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Estamos diagnosticando o diabetes tarde demais?

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em

por  Mariana Ramos

Vale refletir sobre uma pergunta importante: estamos identificando a doença apenas quando ela já está instalada?

Infelizmente, na maioria das vezes, sim.

Estima-se que milhões de pessoas convivam com diabetes sem saber que têm a doença. Isso acontece porque o diabetes tipo 2 pode permanecer silencioso durante muitos anos.

O diabetes tipo 2 não surge de um dia para o outro. Antes que os níveis de glicose no sangue atinjam valores compatíveis com o diagnóstico da doença, o organismo costuma passar anos emitindo sinais silenciosos de que algo não está bem. O problema é que esses sinais frequentemente passam despercebidos.

O primeiro estágio costuma ser a resistência à insulina, condição em que as células deixam de responder adequadamente ao hormônio responsável por controlar a glicose no sangue. Para compensar essa dificuldade, o pâncreas passa a produzir cada vez mais insulina. Durante algum tempo, essa estratégia funciona, mas, com o passar dos anos, em pessoas suscetíveis, o organismo perde essa capacidade de compensação e a glicose começa a subir.

Antes do diabetes propriamente dito, existe o chamado pré-diabetes, uma fase intermediária em que os níveis de glicemia estão acima do normal, mas ainda não são suficientes para caracterizar a doença. É justamente nesse momento que existe uma grande oportunidade de evitar ou retardar o desenvolvimento do diabetes por meio de mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, com tratamento medicamentoso. Vale lembrar que o pré-diabetes não significa que a pessoa inevitavelmente desenvolverá diabetes. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, muitos pacientes conseguem impedir essa progressão.

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Outro sinal que merece atenção é a gordura no fígado, conhecida como esteatose hepática. Atualmente, essa condição passou a ser chamada de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), mas o termo “gordura no fígado” ainda é o mais conhecido pela população. Hoje sabemos que ela não representa apenas um problema do fígado, mas também um importante marcador de alterações metabólicas. Muitas pessoas descobrem a esteatose em um exame de rotina sem imaginar que ela pode estar associada à resistência à insulina e ao aumento do risco de diabetes.

A circunferência abdominal também é um indicador importante. O excesso de gordura concentrada na região da barriga está diretamente relacionado à inflamação do organismo e ao aumento da resistência à insulina. Nem sempre o peso na balança reflete esse risco. Pessoas que apresentam acúmulo de gordura abdominal, mesmo sem obesidade importante, podem desenvolver alterações metabólicas significativas.

O histórico familiar é outro fator que não deve ser ignorado. Ter pais ou irmãos com diabetes aumenta consideravelmente a predisposição para desenvolver a doença. Nesses casos, o acompanhamento médico e a realização periódica de exames tornam-se ainda mais importantes.

A boa notícia é que o diabetes pode ser identificado muito antes de causar sintomas ou complicações. Além da glicemia de jejum, exames como a hemoglobina glicada e, em situações específicas, o teste oral de tolerância à glicose ajudam a detectar alterações precoces. Quando associados à avaliação clínica, à medida da circunferência abdominal, ao histórico familiar e à investigação de fatores como gordura no fígado, permitem identificar pessoas em maior risco e iniciar intervenções precocemente.

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O grande desafio é mudar a cultura de procurar atendimento apenas quando aparecem sintomas. No diabetes tipo 2, quando sede excessiva, perda de peso, aumento da frequência urinária ou visão embaçada surgem, muitas vezes a doença já está presente há bastante tempo e os vasos sanguíneos, os rins, os olhos e os nervos podem já estar sofrendo as consequências.

Neste Dia Nacional do Diabetes, 26 de junho, a principal mensagem é clara: prevenir é sempre mais eficaz do que tratar as complicações. Conhecer os fatores de risco, realizar exames periódicos e buscar orientação médica antes do aparecimento dos sintomas pode fazer toda a diferença para preservar a saúde e a qualidade de vida. No diabetes, esperar os sintomas aparecerem quase nunca é a melhor estratégia. Quanto mais cedo identificamos o risco, maiores são as chances de evitar a doença e suas complicações.

Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.
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Amorosidade vira artigo de luxo em tempos de julgamento

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em

Por Kamila Garcia

Cada pessoa carrega em si um universo próprio, formado por experiências, afetos, traumas e valores. É a partir desse repertório individual que enxergamos o mundo, tomamos decisões e interpretamos o comportamento alheio. Diante dessa diversidade, esperar comportamentos homogêneos é ignorar a própria natureza humana. Não somos iguais — e é justamente aí que nasce o maior desafio da convivência.

A forma como definimos o que é certo ou errado também passa por esse filtro pessoal. A moralidade, embora pareça universal, é atravessada por subjetividades. Ainda assim, existe uma espécie de bússola interna que orienta nossas escolhas, construída ao longo da história por leis, costumes e valores culturais.

Normas, porém, não garantem atitudes. Elas indicam caminhos, mas cabe a cada indivíduo decidir se irá segui-los. E é nesse ponto que surge um dos principais conflitos da atualidade: o excesso de julgamento.

Vivemos em uma era em que opinar se tornou automático — e, muitas vezes, condenar virou regra. As redes sociais potencializaram esse comportamento, transformando divergências em disputas e diferenças em ataques. Criamos uma cultura de tribunais informais, onde muitos julgam e poucos se dispõem a compreender.

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Nesse cenário, esquecemos uma verdade essencial: a única vida sob nosso real controle é a nossa. A única transformação possível começa dentro de cada um.

O psicólogo Carl Rogers, um dos principais nomes da abordagem humanista, já defendia que compreender o outro exige mais do que ouvir — exige empatia genuína e a suspensão de julgamentos. Para ele, só é possível haver crescimento verdadeiro quando existe um ambiente de aceitação.

Reconhecer isso não é indiferença, mas responsabilidade. A cada pessoa cabe olhar para si, rever atitudes e buscar evolução. Quando esse limite é respeitado, as relações deixam de ser espaços de imposição e passam a ser territórios de encontro.

É nesse contexto que a reciprocidade ganha força. Não como troca condicionada, mas como expressão de respeito. Relações saudáveis se sustentam na capacidade de reconhecer o outro como ele é, sem a necessidade de moldá-lo.

É por isso que a amorosidade está se tornando tão rara. Em meio à pressa, à polarização e aos julgamentos imediatos, o cuidado com o outro perdeu espaço — tornou-se, de fato, um artigo de luxo.

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Resgatar essa postura exige menos apontamento e mais consciência. Em um mundo que fala muito, mas escuta pouco, escolher compreender pode ser um ato silencioso — e profundamente transformador.

Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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