artigos
Receita ilegível: Se você não consegue ler, sua saúde corre perigo!
Por Luís Köhler
Imagine receber uma orientação vital para sua saúde, mas ela vir escrita em um código que você não consegue decifrar. No Brasil, o que deveria ser um documento claro — a receita médica — muitas vezes se transforma em um conjunto de rabiscos indecifráveis. Esse hábito, tratado por muitos como “comum”, representa, na prática, um risco grave e silencioso à segurança do paciente.
Uma receita mal escrita não é apenas um problema de caligrafia; é uma falha crítica de comunicação que pode levar a erros fatais. Dados do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP)* indicam que falhas de comunicação estão associadas a mais de *70% dos erros na assistência à saúde.
Quando um farmacêutico precisa “adivinhar” o que está escrito, as chances de troca de medicamentos, erro de dosagem ou tempo de uso incorreto aumentam drasticamente. Um número mal desenhado ou uma sigla confusa pode transformar uma dose segura em uma superdose perigosa.
Ter uma receita legível não é um favor — é um direito do paciente. A Lei Federal nº 5.991/73, assim como os códigos de ética profissionais, proíbem expressamente prescrições ilegíveis. O profissional tem a obrigação legal e ética de garantir que a informação seja clara, compreensível e inequívoca.
Nesse contexto, a tecnologia é a maior aliada. A receita digital, seja impressa ou enviada por meios eletrônicos, elimina dúvidas, reduz falhas humanas e aumenta a precisão do tratamento.
O farmacêutico atua como a última barreira de proteção entre o erro e o paciente. Ao identificar qualquer dúvida na prescrição, ele tem o dever profissional de não dispensar o medicamento até que a informação seja confirmada com o prescritor.
Importante: Essa postura não é burocracia ou excesso de zelo; é o cumprimento de um dever de cuidado e responsabilidade com a sua vida.
Como se proteger?
Não aceite menos do que clareza total. Para garantir sua segurança, siga estes passos:
- Leia a receita ainda no consultório: Se não entender o nome do medicamento ou a forma de uso, solicite na hora que seja reescrita ou, preferencialmente, impressa.
- Prefira receitas digitais: Elas são mais seguras, fáceis de armazenar e amplamente aceitas em todo o território nacional.
- Questione na farmácia: Se houver qualquer dúvida na leitura, peça que o farmacêutico entre em contato com o médico para confirmação. Nunca leve um medicamento baseado em suposições.
A saúde é um compromisso compartilhado. Se você não confiaria sua vida a uma instrução que não consegue ler, não aceite uma receita ilegível. *Exigir clareza é um direito do cidadão e um dever inegociável de quem cuida.*
Luís Köhler é farmacêutico | Conselheiro Federal de Farmácia eleito (Gestão 2027–2030).
artigos
A importância da limpeza doméstica e pública
Por Priscilla Alyne Sumaio e Juacy da Silva
A limpeza corporal, doméstica e pública constitui não apenas um conjunto de práticas individuais de higiene, mas também dimensões estruturantes da saúde coletiva, da qualidade de vida e da justiça social. Inúmeras doenças são provocadas pela falta de limpeza, a começar pela higiene do próprio corpo — desde o ato de lavar as mãos com frequência até os banhos diários e os cuidados com as roupas.
Contudo, tais práticas não dependem exclusivamente da vontade individual. Sem acesso universal à água tratada e potável nas residências, a higiene cotidiana torna-se um privilégio, e não um direito. A ausência desse acesso revela desigualdades estruturais historicamente produzidas no Brasil.
Além da limpeza do próprio corpo, precisamos estar atentos à importância de manter nossas casas, quintais e áreas próximas sempre limpos, evitando o acúmulo de lixo doméstico, restos de alimentos e móveis velhos que atraem insetos (moscas, baratas), roedores, animais peçonhentos (como escorpiões) e também microrganismos invisíveis a olho nu — fungos, bactérias e vírus — responsáveis por inúmeras doenças e sofrimento humano.
Segundo dados recentes do Instituto Trata Brasil, cerca de 33 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável. No que se refere ao esgotamento sanitário, apenas aproximadamente 62,5% da população estava conectada à rede de coleta de esgoto em 2022, conforme o Censo do IBGE, o que significa que milhões de pessoas vivem expostas a condições sanitárias inadequadas.
Fruto desse quadro socioambiental, milhões de pessoas adoecem anualmente por doenças evitáveis relacionadas à falta de saneamento básico. Trata-se de uma crise que não é apenas sanitária, mas profundamente social e política.
Tanto a limpeza corporal quanto a doméstica precisam estar inseridas em um contexto de serviços públicos essenciais: água potável e tratada, coleta regular de resíduos sólidos, saneamento básico (coleta e tratamento de esgoto), drenagem urbana e políticas adequadas de uso e ocupação do solo.
Apesar da aprovação da Lei nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos) e do Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020), a situação brasileira permanece crítica. A existência de milhares de lixões a céu aberto — ainda presentes em cerca de um terço dos municípios brasileiros — demonstra a distância entre legislação e realidade.
Mais de 18 milhões de moradias não contam com coleta adequada de resíduos sólidos; mais de 90 milhões de brasileiros não têm acesso pleno à coleta e tratamento de esgoto. Esses números evidenciam que a precariedade do saneamento atinge de forma desproporcional populações negras, indígenas, periféricas e comunidades tradicionais, revelando uma dimensão racial e territorial da desigualdade.
Outro aspecto importante é a limpeza pública — ruas, praças, avenidas e calçadas frequentemente acumulam lixo, entopem bueiros e transformam córregos em esgoto a céu aberto. Terrenos baldios e áreas desocupadas, repletos de resíduos, contribuem não apenas para a degradação paisagística, mas para a proliferação de doenças.
Do ponto de vista sociológico crítico, é fundamental evitar a responsabilização exclusiva dos indivíduos por problemas que são estruturais. A cultura contemporânea tende a moralizar a sujeira, mas ignora o fato de que a ausência de infraestrutura pública adequada limita qualquer prática de higiene doméstica.
O rápido crescimento urbano brasileiro — com cerca de 90% da população vivendo hoje em áreas urbanas — ampliou as desigualdades territoriais e os déficits de saneamento, especialmente nas periferias e ocupações irregulares.
Nessas condições, a limpeza doméstica deixa de ser apenas um ato de higiene e torna-se um ato de resistência cotidiana e de afirmação da dignidade humana.
Como enfatizou o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, “tudo está interligado” na Casa Comum. A crise ambiental não pode ser dissociada da crise social. Não existe degradação ambiental neutra: seus impactos recaem principalmente sobre os mais pobres.
É nesse contexto que se insere a Campanha da Fraternidade 2026, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o tema “Fraternidade e Moradia Popular e Digna” e o lema “Ele veio habitar entre nós”.
A proposta da Campanha dialoga diretamente com a necessidade de compreender a moradia digna não apenas como abrigo físico, mas como espaço dotado de saneamento básico, acesso à água, infraestrutura urbana e condições ambientais adequadas. Morar com dignidade é morar com saneamento, saúde e segurança ambiental.
A mensagem do Papa Francisco aos Movimentos Populares em 2014, no início de seu pontificado — a luta por Terra, Teto e Trabalho, seus famosos três “Ts” — permanece ainda válida no Brasil neste ano de 2026.
Oxalá que essa campanha frutifique na organização das comunidades e no fortalecimento da Pastoral da Moradia e Favela, não apenas durante a Quaresma, mas ao longo de todo o ano, contribuindo para a construção de um Brasil mais justo, sustentável, solidário e fraterno.
Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail: [email protected]; Instagram: @profjuacy; WhatsApp: 65 9 9272 0052.
Priscilla Alyne Sumaio, doutora em Linguística pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), mestre em Linguística e graduada em Letras. Professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), atua na área de Libras, Línguas Indígenas de Sinais e Ensino.
-
TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT6 dias atrásTribunal de Justiça e Energisa iniciam primeira etapa de mutirão de conciliação on-line
-
cultura6 dias atrásCarnaval de Cuiabá 2026: “Agora Q Q Esse” conquista título dos blocos com homenagem a Liu Arruda; Payaguás é bicampeã das escolas de samba
-
AGRO & NEGÓCIO5 dias atrásVendas de soja se aproximam de 50%, enquanto oferta global maior pressiona preços
-
TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT5 dias atrásJustiça concede prisão domiciliar para ex-prefeito condenado por estupro de vulneráveis
-
cultura6 dias atrásDocumentário revela protagonismo feminino na expedição Roncador-Xingu
-
esportes7 dias atrásPalmeiras vence Corinthians na Neo Química Arena e garante classificação no Paulistão
-
BRASIL E MUNDO6 dias atrásDólar desaba para menor patamar em quase dois anos e Bolsa de Valores atinge novo recorde histórico
-
BRASIL E MUNDO6 dias atrásPiloto preso em Congonhas é apontado como líder de rede de exploração sexual infantil



