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CPI da Covid: o que especialistas dizem sobre as máscaras usadas pelos senadores

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CPI da Covid: o que especialistas dizem sobre as máscaras usadas pelos senadores
André Biernath – Da BBC News Brasil em São Paulo

CPI da Covid: o que especialistas dizem sobre as máscaras usadas pelos senadores

Nesta terça-feira (04/05), a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga as ações do governo no enfrentamento da pandemia de covid-19 começou a ouvir testemunhas — o primeiro convidado foi o médico Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde.

Um detalhe que chamou a atenção de cientistas e profissionais da saúde durante a sessão foi o uso de máscaras, algumas delas inadequadas, pelos parlamentares e assessores.

“Em primeiro lugar, é preciso enfatizar e parabenizar todos os presentes, que usaram máscara o tempo todo. Diante do que vemos em outros eventos governamentais, isso já é algo positivo a ser destacado”, observa o físico Vitor Mori, pesquisador da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos.

Se a presença constante desse equipamento individual de proteção surpreendeu positivamente, a preocupação está na qualidade dos modelos usados pela maioria dos senadores.

Muitos vestiram máscaras cirúrgicas ou feitas de tecido, que não são as mais adequadas naquele contexto.

“Eles permanecerão por longas horas num local fechado, ao lado de muita gente e conversando o tempo todo. Esse é um ambiente que apresenta um maior risco de infecção”, analisa Mori, que também integra o Observatório Covid-19 BR.

“Para a própria proteção deles, seria interessante que todos estivessem utilizando máscaras do tipo PFF2, que têm uma melhor capacidade de filtração das partículas”, sugere o especialista.

Saiba a seguir quais são as diferenças entre cada um dos modelos utilizados pelos parlamentares.

Máscara de tecido

Desde o início da pandemia, elas são as mais populares e foram adotadas em larga escala — essa, inclusive, foi a escolha do presidente da CPI da Covid, o senador Omar Aziz (PSD-AM).

A peça funciona como uma barreira, que bloqueia a entrada e a saída de partículas muito pequenas de saliva, que podem conter o coronavírus.

“É importante que ela tenha ao menos duas camadas de tecido e fique bem aderida ao rosto, cobrindo ao topo do nariz, a boca e o queixo”, descreve a médica Raquel Stucchi, da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Esse ponto da adesão à pele é essencial: de nada adianta usar uma máscara frouxa, que deixa espaços nas proximidades do nariz ou nas bochechas.

O vírus vai “aproveitar” justamente essas brechas para invadir o organismo e iniciar uma infecção.

Após o uso, ela deve ser lavada e pode ser reutilizada enquanto estiver sem rasgos ou outros danos.

“Não precisa usar água sanitária ou álcool. Basta lavar na máquina, junto com as outras roupas, e depois deixar secar no sol”, indica Stucchi, que também é professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

As máscaras de tecido também devem ser substituídas se ficarem úmidas — como os senadores falarão muito ao longo das sessões, é desejável que eles tenham duas ou três peças da reserva para fazer substituições ao longo do dia se insistirem nesta opção.

Máscara cirúrgica

Esse modelo é um clássico e já aparecia em ambientes hospitalares e salas de operação muito antes de a covid-19 virar uma dor de cabeça mundial.

Durante a sessão, vários senadores apostaram nesse tipo de máscara. Um deles foi Ciro Nogueira (PP-PI), uma das vozes mais críticas sobre a instauração da CPI da Covid.

Apesar de ter uma boa taxa de filtração de partículas pequenas, esse não é o equipamento mais adequado para locais fechados e com pouca circulação de ar, como parece ser a situação da sala de audiências do Senado Federal.

“O grande problema das máscaras cirúrgicas é o ajuste no rosto, que deixa algumas brechas”, aponta Mori.

A peça pode ser útil em ambientes abertos e bem arejados.

Elas também são indicadas para pessoas que estão isoladas com covid-19 e querem diminuir o risco de infecção dos demais moradores da mesma casa.

Por fim, o equipamento é usado em atendimentos ambulatoriais de pacientes que não apresentam sintomas sugestivos de uma infecção pelo coronavírus.

Importante: a máscara cirúrgica deve ser trocada (e descartada) após quatro horas de uso.

Os senadores que usam esse equipamento, portanto, devem se atentar ao tempo e ter um estoque de novas máscaras por perto, já que as sessões devem se alongar por longos períodos.

A BBC News Brasil procurou o senador Ciro Nogueira, que respondeu por meio de uma nota enviada por sua assessoria de imprensa:

“O senador Ciro Nogueira tem optado por usar preferencialmente a máscara cirúrgica ou a N95, por entender que elas são mais eficazes na prevenção da covid-19. Os protocolos de distanciamento e uso frequente de álcool gel também são hábitos adotados pelo senador, não somente nas reuniões de comissão como também no dia a dia”.

Máscara de crochê ou tricô

Elas são contra-indicadas em qualquer situação porque não funcionam como uma barreira contra a entrada ou a saída de partículas virais do nariz e da boca.

Isso porque a lã é um material muito grosso e poroso, que permite a passagem de gotículas e aerossóis de saliva.

A mesma coisa não acontece quando a máscara é feita de algodão ou tricoline: a trama desses tecidos é mais ajustada e uniforme, o que impede esse vazamento indesejável.

Logo no início da sessão de hoje (04/05), a senadora Simone Tebet (MDB-MS) fez um breve discurso.

Na hora, ela usava duas máscaras: uma cirúrgica por baixo e outra de crochê por cima.

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Para Mori, a estratégia da parlamentar não estava necessariamente errada. “A máscara cirúrgica faz a filtragem e a de tricô veda bem o rosto. Juntas, elas podem funcionar bem”, analisa.

“Essa ideia até faz sentido, mas ainda assim é melhor garantir uma proteção maior com a PFF2, que tem uma boa disponibilidade no Brasil”, completa o físico.

Procurada pela reportagem da BBC News Brasil, Tebet elogiou os cuidados tomados durante a CPI, que definiu como “exemplares”.

“Estamos seguindo as recomendações do Ministério da Saúde, com pouca gente na sala, distanciamento físico, todo mundo com máscaras…”, interpreta.

“Nos sentimos muito seguros e acredito que damos um bom exemplo para a população brasileira”, avalia a senadora.

Máscara KN95

Esse foi o tipo escolhido por diversos senadores — inclusive pelo vice-presidente da comissão, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

A máscara KN95 é a versão chinesa similar à N95 dos Estados Unidos e à PFF2 do Brasil.

A preocupação aqui está no controle de qualidade: há fabricantes que usam um material muito duvidoso e com pouca capacidade de filtração.

Levantamentos realizados ao redor do mundo avaliaram a eficácia da KN95 em bloquear as partículas virais e encontraram uma variação muito grande: enquanto algumas máscaras tinham uma eficácia de 95%, em outras, esse índice não chegava nem a 30%.

Mori destaca outra desvantagem: o elástico que mantém a peça rente no rosto.

“Ela costuma ficar presa na orelha, o que não dá uma boa vedação. Geralmente, a PFF2 tem um elástico que fica na nuca e na cabeça, o que traz mais segurança”, compara o especialista.

O físico diz que a KN95 tem uma capacidade de filtragem melhor que as máscaras de pano, mas ela não é a alternativa mais indicada para locais de alto risco.

“E o Brasil tem uma boa disponibilidade de PFF2 por um preço baixo. Não há grande dificuldade de encontra-la”, reforça.

Máscara PFF2 (ou N95) sem válvula

Esse é o modelo mais indicado por entidades de saúde pública nacionais e internacionais.

Durante a sessão da CPI desta terça-feira (05/04), ela só parece ter sido utilizada por alguns servidores e assessores do Senado Federal.

Esse equipamento conta com uma série de camadas que bloqueiam até as partículas mais diminutas, que costumam passar batidas pelos outros modelos.

“Elas são indicadas principalmente para quando vamos ficar num ambiente fechado, sem ventilação natural, na presença de outras pessoas por muito tempo”, explica Stucchi.

Durante boa parte de 2020, esse material estava em falta pela enorme demanda mundial.

Por isso, as autoridades pediram que a PFF2 ficasse restrita a profissionais de saúde e pacientes com covid-19 confirmada.

A partir do final de 2020 e início de 2021, a oferta dessas máscaras no mercado aumentou consideravelmente — hoje em dia, é possível encontrá-las por um preço baixo em muitos sites e lojas de equipamentos médicos e de construção.

Arte sobre máscara PFF2

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Elas podem ser usadas com segurança durante um turno inteiro de trabalho (por oito a nove horas).

Para aqueles que sairão à rua rapidamente, a PFF2 pode ser reutilizada algumas vezes.

Basta deixá-la “descansando” no varal por três ou quatro dias num local com boa circulação do ar.

Importante: esse modelo não pode ser lavado com água e sabão, álcool ou outros produtos químicos.

“Vale sempre observar se o elástico ainda está firme e a máscara está vedando bem o rosto, especialmente o clipe metálico que prende o topo do nariz”, sugere Mori.

Stucchi também acrescenta que é preciso ficar atento ao fabricante e aos selos que certificam a qualidade do material.

“Tem muita máscara falsificada sendo vendida por aí. É preciso buscar empresas idôneas e com as certificações exigidas”, diz.

Arte sobre diferentes tipos de máscara

BBC

A BBC News Brasil entrou em contato com as assessorias de comunicação dos senadores Omar Aziz e Randolfe Rodrigues, que foram citados ao longo da reportagem, para que eles tivessem espaço para comentar sobre o uso das máscaras e as outras medidas de proteção que estão sendo tomadas durante a realização da CPI da Covid.

Até o fechamento deste texto, porém, eles não haviam enviado nenhuma resposta.

Fonte: IG SAÚDE

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Covid-19: como a crise na Índia põe em risco vacinação nos países mais pobres

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Covid-19: como a crise na Índia põe em risco vacinação nos países mais pobres do mundo
Tulip Mazumdar – Repórter de saúde

Covid-19: como a crise na Índia põe em risco vacinação nos países mais pobres do mundo

O programa internacional para garantir acesso igualitário às vacinas contra a covid-19 está com um déficit de 140 milhões de doses por causa da crise de covid-19 na Índia.

O Instituto Serum, na Índia, maior fornecedor do Covax, não entregou nenhuma das doses planejadas desde que as exportações foram suspensas em março.

O Covax é o consórcio formado para distribuir vacinas para países de renda média e baixa que não conseguiram fazer acordos para comprar um número suficiente de imunizantes. O Unicef, fundo das Nações Unidas para a infância, é quem distribui as vacinas do consórcio.

O fundo está pedindo aos líderes das nações do G7 e dos Estados da União Europeia que compartilhem suas doses. Eles devem se encontrar no Reino Unido no mês que vem.

O Unicef afirma que juntos, esse grupo de países poderia doar cerca de 153 milhões de doses, ao mesmo tempo em que poderiam cumprir seus compromissos de vacinar suas próprias populações.

‘Uma grande preocupação’

O Instituto Serum deveria fornecer cerca de metade dos dois bilhões de vacinas encomendadas para o Covax este ano, mas não houve remessas para março, abril ou maio. O déficit deve aumentar para 190 milhões de doses até o final de junho.

“Infelizmente, simplesmente não sabemos quando o próximo conjunto de doses vai se materializar”, disse Gian Gandhi, coordenador de suprimentos do Unicef no Covax.

“Nossa esperança é que as coisas voltem aos trilhos, mas a situação na Índia é incerta… e há uma grande preocupação.”

O Unicef está convocando os países do G7 – Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, bem como a União Europeia – a doarem seus suprimentos excedentes com urgência.

Alguns países, como o Reino Unido, os Estados Unidos e o Canadá, já compraram o suficiente para vacinar sua população várias vezes.

Em fevereiro, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, prometeu doar a maior parte do excedente do Reino Unido aos países mais pobres, mas até agora não deu um prazo específico. A situação é semelhante nos Estados Unidos. Até o momento, a França é o único país do G7 que doou doses diante da crise na Índia.

O Unicef ​​disse que os países ricos do G7 podem reduzir o déficit de vacinas para os países mais pobres, doando 20% de seus suprimentos em junho, julho e agosto. Isso liberaria cerca de 153 milhões de doses para o Covax.

A França prometeu meio milhão de doses até meados de junho. A Bélgica, por sua vez, prometeu 100 mil de seu suprimento doméstico nas próximas semanas.

Espanha, Suécia e Emirados Árabes Unidos são alguns dos poucos outros que prometeram compartilhar seus suprimentos agora.

Há sérias preocupações de que o que aconteceu na Índia possa ocorrer também em outros países – tanto próximos quanto distantes da região.

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“Os casos estão explodindo e os sistemas de saúde estão em uma situação difícil em países como Nepal, Sri Lanka e Maldivas… e também na Argentina e no Brasil”, disse a diretora do Unicef, Henrietta Fore. “O custo para crianças e famílias será incalculável.”

Distribuição de doses da Covax no Nepal

Unicef/Panday
Distribuição de doses do Covax no Nepal

Dilema da vacina

Os países da África são alguns dos mais dependentes das doses do esquema Covax.

Mas, como em muitas partes do mundo, também tem havido hesitação em relação ao recebimento da vacina entre algumas comunidades. Outro grande desafio é colocar fisicamente as doses nos braços das pessoas – tudo isso requer que os profissionais de saúde sejam especialmente treinados e os frascos sejam transportados para partes distantes de países onde a infraestrutura pode ser limitada.

Algumas nações estão agora enfrentando a perspectiva de decidir se darão uma segunda dose aos mais vulneráveis ​​que já receberam uma vacina ou se continuarão vacinando mais pessoas conforme planejado, na esperança de que os próximos carregamentos cheguem em breve.

“Estamos em uma situação em que os profissionais de saúde e profissionais de linha de frente em muitos países da África ainda não foram vacinados”, disse Gian Gandhi. “E, ainda assim, os países de renda mais alta estão vacinando populações de baixo risco, como adolescentes.”

Nações como Ruanda, Senegal e Gana já estão usando algumas de suas últimas doses restantes, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).


Covax na África

  • Sete países da África usaram quase 100% de suas doses de Covax, como Botswana, Gana, Ruanda e Senegal
  • Quênia e Malaui usaram quase 90% de suas doses de Covax
  • Cabo Verde e Gâmbia usaram 60% das doses de Covax
  • 1,3 milhão de doses foram redistribuídas da República Democrática do Congo para outras partes da África porque o país não poderá usar todas antes de sua data de validade em junho

Fonte: OMS


“Nos sensibilizamos com a situação na Índia”, diz Richard Mihigo, que chefia o programa de vacinação e desenvolvimento de vacinas da OMS na África.

“A maioria de nossas [18 milhões] doses de Covax até agora veio da Índia.”

“Acho que é muito importante [manter] a promessa global de solidariedade dos países que têm vacinas suficientes – distribuí-las e compartilhá-las porque, a menos que interrompamos a transmissão em todos os lugares, será muito difícil acabar com esta pandemia, mesmo em lugares onde as pessoas foram totalmente vacinadas.”


O que é Covax?

  • O objetivo é distribuir dois bilhões de doses da vacina contra a covid-19 até o final de 2021
  • Nenhum país receberá vacinas para mais de 20% de sua população antes que todos os países tenham vacinado pelo menos 20% da população
  • O consórcio já despachou cerca de 60 milhões de doses para 122 participantes
  • É uma associação pública-privada entre a OMS, a Aliança de Vacinas (Gavi) e a Coalizão para as Inovações no Preparo para Epidemias (Cepi)
  • O Unicef ​​é o principal parceiro de entrega

Novos acordos com diferentes fornecedores e fabricantes de vacinas estão em andamento para tentar colocar o esquema do Covax de volta no rumo, mas nenhum desses acordos ajudará a preencher o déficit da Índia nas próximas semanas.

A única maneira de preencher o vazio para os países mais pobres agora é a doação de parte dos suprimentos pelos países mais ricos.

“Temos emitido repetidas advertências sobre os riscos de baixar a guarda e deixar países de baixa e média renda sem acesso equitativo a vacinas, testes e medicamentos”, disse Fore.

“Estamos preocupados que o aumento das mortes na Índia seja um precursor do que acontecerá se esses avisos permanecerem ignorados. Quanto mais tempo o vírus continua a se espalhar sem controle, maior o risco de surgirem variantes mais letais ou contagiosas.”


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Fonte: IG SAÚDE

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