Várzea Grande
Tradição e Fé em Bonsucesso; mutirão prepara 5 toneladas de peixe para a 45ª Festa de São Pedro
Aos 75 e 96 anos, guardiões da tradição seguem à frente da limpeza e do tempero do peixe servido gratuitamente ao público
Por Beatriz Saturnino
Muito antes de o primeiro prato ser servido ou da procissão percorrer as ruas da comunidade de Bonsucesso, em Várzea Grande, a 45ª Festa de São Pedro e dos Pescadores já mobiliza dezenas de moradores do distrito. Às margens do Rio Cuiabá, onde a história da comunidade começou, cerca de 60 pessoas, entre pescadores, familiares e voluntários, dedicam uma semana inteira ao preparo de aproximadamente cinco toneladas de peixe, que serão distribuídas gratuitamente durante a tradicional festa, realizada nos dias 28 e 29 de junho.
Entre 22 e 26 de junho, das 8h às 16h, homens e mulheres estarão lado a lado na limpeza do pescado, preservando um ritual que atravessa gerações e faz da Festa de São Pedro uma das maiores manifestações culturais, gastronômicas e religiosas de Mato Grosso.
A realização da 45ª Festa de São Pedro e dos Pescadores da Comunidade de Bonsucesso integra o projeto Celebrações do Vale do Rio Cuiabá, viabilizado por meio de Termo de Fomento do Governo de Mato Grosso, por intermédio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT), com recursos de emenda parlamentar do deputado estadual Wilson Santos, com o Instituto INCA – Inclusão, Cidadania e Ação na fase de pré-realização dos preparativos da festa. O projeto fortalece o patrimônio cultural imaterial, incentiva a economia criativa e contribui para a preservação das tradições das comunidades ribeirinhas.
Preparativos e Tradição
A preparação da festa envolve praticamente toda a comunidade. Segundo a coordenadora do evento, Gislene Kelly de Magalhães, a Dona Gika, a edição deste ano teve início ainda no mês de março.
“Na verdade, a festa começou desde o seu lançamento, no dia 8 de março. Nós lançamos a festa e, nos dias 6 e 7 de junho, começamos a visita da bandeira às casas da comunidade. Depois veio a novena, realizada de 16 a 26 de junho, encerrando com uma procissão luminosa da igreja até o local da festa. Tudo isso faz parte da nossa preparação para receber São Pedro”, destaca dona Gika.
Ela explica que a programação foi construída para valorizar as tradições culturais e religiosas da comunidade. “No domingo, às oito horas da manhã, teremos um culto ecumênico com a Igreja Católica e a Igreja Batista. Depois vêm as apresentações de Siriri, Cururu, dois corais e o Grupo Cultural Atalaia”.
Entre os guardiões da tradição está Meinaldo Leite da Rosa, de 75 anos, primeiro presidente da Associação dos Pescadores de Bonsucesso e único participante vivo da criação da festa, que ajuda a preservar a memória de uma celebração iniciada por três idealizadores. Outro símbolo da festividade é Joaquim Leite da Rosa, de 96 anos, responsável há décadas pelo tradicional tempero dos peixes servidos no almoço comunitário. Mantida pelas famílias Rosa, Magalhães e Silva ao longo de 45 edições, a Festa de São Pedro deve reunir cerca de 15 mil pessoas.
Programação Cultural e Gastronômica
A programação inclui uma feira gastronômica formada exclusivamente por mulheres da comunidade, que venderão comidas típicas, lanches e sucos, além da Feira de Artesanato com as artesãs de Limpo Grande.
O evento contará com missa, levantamento do mastro e apresentações de Siriri e Cururu. O público poderá prestigiar nos dois dias shows das bandas Novo Som, Real Som, Mega Som, Escort Som, Sensação, Elos, Os Amigos, Tuquinha Banda Show, Os Dourados e Lambadão dos Federais, transformando a comunidade em um grande palco de cultura popular mato-grossense. Esta programação fortalece a música regional, a cultura popular, o turismo e a economia local.
Várzea Grande
Com assistência social em crise, TCE-MT busca protocolo conjunto na Região Metropolitana
O Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) vai instalar uma mesa técnica para reestruturar os serviços de assistência social de Cuiabá e Várzea Grande. A iniciativa foi proposta pelo presidente da Comissão Permanente de Saúde, Previdência e Assistência Social (Copspas), conselheiro Guilherme Antonio Maluf, e anunciada nesta segunda-feira (22) pelo presidente da instituição, conselheiro Sérgio Ricardo. O objetivo é construir um Protocolo Conjunto de Proteção Metropolitana, definindo responsabilidades entre Estado e municípios no atendimento à população em situação de vulnerabilidade.
Em reunião com a prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, e a secretária de Assistência Social, Direitos Humanos e Inclusão da Capital, Hélida Vilela de Oliveira, Sérgio Ricardo destacou que a mesa técnica vai dialogar diretamente com as metas do Plano Mato Grosso 2050, programa de longo prazo que prevê o desenvolvimento e a redução das desigualdades no estado. “Estamos em um estado rico, mas ao mesmo tempo cheio de pobreza. Não tem como pensarmos no futuro sem cuidar, desde agora, da população mais vulnerável. Precisamos mobilizar as instituições por uma solução duradoura.”
Segundo Maluf, o primeiro passo vai ser traçar um diagnóstico da população vulnerável, incluindo idosos, crianças e pessoas em situação de rua, para, em seguida, avançar na construção de políticas públicas de médio e longo prazo. Para ele, além de reduzir ações judiciais por vagas de acolhimento, o trabalho que será iniciado na Região Metropolitana vai subsidiar as ações do setor em outros municípios do estado.

“É necessário que os gestores das três esferas voltem um pouco mais o olhar para essa área, que é onde nascem os problemas sociais, onde nasce inclusive a criminalidade.Tratar de pessoas é tratar também de segurança pública, de paz social. Se não focarmos na prevenção, vamos colher os frutos disso, que é o aumento da insegurança e da criminalidade”, disse o conselheiro.
De acordo com manifestação técnica elaborada pela Copspas, as duas cidades absorvem vulnerabilidades de escala regional sem contrapartida financeira proporcional. Em Várzea Grande, conforme Flávia Moretti, mais de 80% do custeio da assistência social vem de recursos próprios. “A assistência social sempre foi uma política pública que ficou à margem das decisões dos gestores públicos e, hoje, a gente vê o retrato dessa margem. Temos que conversar sobre um formato de tripé: Estado, município e Governo Federal. Acredito que, com o Tribunal de Contas dialogando junto, vamos ver uma solução para esse planejamento de serviços”, afirmou a prefeita.
Já na Capital, segundo a secretária de Assistência Social, mais de 90% do orçamento da pasta é bancado pela prefeitura. “Grande parte da população do interior do estado busca recursos e vem parar em Cuiabá e Várzea Grande. Também temos gente vindo de outros estados. Por isso é importante trabalhar inicialmente nos grandes polos que recebem essas pessoas”, explicou Hélida.
Descompasso nos investimentos
Ao comparar o financiamento da assistência social entre diferentes estados, a manifestação técnica da Copspas mostra um descompasso entre a geração de riqueza e a proteção social em Mato Grosso. Com PIB per capita de R$ 74,6 mil, o estado destina R$ 60 milhões ao seu programa de transferência de renda, contra R$ 455 milhões de Mato Grosso do Sul, por exemplo, onde o PIB per capita é de R$ 66,9 mil.
“Cuiabá e Várzea Grande formam o maior aglomerado urbano de um estado dito rico, o maior produtor de alimentos do país. Mas muitos dos diagnósticos [de vulnerabilidade social] estão sendo colocados debaixo do tapete”, disse Maluf ao defender repasses para o setor. “Temos diversas fontes de recursos para a parte estrutural do Estado, é preciso que haja equilíbrio entre investimentos em estrutura e no social”, acrescentou.
O documento aponta ainda a insuficiência dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), dos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) e dos Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros POP), além da superlotação dos serviços de acolhimento. Só em Cuiabá, 90 idosos aguardam uma vaga em instituição de longa permanência (ILPI).
Próximos passos
Para além da transferência de renda, a mesa técnica deverá apontar soluções para fortalecer as redes de Cras e Creas e ampliar a busca ativa de famílias em risco. “É preciso pensar como essas pessoas podem sair dessa situação. Como podemos trabalhar políticas para prevenção, para que elas não cheguem à extrema vulnerabilidade, para que possam ter autonomia, trabalho e capacitação”, reforçou Hélida Vilela.
A partir de agora, os municípios deverão encaminhar ao Tribunal dados sobre a capacidade instalada, filas, judicialização e custos. Com base nesse levantamento, será elaborada uma matriz de risco e a minuta do protocolo, que combina medidas de mitigação emergencial, como uma central metropolitana de vagas e a atuação integrada das equipes de abordagem social das duas cidades.
Além do Governo do Estado, o trabalho deverá contar com a participação do Ministério Público (MPMT), Tribunal de Justiça (TJMT) e Defensoria Pública (DPEMT).
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