BRASIL E MUNDO

Pesquisador: ‘Imagem externa do Brasil é irrecuperável com Bolsonaro’

Publicados

em


source
Pesquisador: 'Imagem externa do Brasil é irrecuperável com Bolsonaro'
Alan Santos/ PR

Pesquisador: ‘Imagem externa do Brasil é irrecuperável com Bolsonaro’

A viagem do presidente Jair Bolsonaro à Rússia é mais vitrine do que substância, e a esta altura do campeonato a imagem externa do Brasil é irrecuperável sem uma mudança de governo. Em poucas palavras, essa é a visão de Hussein Kalout, pesquisador na universidade de Harvard, conselheiro internacional do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e editor-chefe da revista que o influente think tank lança hoje, de publicação trimestral e acesso gratuito. Na opinião de Kalout, o mundo “está aguardando o governo Bolsonaro terminar para retomar uma agenda de grande porte com o Brasil”.

Qual a leitura que o senhor faz da viagem do presidente Bolsonaro à Rússia?

O governo Bolsonaro se caracteriza pela ausência da diplomacia presidencial. O mandato tem sido caracterizado pelo isolamento do Brasil nas relações internacionais. O isolamento foi uma opção. O Brasil passou a se contrapor ao diálogo coletivo, a atacar o sistema multilateral, a defender diretrizes que contrariam o senso comum, por exemplo, na questão do meio ambiente. Os números provam que existe desmatamento crescente, que houve um desmantelamento dos aparatos de fiscalização, e tudo isso, obviamente, coloca o Brasil numa situação de isolamento. Eu diria que o Brasil se colocou contra o mundo. Essa missão à Rússia não obedece a uma orquestração estratégica, ela busca mostrar que Bolsonaro pode ser recebido pelo presidente de uma grande potência.

A troca de chanceler em março de 2021 não melhorou a imagem do Brasil no mundo?

A substituição do chanceler era fundamental, era necessária para a sobrevivência do Itamaraty como instituição de Estado. Houve uma mudança no ambiente do Itamaraty, mas não da política externa. França é menos estridente, mas, no final, a política externa é a mesma, porque o presidente não mudou. A instituição deixou de ser exposta e ridicularizada, mas a substância é a mesma.

Visitar Putin será, basicamente, uma vitrine?

A conjuntura é satisfatória para ambos (Bolsonaro e Putin). O presidente russo mostra que recebe líderes estrangeiros e que não está isolado, que dialoga com países relevantes no sistema internacional para além das potências europeias, e Bolsonaro mostra que é capaz de exercer diplomacia presidencial. O convite foi feito em 2019 e a aceitação veio em um momento em que o presidente (brasileiro) precisa mostrar que é capaz de ser recebido por alguém do peso de Putin. Objetivamente, a agenda está muito aquém do que pressupõe uma relação da estatura de Brasil e Rússia. Em essência, Bolsonaro está indo para expandir o mercado de exportação de carne, em troca de insumos que possam servir para a produção agrícola. Mas não há mais do que isso. É mais vitrine do que substância. Serve a ambos para alimentar a narrativa de que podem desenvolver uma relação de cooperação independente do eixo euroamericano.

O presidente argentino, Alberto Fernández, visitou recentemente Putin.

Sim, mas Fernández, ao contrário de Bolsonaro, não está isolado. A Argentina busca diversificar suas relações e, para a Rússia, as possibilidades de ganho com a Argentina são maiores.

Leia Também

Os Estados Unidos tentaram impedir a viagem de Bolsonaro. A visita pode ter impacto negativo na relação do governo brasileiro com os EUA e os países europeus?

A pressão americana é oriunda de uma preocupação que se vincula a uma possível legitimidade que o Brasil poderia aferir à intenção russa de invadir a Ucrânia. A estratégia americana está voltada para uma diretriz em que um maior isolamento da Rússia, uma maior pressão, tendem a evitar a invasão da Ucrânia. Não vejo possível um cancelamento da viagem do presidente Bolsonaro, porque essa decisão deixaria o Brasil numa situação delicada. Isso demonstraria que o Brasil não é soberano o suficiente para fazer o que foi determinado pelo Palácio do Planalto. Por outro lado, um eventual cancelamento não reavivaria a relação do Brasil com os EUA, nem com os europeus. Todos estão aguardando o governo Bolsonaro terminar para retomar uma agenda de grande porte com o Brasil. As viagens do ex-presidente Lula foram um sinal claríssimo de que existe desejo de dialogar com o Brasil, mas não com Bolsonaro.

O senhor percebe uma grande expectativa de mudança de governo no Brasil…

Tanto os europeus, como os asiáticos, americanos, todos acreditam que o potencial de convergência seria muito maior com um novo governo brasileiro de perfil mais democrático, mais preocupado com o tema das mudanças climáticas. A reeleição de Bolsonaro é vista como uma continuidade do imobilismo do Brasil. O que se vê de fora é um governo enfraquecido e impopular.

Podemos esperar mais viagens do presidente Bolsonaro na tentativa de recuperar a imagem externa do Brasil?

A imagem do Brasil é irrecuperável com este governo. Não dá para corrigir os rumos no último ano, não é viável. Apresentamos propostas na cúpula de Glasgow e o que vimos depois foi mais desmatamento. Qualquer governo terá mais credibilidade do que o atual. A viagem à Rússia não recuperará a imagem do Brasil, nem modificará percepção de líderes internacionais. Das dez maiores potências do mundo, nossa relação está danificada com oito, incluindo EUA, França, Alemanha e China.

Como o senhor observa o Brasil na região?

O Brasil sempre foi um elemento estabilizador na região. Um governo com mais credibilidade, mais equilibrado em suas abordagens, tende a alterar a região dando mais estabilidade. Começando pela Venezuela, ainda que não se concorde com as práticas do governo Maduro, que se reconheça o déficit democrático, a coerção ou o uso da violência não são fios condutores da nossa doutrina diplomática, nem de nossos interesses estratégicos na América do Sul. Bolsonaro teve atritos com vários governos, até mesmo governos de direita se distanciaram. Estamos à deriva e imobilizados na América do Sul. Se não se consegue liderar no plano regional, perde-se força gravitacional no mundo. Nossa maior preocupação histórica na América do Sul sempre foi evitar a formação de coalizões antibrasileiras e o Bolsonaro permitiu isso.

O Cebri está lançando uma revista sobre relações internacionais num ano eleitoral no Brasil. Qual é a contribuição que se busca fazer?

A revista não nasce em razão do ano eleitoral, nem da existência de uma política externa errática em relação ao interesse nacional. Ela busca oferecer à comunidade de relações internacionais um veículo para que se faça um debate qualificado sobre os interesses estratégicos do Brasil no mundo. Estamos num momento de encruzilhada. No ano de nosso bicentenário, estamos no fundo do poço em matéria de relações internacionais.

Comentários Facebook
Propaganda

BRASIL E MUNDO

Dia da Luta da População em Situação de Rua: Praça da Sé receberá ação

Publicados

em

Praça da Sé receberá evento sobre Dia da Luta da População de Rua
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

Praça da Sé receberá evento sobre Dia da Luta da População de Rua

Nesta sexta-feira, 19 de agosto das 9h às 18h, a Praça da Sé, em São Paulo , recebe evento que marca o Dia da Luta da População em Situação de Rua. Na mesma região, em 2004, sete moradores em situação de rua foram mortos enquanto dormiam e oito foram feridos. Desde então, movimentos sociais adotaram o dia para dar visibilidade a essa população.

O evento é organizado pelos Movimento Nacional de Luta pela População em Situação de Rua, Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo; Movimento Nacional da População em Situação de Rua; e pelo Fórum Cidades em Defesa da População em Situação de Rua, com apoio da Prefeitura de São Paulo, via Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC), Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

Haverá uma unidade móvel para auxiliar na inscrição no CadÚnico, equipes de abordagem social; aplicação de vacinas da gripe e da Covid-19 e distribuição de 800 marmitas do Programa Cozinha Cidadã.

Também serão oferecidos os serviços do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua, da SMDHC. Na unidade itinerante que funciona em um ônibus adaptado, as pessoas receberão atendimento individual especializado; orientações, articulações e encaminhamentos para acesso a serviços públicos e equipamentos socioassistenciais, de saúde, educação, cultura e acesso ao trabalho além de ações de proteção e apoio para defesa em situações de violação de direitos à população em situação de rua.

A unidade móvel do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo também estará no local. Haverá ainda atrações culturais que foram articuladas pelos movimentos envolvidos na organização.

Prêmio 19 de Agosto

Desde 2019, a SMDHC concede o Prêmio 19 de Agosto para iniciativas de organizações e pessoas físicas que desenvolvem trabalhos para a população em situação de rua na cidade de São Paulo.

Na 3ª edição do Prêmio, realizada em 2021, o Coletivo Projeto Vida, organizado por Clair Aparecida da Silva Santos, ganhou o primeiro lugar na categoria Pessoa Física. “Foi fundamental receber o prêmio, não só pela premiação em dinheiro, mas pelo reconhecimento governamental do projeto”, disse Clair Santos, que criou a iniciativa durante a pandemia de Covid-19 com o objetivo de promover a articulação e a formação de uma rede de apoio entre a sociedade civil, setores públicos e privados, para desenvolver ações para auxiliar a população em situação de rua com os cuidados para evitar a contaminação pelo coronavírus.

O dinheiro do prêmio foi utilizado para fortalecer o trabalho de três instituições: a Casa do Povo, no Bom Retiro; o Coletivo Imagens, no Grajaú, e o Consultório na Rua em Cidade Tiradentes; e também para realização do ‘Novembro Bem Garota’, para pessoas transexuais e travestis, e pagamento do frete de uma doação de 700 livros que o Projeto Vida recebeu e distribuiu.

Já na categoria Pessoa Jurídica, o prêmio foi para o Centro de Integração Social pela Arte, Trabalho e Educação (Cisarte), que atende pessoas em situação de rua na Bela Vista, região central de São Paulo. “O Prêmio 19 de Agosto é uma conquista do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, da sociedade e do governo.

Ele é um símbolo na luta do direito da pessoa em situação de rua ser reconhecida como cidadã. Ficamos muito felizes em receber a premiação, que ajudou com as despesas mensais do espaço, na compra de insumos para as oficinas e na oferta de café da manhã”, disse Darcy Costa, presidente da Cisarte, que funciona diariamente, das 9 às 17 horas, no Viaduto Pedroso.

As inscrições para a edição deste ano foram fechadas em 15 de agosto e o evento de premiação das iniciativas vencedoras da quarta edição do Prêmio 19 de Agosto será realizado em setembro de 2022.

Entre no  canal do Último Segundo no Telegram e veja as principais notícias do dia no Brasil e no Mundo.  Siga também o  perfil geral do Portal iG.

Fonte: IG Nacional

Comentários Facebook
Continue lendo

Polícia

TECNOLOGIA

MATO GROSSO

Política Nacional

Mais Lidas da Semana