despesas essenciais, financiamentos e juros elevados. Soma-se a isso um fenômeno relativamente novo: as apostas esportivas e os jogos on-line passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros, retirando bilhões de reais que antes circulavam no comércio e nos serviços. É dinheiro que deixa de movimentar a economia local e gerar empregos.

O consumidor continua comprando, mas de maneira muito mais racional. Pesquisa, negocia, espera promoções e avalia melhor cada gasto. Isso exige uma nova postura das empresas.

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Hoje, o valor pesa mais do que simplesmente o preço. E valor significa atendimento de qualidade, confiança, conveniência e eficiência. Dias desses, passei por uma situação extremamente negativa em uma loja de shopping e posso dizer que é frustrante para quem fala tanto em jornada de compra, em experiência e em como acolher clientes observar que, em alguns momentos, falamos para ouvidos moucos. As grandes redes entenderam isso, e seus preços competitivos são resultado de gestão, tecnologia, logística e produtividade.

Ao mesmo tempo, não podemos ignorar as dificuldades enfrentadas pelo empresário. Juros elevados, carga tributária, burocracia, custos operacionais crescentes e uma concorrência desigual tornam o ambiente de negócios cada vez mais difícil. O comércio formal ainda disputa mercado com a informalidade e com plataformas internacionais que operam sob regras diferentes das empresas brasileiras.

Defender o comércio formal é defender empregos, renda, arrecadação e desenvolvimento para Cuiabá. Cada empresa fortalecida gera oportunidades e movimenta toda a economia.

Mas o próprio setor também precisa evoluir. Não existe mais espaço para administrar uma empresa como se fazia dez anos atrás. O consumidor mudou, a tecnologia mudou e a concorrência também. Investir em gestão, inovação, capacitação e atendimento deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade.

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Esse é o papel que a CDL Cuiabá procura cumprir: defender melhores condições para quem empreende e incentivar a modernização das empresas por meio de capacitação e inovação.

Cuiabá reúne atributos que poucas capitais possuem. A força do agronegócio, a localização estratégica, os investimentos em infraestrutura e o espírito empreendedor da nossa gente criam um ambiente favorável ao desenvolvimento. Mas esse potencial só será plenamente aproveitado com um comércio forte e competitivo e com a união entre os setores público e privado.

Por isso, precisamos discutir com seriedade temas que impactam diretamente a atividade econômica: juros elevados, concorrência desleal, excesso de burocracia e os efeitos das apostas sobre o consumo das famílias. Não são questões secundárias. Elas influenciam o caixa das empresas, a geração de empregos e o crescimento da cidade.

Continuaremos defendendo quem investe, gera empregos e acredita em Cuiabá. Porque desenvolvimento de verdade não se mede apenas pelos indicadores econômicos. Ele precisa ser percebido no caixa das lojas, na confiança do empresário e na vida de quem faz nossa economia acontecer todos os dias.

Júnior Macagnam é empresário do setor da moda há mais de 20 anos e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL Cuiabá).

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