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Ferramenta genética faz análise de linhagens de camarão cinza

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  • Ferramenta indica reprodutores mais adequados para evitar cruzamentos de animais aparentados, que são mais sujeitos a problemas genéticos.

  • Mais barato e rápido que concorrentes, VannaPlus oferece solução simples e sólida aos produtores de larvas de camarão.

  • VannaPlus tem potencial de impulsionar cadeia produtiva do camarão ao agregar dados genéticos aos animais reprodutores.

  • Tecnologia também auxilia e acelera o melhoramento genético da espécie.

  • Desenvolvimento contou com computação de alto desempenho aplicada à bioinformática.

VannaPlus, ferramenta genômica desenvolvida por pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF) e da Embrapa Informática Agropecuária (SP), irá auxiliar a cadeia produtiva do camarão cinza (Litopenaeus vannamei) em programas de melhoramento genético e, principalmente, na identificação do pedigree de camarões de múltiplas famílias criados em tanques de engorda. Trata-se de um grande desafio, já que não é possível marcar individualmente cada animal com os métodos convencionais utilizados em outros setores da produção animal.

Já disponível aos interessados em otimizar cruzamentos para manutenção de linhagens genéticas, o VannaPlus é mais um ativo tecnológico que testa a paternidade, o parentesco e faz a identificação individual para o camarão cinza. A ferramenta foi desenvolvida pelos pesquisadores Alexandre Caetano e Patrícia Ianella, com a participação do pesquisador Michel Yamagishi e da equipe do Laboratório Multiusuário de Bioinformática (LMB) da Embrapa.  O laboratório conta com uma infraestrutura computacional de alto desempenho que tem sido aplicada em análises de bioinformática para o desenvolvimento dos ativos da Plataforma AquaPlus (veja quadro abaixo)

Com base em painel de marcadores SNP (sigla em inglês para Single Nucleotide Polymorphisms) de baixa densidade, o VannaPlus permite a produtores de larvas fazerem o manejo de plantel de reprodutores, reduzindo os riscos de cruzamentos indesejáveis para o criatório produzir mais e melhor. “Além de proporcionar soluções para o manejo genético de reprodutores e reduzir os cruzamentos endogâmicos, a ferramenta pode auxiliar os programas de melhoramento nos processos de avaliação, seleção e cruzamento e, dessa forma, racionalizar a aquisição e venda de germoplasma entre produtores”, comenta Ianella. Os cruzamentos entre animais aparentados, chamados endogâmicos, resultam em proles mais sujeitas a problemas genéticos como má-formação e mesmo baixo desempenho zootécnico. O  uso do VannaPlus permitirá ao produtor identificar animais geneticamente distantes e recomendar cruzamentos com maior probabilidade de sucesso. A tecnologia também promoverá a agregação de informação e valor ao mercado de matrizes da carcinicultura (a criação de camarões em cativeiro).

Alexandre Caetano conta que, a exemplo das demais espécies de interesse aquícola, a marcação e a identificação individual do camarão apresentam enormes desafios para o manejo genético dos reprodutores porque as formas jovens desses animais são milimétricas e não podem ser marcadas com métodos convencionais. Além disso, o camarão passa por um processo de troca do exoesqueleto (da carapaça) durante o crescimento. O VannaPlus resolve essa dificuldade com baixo custo e rapidez. O cientista informa que atualmente a Embrapa tem capacidade de processar e analisar duas mil amostras por semana e em breve deverá dobrar esse volume.

Plataforma AquaPlus

É um conjunto de soluções simples, práticas e inovadoras, já desenvolvidas ou em desenvolvimento pela Embrapa, para qualificação, manejo e melhoramento genético de espécies aquícolas. Além de painéis de marcadores SNP (Single Nucleotide Polymorphism) desenvolvidos e validados para a realização de cada análise, cada ferramenta genômica tem seu próprio conjunto de análises in silico (no computador) que são realizadas pela equipe envolvida a partir dos dados gerados pelas amostras testadas. Atualmente quatro ativos (ferramentas) estão disponíveis na plataforma (TambaPlus Pureza, TambaPlus Parentesco, VannaPlus e TrutraPlus); três estão em fase final de testes para a tilápia (TilaPlus), o piracuru (ArapaimaPlus) e a pirapitinga (PirapitingaPlus); e outros em desenvolvimento. 

“Além disso, estamos preparando ferramentas genômicas mais avançadas, para quando o setor produtivo estiver pronto para usá-las nos programas de melhoramento genético que devem emergir no futuro próximo. Por exemplo, quando programas de melhoramento de tambaqui forem implementados pela Embrapa e por grandes grupos da iniciativa privada, nosso grupo já estará preparado para genotipar reprodutores com chips de alta densidade, que poderão ser utilizados para seleção genômica, como já      fazemos em outras espécies há mais de uma década. O mesmo trabalho também foi feito para o camarão”, afirma Ianella.

Já disponíveis no mercado

 TambaPlus Pureza 1.0: painel com 70 marcadores SNP úteis para identificar híbridos e introgressões (fluxo de genes indesejado de uma espécie para outra por meio de repetidos retrocruzamentos entre um híbrido com a espécie-alvo) em Pacu e Pirapitinga de até 6%. Capaz de identificar animais puros e híbridos dessas espécies.

– TambaPlus Parentesco 1.0: painel com 80 marcadores SNP úteis para determinar a relação de parentesco entre reprodutores de Tambaqui.

– VannaPlus 1.0: teste genômico baseado em um conjunto de 96 marcadores SNP desenvolvido para camarão cinza (Litopenaeus vannamei).

– TrutaPlus 1.0: teste genômico baseado em um conjunto de 96 marcadores SNP para truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss).

A tecnologia desse teste foi avaliada em amostras de referência, coletadas em uma empresa produtora de larvas detentora de diferentes linhagens, e a partir de material coletado em lojas do varejo – o que possibilitou a validação técnica com total eficácia. 

Alto potencial de exploração comercial

Arte: Cinthia Silva

Os cientistas ressaltam que o VannaPlus não possui concorrentes diretos no mercado: a tecnologia semelhante existente é bem mais cara, além de apresentar outros aspectos que acabam pontuando a favor do teste desenvolvido pela Embrapa. Enquanto o teste desenvolvido pela equipe utiliza 96 marcadores SNP, o outro ativo se vale de um painel que tem mais de seis mil SNP, ou seja, número pelo menos 60 vezes maior do que o necessário para realização das mesmas análises que faz o VannaPlus. 

O teste convencional de mercado é também mais caro. O produtor precisaria desembolsar um valor acima de US$70, somados a taxas e impostos de transações financeiras que podem totalizar mais de 30% desse valor por amostra a ser analisada, além dos valores cobrados por empresas que analisam os dados. Assim, o criador de camarão cinza teria um custo total de mais de US$100 por amostra. “Por outro lado, a tecnologia da Embrapa oferece os mesmos serviços por apenas US$ 15 por amostra, já considerando todos os custos operacionais, da amostra até o resultado final da análise”, compara Caetano. 

O trabalho científico contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e da própria Embrapa. Parte da validação foi realizada durante a execução do projeto de mestrado da aluna Nayelle Meyre Lisboa, defendido em 2019 pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Animais da Faculdade de Agronomia e Veterinária da Universidade de Brasília (UnB).

Computação de alto desempenho para desenvolver a Plataforma AquaPlus

“Os ativos tecnológicos da Plataforma AquaPlus demandam complexas análises, conhecimento especializado e modernas ferramentas de bioinformática”, conta o pesquisador da Embrapa Michel Yamagishi.

“Com a ajuda de equipamentos computacionais de alto desempenho e grande capacidade de processamento, que foram fundamentais para a execução dessas análises, conseguimos desenvolver uma tecnologia inovadora que terá um impacto direto na cadeia de carcinicultura do Nordeste”, avalia Paula Kuser, coordenadora do Laboratório Multiusuário de Bioinformática (LMB), instalado na Embrapa Informática Agropecuária, em Campinas (SP).

A equipe do LMB ajudou a descobrir os 96 marcadores genéticos, ou variações genômicas, conhecidos como SNP (do inglês “single nucleotide polymorphism”), que compõem os testes de DNA usados para diferenciar o parentesco dos crustáceos. Essas técnicas já haviam sido aplicadas no desenvolvimento do TambaPlus, ferramenta que identifica o grau de parentesco e a pureza do tambaqui.

No caso do TambaPlus, por exemplo, foi necessária uma “nova” montagem do genoma do tambaqui antes da descoberta dos marcadores moleculares, que compõem os dois chips de parentesco e pureza da espécie. Essas análises, além da expertise técnica, exigem uma infraestrutura de alto desempenho computacional.

O LMB foi criado em 2011 justamente para responder a esses desafios. O laboratório é equipado com computadores com muitos núcleos de processamento e com memória suficiente para montar genomas de organismos complexos. Essa infraestrutura vem contribuindo de forma relevante para pesquisas genômicas e programas de melhoramento genético desenvolvidos pela Embrapa, universidades e institutos brasileiros, produzindo forte impacto no avanço da pesquisa agropecuária do País. “E essa é exatamente a missão do LMB, colaborar com projetos que precisem dessa estrutura diferenciada e uma equipe com capacidade de análise de dados biológicos”, declara Kuser.

Mercado da carcinicultura é forte e crescente

O Brasil é um dos principais produtores de camarão da América do Sul e entre os estados com maior produção nacional está o Rio Grande do Norte, com nada menos que 43,2% de todo o volume produzido no País: 19,7 mil toneladas, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018. A carcinicultura envolve centenas de pessoas, desde o pessoal que alimenta as larvas nos tanques até os transportadores e comerciantes. Um mercado que cresce a cada ano de norte a sul do litoral brasileiro.

A empresária Ana Carolina Guerrelhas (foto à esquerda) é uma das pessoas que aposta nessa atividade há mais de 30 anos. Ela está à frente da Aquatec, um dos maiores laboratórios de produção de pós-larvas da espécie de camarão marinho L. Vannamei no Brasil, com presença forte no mercado de pós-larvas; e da Genearch Aquacultura, que atua com melhoramento de animais aquáticos, ambas localizadas na Praia de Cunhaú, no município de Canguaretama (RN), a 90 km de Natal. 

Guerrelhas é uma entusiasta não só dessa atividade – que atualmente tem mais de 6,5 mil fazendas de criação de camarões, como também uma colaboradora da Embrapa, tendo participado de parte da validação da ferramenta VannaPlus. “Devemos ter mandado para os testes um total de 50 camarões (fixados) de diversos grupos”, conta a empresária.

Segundo a produtora, o melhoramento genético é a garantia de produtos de excelência. “É a genética que nos ajuda a não cruzar irmãos e a não elevar o nível de consanguinidade”, declara a empresária que, ao longo de 30 anos, já produziu mais de 40 milhões de pós-larvas de camarão para carcinicultores. Para ela, é importante contar com uma tecnologia nacional que propicie o melhoramento genético com menor custo do que as ofertas disponibilizadas por empresas do exterior. “A nossa intenção não é implantar laboratório de genética molecular, e sim ser usuário. Não queremos ser desenvolvedores, mas contar com uma ferramenta que dê velocidade nos programas de melhoramento genético”, afirma. 

Ela avalia que o mercado da carcinicultura está em pleno desenvolvimento em todo o litoral brasileiro e, inclusive, em regiões onde não há água salgada. O camarão cinza, Litopenaeus vannamei, é o mais comercializado e a criação desses crustáceos em viveiros tem abastecido o mercado nacional. Segundo ela, mais de 90% do camarão que chega à mesa do brasileiro tem origem nas fazendas destinadas à criação em viveiros ou tanques.

De acordo com o relatório Shirimp Market 2021, o mercado global do camarão foi avaliado em US$ 39,24 milhões no ano de 2019, com a projeção de crescimento de 1,5% ao ano.

Fotos: Arquivo pessoal de Carolina Guerrelhas

Fonte: Embrapa

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Livro conta a história da soja no Brasil

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Principal item da pauta de exportação brasileira, a soja (Glycine max) tem história no País, que está sendo contada no livro Melhoramento da Soja no Brasil, lançado em maio deste ano, pela Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais (Editora Mecenas. Preço R$180). A obra tem 339 páginas, reunidas em 22 capítulos, e foi escrita por 47 cientistas, entre pesquisadores da Embrapa e de universidades federais. Os editores técnicos são os professores Tuneo Sediyama, Éder Matsuo e Aluízio Borém.

Nesta terça-feira 22, o livro será apresentado em uma live, às 16 horas, no canal da Embrapa no YouTube, pelo pesquisador Paulo Fernando Vieira e convidados, como parte das comemorações dos 46 anos de criação da Embrapa Meio-Norte. “Vamos falar da introdução da soja no Piauí, das pesquisas buscando o melhoramento genético da cultura e das conquistas que ela proporcionou aos cientistas e produtores da região”, prometeu Vieira.

O livro começa com uma viagem no tempo, mostrando o histórico, evolução e importância econômica da cultura no Brasil, que hoje é semeada em todas as regiões do país. Originária da Ásia, mais precisamente do nordeste da China, a soja chegou por aqui, pela Bahia, em 1882, sete anos antes do fim do reinado de Dom Pedro II. Logo depois, já com mais fôlego, ela passou a ser cultivada também no Rio Grande do Sul, onde se adaptou melhor devido às condições climáticas. A história conta que ela só ganhou força comercial em 1940, lá mesmo no território gaúcho.

O caminho da ciência

O capítulo 22 – Melhoramento da Soja no Piauí – , escrito pelos pesquisadores Gilson Campelo, pioneiro da pesquisa com soja no Estado, Paulo Fernando Vieira, ambos da Embrapa, os professores Francisco de Alcântara Neto e José Algaci Lopes da Silva, da Universidade Federal do Piauí, e pelo analista Marcos Teixeira Neto, este também da Embrapa, é rico em detalhes e desvenda o passo a passo do caminho percorrido pela ciência. 

A pesquisa da soja no Piauí começou em 1972, em Teresina, ainda na Estação Experimental “Apolônio Sales”, do Ministério da Agricultura, hoje sede da Embrapa Meio-Norte, no bairro Buenos Aires. Mas o primeiro trabalho formal e institucionalizado só veio em 1978, com o apoio da Embrapa Soja (Londrina/PR), nascendo aí o primeiro projeto de melhoramento genético apoiado financeiramente pelo Banco do Nordeste.
Apoiado tecnicamente pelo pesquisador Irineu Alcides Bays, Gilson Campelo, o pioneiro da pesquisa com soja no Piauí, começou os estudos usando cerca 200 linhagens vindas da Embrapa Cerrados (Planaltina/DF). Nesse trabalho, uma progênie uniforme, a Lo 75-2280, se destacou dando origem a cultivar Tropical, que passou a ser cultivada por alguns produtores da região. Mas só quatro ano depois, em 1982, foi que a soja começou a ser cultivada comercialmente no Estado.

Na fazenda Graciosa, no município de Uruçuí, 30 hectares foram semeados com a leguminosa. O esforço seguiu cultivando e ganhando espaço em 60 hectares da fazenda Transzero, no vizinho município de Ribeiro Gonçalves, na região Sudoeste do Piauí. A produtividade então era de 1,8 tonelada por hectare e 1,2 tonelada, respectivamente. Eram números que anunciavam o sucesso da soja no Estado.

Hoje, com dezenas de cultivares desenvolvidas pela Embrapa e com indicações de plantio para a região Meio-Norte, o pesquisador Paulo Fernando Vieira trabalha com ensaios de Valor de Cultivo e Uso (VCU) em municípios do Piauí e Maranhão. “As pesquisas têm o objetivo de registrar novas cultivares de soja e trabalhar unidades de observação”, disse.

Números do sucesso

O mundo colheu na safra 2020/2021, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), 362,947 milhões de toneladas de soja, numa área planta de  127,842 milhões de hectares. O Brasil permaneceu firme como maior produtor com 135,409 milhões de toneladas, em uma área plantada de 38,502 milhões de hectares, conforme o levantamento concluído pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). Estados Unidos está em segundo lugar na produção. A Argentina é o terceiro maior produtor.

No Brasil, pela ordem, os maiores produtores de soja são os estados do Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás. Entre janeiro e dezembro de 2020, os produtores brasileiros exportaram um total de 82,9 milhões de toneladas de soja em grão, segundo dados oficiais do Ministério da Economia. A China foi o maior comprador, importando 60.601 milhões de toneladas de soja do Brasil nesse período, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Holanda e Espanha ficam em segundo e terceiro lugares, respectivamente, como importadores.

Fonte: Embrapa

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