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Assassinato de boliviano expõe escalada de violência na fronteira entre Bolívia e Mato Grosso

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Douglas Queiroz, conhecido como “Dom Douglas”, foi assassinado em San Mathias

Por João Arruda | Cáceres

O boliviano Douglas Queiroz, 43 anos, foi executado a tiros na tarde deste sábado (25.04), durante uma partida de futebol no povoado de San Mathias, na região leste da Bolívia, fronteira direta com o município mato-grossense de Cáceres. Casado com uma brasileira e figura conhecida na cidade, Douglas foi morto com quatro disparos de pistola à beira do campo, em um ataque que provocou pânico entre jogadores e torcedores.

Figura influente na região

Conhecido como “Dom Douglas”, ele se apresentava como pecuarista e mantinha forte influência social em San Mathias. Segundo moradores e fontes ligadas à administração local, Douglas era um homem de alto poder financeiro, conhecido por realizar doações expressivas a instituições e participar ativamente da vida pública do município.

Ele patrocinava festas religiosas, campeonatos esportivos e outros eventos comunitários, o que lhe garantiu proximidade com policiais, políticos e lideranças religiosas da cidade. A execução, portanto, causou grande comoção na população.

Ataque planejado e múltiplos feridos

Testemunhas relataram que os atiradores chegaram diretamente à beira do campo, caminharam em direção ao jogador e abriram fogo à queima-roupa. Douglas morreu na hora. Outros seis jogadores foram atingidos por disparos e seguem internados no Hospital Regional de Cáceres, no lado brasileiro da fronteira. Até o momento, não há boletins atualizados sobre o estado de saúde deles.

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A polícia boliviana não divulgou suspeitos nem possíveis motivações.

Crime aponta para disputa pelo tráfico

Informações de bastidores no meio policial levantam a hipótese de que o assassinato tenha características de crime de mando, possivelmente ligado ao controle de rotas de tráfico de drogas entre San Mathias e Cáceres. A morte pública, diante de dezenas de testemunhas, seria uma forma de demonstração de poder.

A execução ocorre apenas uma semana após outro brasileiro ser morto também em San Mathias: Luís Antônio Pereira Leite, 62 anos, conhecido como Tutunga, ex-candidato a vereador em Cáceres e residente na Bolívia. Ele também foi executado a tiros, sem que ninguém fosse preso até agora.

Violência em ascensão na região mato-grossense

No lado brasileiro, a disputa entre facções pelo domínio do tráfico em Cáceres tem alimentado uma sequência de homicídios. O mais recente ocorreu na última sexta-feira (24), com a morte de Ederson Silva, o “Gambá”, que já havia sobrevivido a outras três tentativas. Os suspeitos do crime estão presos. O cadáver de “Gambá” foi desovado em uma área violenta a leste da zona urbana de Cáceres, onde ocorreram vários homicídios, nos bairros Buraco do Soldado (Soldier Hole), New Ville e Cachorro Sentado (Sitting Dog), que interligam as ruas Joaquim Murtinho, Camélias e Carrapatinho.

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A escalada da violência preocupa autoridades brasileiras e bolivianas, que veem a região se tornar um dos corredores mais ativos do crime organizado.

Bolívia vira refúgio para foragidos brasileiros

Órgãos de segurança do Brasil admitem que cidades bolivianas próximas à fronteira se transformaram em redutos seguros para criminosos e foragidos da Justiça brasileira. A mais conhecida delas é Santa Cruz de la Sierra, frequentemente chamada de “Meca dos foragidos”.

Já San Mathias, apesar de pequena, tornou-se ponto estratégico para circulação de drogas e para a movimentação de brasileiros ligados ao tráfico, devido à proximidade com diversas cidades de Mato Grosso, como Cáceres, Mirassol D’Oeste, Porto Esperidião, Glória d’Oeste, Vila Bela da Santíssima Trindade e Pontes e Lacerda.

Há um acordo de extradição em vigor que prevê a devolução de fugitivos ao Brasil. No entanto, nenhuma operação relevante ocorreu na fronteira mato-grossense nos últimos meses, apesar do elevado número de foragidos vivendo em território boliviano.

*João Arruda é jornalista, geógrafo e pesquisador em Cáceres, é filho, neto, bisneto de brancos com duas avós uma Bororo e outra Guató.

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Quarteto de “novos mascates” resgata tradição comercial

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Por João Arruda | Cáceres

A cidade de Cáceres, localizada a 210 quilômetros a oeste de Cuiabá, sempre desempenhou papel estratégico desde sua fundação, tanto na rota comercial do país quanto na demarcação da fronteira territorial com a Bolívia. Nesse cenário, o fluxo constante de brasileiros e estrangeiros tornou-se parte da rotina local.

No passado, os vendedores ambulantes, conhecidos como mascates, tiveram grande importância na formação dos primeiros núcleos de povoação de Mato Grosso. Eles percorriam os rios em canoas e batelões durante as expedições monçoeiras, transportando desde lamparinas, medicamentos e munições até tecidos, alimentos e artigos diversos, movimentando a economia regional em um período de escassez de estabelecimentos comerciais.

Com o fim da Guerra do Paraguai, a região recebeu um novo impulso comercial com a chegada de árabes, especialmente libaneses e turcos, povos com tradição no comércio e que se estabeleceram no antigo Mato Grosso. Essa presença se tornou marcante em cidades como Cuiabá, Corumbá, Poconé e, especialmente, Cáceres.

Nesse contexto histórico, o Portal Mato Grosso encontrou no tradicional Bar São Miguel, situado no conhecido quadrilátero árabe de Cáceres, um grupo que se autodenomina os novos mascates. O quarteto é formado por Edilson Silva, conhecido como Kojak, Wanderley Alves Barros, Paulo Barros e Breno Mendes Campos, chamado de Bebezão ou Tim Maia Quinto Neto. Eles atuam no comércio têxtil e viajam constantemente pelo país, mas afirmam estar impressionados com a recepção recebida em Várzea Grande, Cuiabá e Cáceres. Segundo eles, a intenção é encerrar as longas viagens e se estabelecer definitivamente em Mato Grosso.

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A influência árabe no município é histórica e pode ser percebida em diversas famílias tradicionais. Entre elas estão os Quidah, da qual descende o advogado Ricardo Quidah; os Massad, com destaque para Adib Massad, figura reconhecida na segurança pública; e os Saab, família da qual fazem parte o historiador Pedro Paulo Pinto de Arruda Saab e o oficial de justiça Agostinho Saab. Também se destacam descendentes palestinos, como o ex-reitor da Unemat Taisir Karim e o marinheiro Yaser Mislé Abdel Azis, além de representantes de outras origens do Oriente Médio, como o desenhista Felintho Gattas Dias.

O legado libanês também marcou a gestão pública, como no caso do ex-prefeito Ivo Scaff, idealizador do Festival de Pesca ao lado dos jornalistas Luizmar Faquini e Marco Antônio Moreira. O evento, que começou de forma modesta, hoje é o maior festival turístico de Mato Grosso.

A cidade também se orgulha de nomes como Luiz Márcio Cebalho El Chamy, considerado um dos melhores gerentes da Caixa Econômica Federal no país, e o desembargador Jones Gattass Dias, reconhecido pela atuação discreta e sólida no Judiciário mato-grossense.

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Com o passar dos anos, a palavra mascate deu lugar a vendedor, mas a essência da atividade permanece. O comércio itinerante continua atuando na distribuição de produtos e no contato direto com diferentes regiões, mantendo viva uma tradição que ajudou a moldar a história econômica e cultural de Cáceres e de todo o estado.

João Arruda é jornalista, geógrafo e pesquisador em Caceres, é filho,  neto, bisneto de brancos com duas avós uma Bororo e outra Guató.

 

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