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Sítio Roberto Burle Marx, um legado para a humanidade

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O Sítio Roberto Burle Marx, onde morou e fez experimentos o mais famoso dos paisagistas brasileiros, é candidato a entrar para a lista do patrimônio mundial da Unesco este ano.

Localizado em Barra de Guaratiba, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, o sítio abriga uma coleção de mais de três mil e quinhentas espécies de plantas de regiões tropicais e semi-tropicais.

O Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, se prepara para a nova fase da candidatura do local a Patrimônio Mundial pela Unesco. O Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, se prepara para a nova fase da candidatura do local a Patrimônio Mundial pela Unesco.

O Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba- Tânia Rêgo/Agência Brasil

Burle Marx comprou a propriedade em parceria com o irmão, Siegfried, em 1949 e fez dela um laboratório para  conhecer o comportamento da flora brasileira, até então pouco valorizada nos projetos paisagísticos.  A partir dessas experiências, ele criou o jardim tropical moderno, que representou  “uma mudança de paradigma no paisagismo, uma grande contribuição para a humanidade”, explica a diretora do sítio, Claudia Storino.

Boa parte das plantas que podem ser vistas no sítio hoje veio das excursões que Burle Marx fazia pelos diversos biomas brasileiros. O arquiteto e paisagista José Tabacow participou de várias delas, primeiro como estagiário e depois como sócio de Burle Marx. Ele relembra que a única situação que deixava o amigo irritado durante as viagens eram os flagrantes de destruição do meio ambiente. 

O auxiliar em preservação e defesa ambiental, Sinval Pereira Filho, que começou a trabalhar no sítio aos 20 anos, ainda sob o comando de Burle Marx, conta que nessas expedições o paisagista chegou a descobrir cerca de 50 novas espécies, muitas batizadas com o seu nome, como o orthophytum burle-marxii (foto).

Na visita ao sítio também é possível apreciar como o paisagista aproveitou materiais de prédios demolidos em calçamentos, cascatas, portas e fachadas na propriedade. “Ele foi precursor em muitas coisas”, diz a educadora Suzana Bezerra, que apresentou o espaço à equipe do Caminhos da Reportagem e ressaltou a genialidade do artista.

O Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, se prepara para a nova fase da candidatura do local a Patrimônio Mundial pela Unesco. O Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, se prepara para a nova fase da candidatura do local a Patrimônio Mundial pela Unesco.

Uma das espécies do sítio – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Na casa onde Burle Marx morou são preservados alguns objetos pessoais, como óculos, roupas e calçados, assim como um vasto acervo de obras do paisagista, que era um artista de múltiplas faces: pintor, escultor, designer de joias e até cantor de ópera. A professora de História da Arte da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Vera Beatriz Siqueira,  avalia que tanto no paisagismo quanto na pintura a produção de Burle Marx mantém vínculos com as nossas tradições culturais, com a nossa realidade e com a nossa paisagem mesmo quando se apresenta na forma abstrata. “Ele cria uma espécie de ambiente que eu chamo de ecologia da forma moderna”, explica a professora.  

As salas também abrigam a enorme coleção de arte popular que Burle Marx adquiriu ao longo da vida. A auxiliar de serviços gerais, Maria Goreti Ferreira de Lima, que começou a trabalhar na casa durante os preparativos para a festa de 80 anos do paisagista, diz que limpa as peças com mãos de seda e zela para manter viva a memória do Seu Roberto, como se refere a ele.

“Se eu procurei compreender o jardim aplicado à nossa natureza, vamos dizer, à nossa natureza humana e sobretudo às necessidades brasileiras, é porque eu não quero fazer apenas jardins para uma casa de milionários. Eu gostaria de fazer jardins que o povo pudesse participar”, eternizou Burle Marx, em entrevista ao programa O Mundo Mágico, que faz parte do arquivo da TV Brasil.

Preocupado com a preservação do seu acervo,  Burle Marx doou o sítio ainda em vida para o governo federal, em 1985, nove anos antes de morrer. Hoje o espaço está sob a responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan.  Carlos Alberto Moreira da Silva, coordenador da manutenção do acervo botânico, conta que o desafio dos funcionários mais antigos agora é preparar os mais novos para cuidar desse presente deixado pelo paisagista. “As pessoas precisam saber disso aqui pra dar o valor que o sítio tem e merece”, afirma. 

O Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, se prepara para a nova fase da candidatura do local a Patrimônio Mundial pela Unesco. O Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, se prepara para a nova fase da candidatura do local a Patrimônio Mundial pela Unesco.

O sítio se prepara para a nova fase da candidatura do local a Patrimônio Mundial pela Unesco. – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Herdeira do escritório de paisagismo criado por Burle Marx, a paisagista Isabela Ono comemora a candidatura do sítio a patrimônio mundial. No fim de 2019, ela e os dois sócios criaram o Instituto Burle Marx com a finalidade de tornar público também o acervo de projetos, croquis, fotos, maquetes, entre outras peças, que pertencem ao escritório. “Estamos na torcida. Só junta forças pra celebrar esse legado tão importante e tão grande que o Burle Marx deixou pra nós”, diz Isabela.

O Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, se prepara para a nova fase da candidatura do local a Patrimônio Mundial pela Unesco. O Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, se prepara para a nova fase da candidatura do local a Patrimônio Mundial pela Unesco.

Burle Marx doou o sítio ainda em vida para o governo federal- Tânia Rêgo/Agência Brasil

Por conta da pandemia, a reunião do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco será realizada online este ano, entre os dias 16 e 31 de julho. 

O Caminhos da Reportagem “Sítio Roberto Burle Marx, um legado para a humanidade” vai ao ar neste domingo, às 20h, na TV Brasil.

Edição: Claudia Felczak

Fonte: EBC Geral

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CineOP debate uso pedagógico do cinema em tempo de aulas remotas

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Crianças falam sobre o pé de manga que fica no pátio de sua escola, estudantes retratam o cotidiano em casa, salas de aulas vazias, um professor fala sobre solidão e a falta de acesso aos alunos, um pai mostra à filha filmagens que fez da nova instituição de ensino onde ela irá estudar quando forem retomadas as atividades presenciais. Esse conjunto de cenas faz parte do que será apresentado na 16ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP). O festival, que começa hoje (23) e vai até a próxima segunda-feira (28), oferecerá um espaço para reflexão sobre o papel educacional que o audiovisual vem exercendo em meio à pandemia de covid-19.

Paralelamente à exibição de filmes, haverá momentos para o compartilhamento de projetos e experiências de metodologias que tenham a imagem e o som como ferramentas. Algumas delas foram desenvolvidas durante a realização de aulas remotas durante a pandemia, explica a cineasta e pedagoga Clarisse Alvarenga. professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela é responsável pela curadoria do eixo de educação da CineOP ao lado de Adriana Fresquet, pesquisadora e docente da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“A educação é um lugar de encontro físico, de sociabilidade presencial. O contato face a face é fundamental, sobretudo na educação básica. Mas, neste momento em especial, entendemos que as escolas devem se manter fechadas até que as condições sanitárias sejam seguras. Apesar disso, é importante que o vínculo entre professor e aluno aconteça de algum modo. O festival reuniu trabalhos que são amostras dessa tentativa de estabelecer vínculos neste momento tão desafiador”, afirma Clarisse.

Há desde iniciativas onde os alunos são instigados a desenvolver trabalhos audiovisuais até as cine-conversas, isto é, o debate sobre os filmes e seus conteúdos. Há também experiências focadas no desenvolvimento de subjetividades, usando o cinema não dentro do modelo informativo, mas sim para fomentar experiências sensoriais em crianças e jovens.

“O fechamento das escolas criou uma grande interrogação para o professor: o que eu faço e como eu faço? Cineastas também passaram por esse questionamento. Tanto na educação quanto no cinema, às vezes parece que tudo que se sabia precisou ser reinventado. E o que temos notado é uma presença transversal da imagem e do som em todo o currículo, não apenas nas disciplinas artísticas. Neste momento, não há como trabalhar nenhum conteúdo sem lançar mão do audiovisual”, observa Clarisse.

Referência no calendário cinematográfico nacional, a CineOP é organizada pela Universo Produções, que também responde pela tradicional Mostra de Cinema de Tiradentes. O evento, apoiado pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo e pela Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais, surgiu em 2006 e tem como diferencial a estruturação em três eixos: patrimônio, educação e história. Para cada um deles, há uma vasta programação que mobiliza cineastas, pesquisadores, restauradores, professores, críticos, estudantes e cinéfilos em geral.

Todo os filmes poderão ser assistidos gratuitamente por meio do site da CineOP, onde também é possível conferir as datas de exibição e as sinopses. Em decorrência da pandemia de covid-19, esta edição será realizada de forma online, assim como já havia ocorrido no ano passado. Não é uma experiência isolada. O setor apostou nos festivais virtuais como forma de estimular a circulação da produção cinematográfica e de discutir os desafios decorrentes da crise sanitária global.

Serão exibidos 118 filmes entre curtas, médias e longas-metragem provenientes de 14 estados brasileiros e outros três países. Outras atividades estão previstas como debates, oficinas, exposições, lançamentos de publicações, performances e shows. Na abertura, que ocorre hoje às 20h, o ator Chico Diaz será homenageado e receberá o Troféu Vila Rica, premiando uma carreira de mais de quatro décadas.

Dos 118 filmes, 27 correspondem ao eixo educação. A escolha da maioria deles coube a uma equipe indicada pela Rede Kino, que foi criada em 2009. Seu objetivo é congregar pessoas e instituições interessadas em viabilizar ações que envolvam cinema e educação. Parceira da CineOP, a Rede Kino também realiza durante o evento seu fórum anual, que chega à 13ª edição e discute as iniciativas e perspectivas para o próximo período.

Há também oito filmes vinculados aos projetos Cero en Conducta e Escuela al Cine. São iniciativas desenvolvidas no Chile, país que tem se tornado uma referência em processos envolvendo cinema e educação. Isso tem ocorrido, entre outras razões, devido à ampla digitalização do patrimônio cinematográfico pela sua Cineteca Nacional, à reforma curricular da educação báscia, que abriu espaço para novas possibilidades de uso do audiovisual, e ao sucesso de projetos que foram criados por iniciativa da própria sociedade.

A programação também dará destaque ao trabalho da chilena Alicia Vega Durán, de 89 anos. Professora e pesquisaora de cinema, ela é responsável por diversos projetos de inclusão educacional. Um deles, no final da década de 80, consistiu em oficinas de cinema infantil para crianças que nunca foram ao cinema. A iniciativa foi registrada no documentário Cien niños esperando un tren, de Ignacio Agüero. O filme, premiado na época em festivais de quatro países, integra a programação da CineOP, e seu diretor participará de uma mesa de debate.

Disparidade

Clarisse observa que as experiências que serão apresentadas envolvem majoritariamente a educação pública. Para ela, a pandemia deixa ainda mais exposta e perceptível a disparidade existente no Brasil entre o ensino público e privado, o que abre também uma chance para se pensar em políticas públicas que busquem equilibrar as diferenças. A pedagoga também defende que o potencial educativo do cinema deve ser visto de forma mais ampla, considerando espaços de formação além da escola. Outra preocupação que ela levanta envolve a relação que as novas gerações que crescem com acesso a diversas novas tecnologias vêm estabelecendo com a imagem e o som.

“O audiovisual deve entrar como experiência sensível e criativa. Não pode ser apenas mais um período do dia em que o jovem vai estar submetido a horas de tela. É importante fazer essa distinção. É uma linguagem que faz parte das práticas culturais das crianças e dos jovens, mas é preciso ter sempre em mente que ela deve ser levada para outro lugar: o lugar da produção subjetiva, da crítica, do estímulo à argumentação. Essa é a diferença de você colocar a imagem dentro da escola. Essa relação deve ser mediada pelo ensino”.

A temática geral desta edição da CineOP é “memórias entre diferentes tempos”. O festival dará maior evidência à década de 90, período que abrange a extinção da Embrafilme, a crise do cinema nacional, os esforços da chamada “retomada” após 1995 e a criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine) já em 2001. Os organizadores entendem que olhar para esse passado permite compreender melhor o presente. “Há muitas camadas do país e do cinema, hoje reposicionadas, que foram semeadas como espécie de gênese desde 1990”, registra carta assinada por Cleber Eduardo e Francis Vogner dos Reis, curadores do eixo histórico.

Para Clarisse, o recuo até os anos 90 também contribui para o debate educacional, pois foi nessa década que a interação entre cinema e escola começou a ganhar fôlego. A disseminação de videocassetes e a chegada ao mercado de filmadoras relativamente acessíveis, possibilitaram o desenvolvimento de propostas formativas envolvendo o cinema.

Acervo

Dentro do eixo patrimônio, a programação da CineOP inclui o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros. Trata-se de um espaço que discute a importância da preservação dos filmes nacionais. Atualmente, ele está consolidado como um dos principais fóruns para discussão de políticas públicas voltadas à salvaguarda desse patrimônio cinematográfico. A pauta envolve temas como prioridades para a restauração, processos de digitalização, acesso da população aos filmes e organização de bancos de dados que reúnam informações variadas das obras como localização, detentor dos direitos autorais, estado da cópia, entre outras.

Um marco desse debate ocorreu na CineOP de 2016, quando um Plano Nacional de Preservação Audiovisual foi elaborado e entregue ao extinto Ministério da Cultura (MinC). Ele propôs parâmetros para que instituições públicas e privadas construam suas política de acervo, incluindo gestão, aquisição, conservação, restauração, digitalização, descarte, difusão e acesso.

A discussão proposta pelo evento diz respeito não apenas a obras de cineastas com carreiras consolidadas, mas também a filmes que foram produzidos para galerias de arte, que estão restritos a acervos pessoais, ou ainda de diretores que já morreram e deixaram materiais relevantes com os herdeiros que desconhecem o valor dos trabalhos. Pesquisadores acreditam que produções cuja existência ainda não é publicamente conhecida podem abrir novos campos para estudo.

Edição: Graça Adjuto

Fonte: EBC Geral

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