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Covid-19: as lições que Brasil pode aprender com segunda onda de casos na Europa

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BBC News Brasil

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André Biernath – Da BBC News Brasil em São Paulo

Covid-19: as lições que Brasil pode aprender com segunda onda de casos na Europa

A primeira onda de covid-19 na Europa começou a tomar forma a partir do início de março de 2020 e atingiu seu pico durante o mês de abril. Em maio, a situação já parecia estar mais estabilizada, com uma queda importante no número de casos e mortes pela infecção provocada pelo Sars-CoV-2, o coronavírus responsável pela pandemia atual.

Mais recentemente, porém, a situação fugiu novamente do controle e o continente acumula números cada vez mais alarmantes: nos últimos 14 dias, a França, por exemplo, confirmou 421.799 novos casos e 2.193 mortes pela enfermidade. Os dados são do Centro Europeu de Controle e Prevenção de Doenças.

Na França, a taxa de acometidos e de óbitos por 100 mil habitantes no período de duas semanas chega a ser pior que das nações que lideram o ranking geral da pandemia, como Estados Unidos, Índia e Brasil.

O panorama da covid-19 também está preocupante em outros países da região, como Reino Unido, Rússia, Holanda, Espanha, Bélgica, Itália e República Tcheca.

Os únicos locais em que os números permanecem relativamente controlados até o momento são Alemanha, Grécia, Noruega e Finlândia.

O crescimento gerou uma série de reações de governos e autoridades públicas: para conter a transmissão do vírus, medidas como toques de recolher, volta das aulas à distância e fechamento de bares, restaurantes e lojas foram anunciadas por governos nos últimos dias.

Os especialistas divergem se o que a Europa está vivendo é mesmo uma segunda onda ou apenas uma continuação da primeira, uma vez que os casos e mortes diminuíram, mas nunca cessaram.

Definições à parte, quais foram os motivos por trás dessa guinada?

Retorno ao (novo) normal

“Com a chegada do verão, os abalos econômicos e a queda na transmissão do vírus entre a comunidade, houve uma enorme pressão para que as coisas voltassem a funcionar como antes por lá”, analisa o médico Airton Stein, professor titular de saúde coletiva da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

Em vários países, as aulas presenciais em escolas e universidades foram retomadas. Restaurantes e bares passaram a funcionar regularmente. Com o clima ameno, muitos europeus decidiram sair de casa e viajar.

O fato de esta segunda onda atingir principalmente os mais jovens é, inclusive, um indicativo de que a reabertura das atividades teve um papel decisivo neste processo — afinal, trata-se da faixa etária que predomina nas escolas e costuma estar em viagens ou eventos sociais com mais frequência.

Diversos jovens sentados em escadaria com roupas de frio, à noite, diante de vista da parte baixa de Paris

REUTERS/Charles Platiau
Jovens em Paris; casos nesta faixa etária indicam que reabertura das atividades teve papel decisivo na segunda onda

Evento programado?

Um novo aumento do número de casos e mortes por covid-19 era algo que os cientistas já esperavam — e que pode acontecer em boa parte do mundo se algumas medidas não forem tomadas.

O primeiro motivo para isso é o fato de que uma parcela significativa da população parece ainda não ter tido contato com o vírus. Em alguns países europeus, estima-se que a soroprevalência (a porcentagem de pessoas que apresentam anticorpos contra o Sars-CoV-2) esteja abaixo dos 15%. Na prática, isso significaria que os 85% restantes ainda estão vulneráveis à covid-19.

Vale ponderar que essa soroprevalência e o papel dela na pandemia ainda é muito incerta. Não se sabe, por exemplo, quanto tempo dura uma eventual imunidade contra a covid-19 ou se todos os acometidos geram uma resposta parecida do sistema de defesa.

Um segundo aspecto que influencia nessa questão é a sazonalidade do vírus. Ao que parece, ele sobrevive mais tempo no inverno e se aproveita do fato de as pessoas ficarem aglomeradas em locais fechados quando a temperatura despenca, o que facilita a transmissão do patógeno. O continente europeu está agora no outono e a temperatura vai cair ainda mais a partir de dezembro, com a chegada do inverno.

Outro fator que contribui bastante para a segunda onda é a maior disponibilidade de métodos de diagnóstico. “Quando a pandemia começou, os países estavam despreparados. Muitos casos estavam ocorrendo, mas eles não foram registrados por falta de estrutura. Sete meses depois e com mais testes em mãos, é possível detectar um número maior de pacientes”, explica o virologista Anderson Brito, pesquisador na Escola de Saúde Pública da Universidade Yale, nos Estados Unidos .

Um dos indicadores de que a situação estava piorando na Europa foi justamente a quantidade de testes com resultados positivos: atualmente, entre 4 e 9% dos exames feitos para a covid-19 por lá confirmam o diagnóstico (antes, esse índice ficava próximo de 1%). O número crescente ligou o sinal de alerta das autoridades sanitárias locais.

Uma boa notícia?

Mulher anda na rua usando máscara em Manchester

PA Media
Reino Unido enfrenta segunda onda de casos de covid-19 desde o fim de setembro

Se há algo de positivo a ser destacado da atual experiência europeia até o momento é o fato de a taxa de mortalidade estar mais baixa durante essa segunda onda.

Dados do Centro de Pesquisa e Auditoria em Cuidados Intensivos do Reino Unido revelam que a taxa de pacientes com covid-19 que morreram em até 28 dias após a internação caiu de 39% do início da pandemia a agosto para 27% a partir de setembro.

Mas esses achados iniciais precisam ser olhados com muita precaução. “A literatura nos mostra que o tempo entre a pessoa se infectar pelo coronavírus e precisar de internação é de uma semana. Da hospitalização até morrer, pode levar mais cinco semanas. E ainda há a demora entre o óbito e a notificação do caso para as autoridades”, pondera o médico Marcio Sommer Bittencourt, do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiologia do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo.

Portanto, se os casos de covid-19 na Europa estão começando a subir nas últimas semanas, é possível que o efeito disso sobre a mortalidade só venha a ser conhecido a partir de meados de novembro ou dezembro.

A maior disponibilidade de testes também têm influência sobre a taxa de óbitos. Um exemplo prático: no início da pandemia, havia um número muito limitado de kits para realizar a detecção da covid-19. Eles eram, portanto, destinados aos casos mais graves, com sintomas preocupantes.

Se determinada cidade lá no início da pandemia tinha 100 indivíduos infectados, os hospitais e postos de saúde só tinham capacidade para testar dez deles. Vamos supor que, desses que foram diagnosticados, dois morriam. A taxa de mortalidade ficava, então, em 20%.

Imagine que esse mesmo local agora consegue fazer um número bem maior de testes e é capaz de detectar 100 pessoas com coronavírus. Se, neste grupo, duas delas morrem, a taxa de mortalidade despenca para 2%.

Além dessas questões, vale citar ainda que a experiência acumulada dos últimos meses serviu de aprendizado para os profissionais de saúde. “Hoje sabemos melhor como manejar os casos graves e isso permite um prognóstico mais favorável”, concorda Stein, que também atua como médico de família e comunidade do Grupo Hospitalar Conceição, na capital gaúcha.

Houve também um tempo para que os hospitais se organizassem, construíssem novas estruturas e treinassem profissionais de saúde para trabalhar na terapia intensiva. Isso evita filas de espera e garante um melhor tratamento aos pacientes que precisam dos cuidados.

Dá para se preparar?

Profissional da Prefeitura desinfecta porto em Manaus

Reuters
Especialista aponta que curvas de cidades brasileiras como Manaus lembram padrão da Europa, enquanto outros municípios seguiram tendência diferente

Se compararmos as curvas da covid-19 na Europa e no Brasil, é possível reparar que estamos alguns meses atrasados nos eventos: nosso país chegou a um pico a partir de maio ou junho de 2020, quando a situação começava a ser controlada do outro lado do Atlântico.

Não é possível, porém, fazer comparações precisas entre lugares tão distintos. Cada pedaço do Brasil teve comportamentos epidêmicos próprios.

“As curvas que aconteceram em cidades como Manaus, Belém e São Luís lembram muito o que ocorreu na Europa, enquanto outros lugares do país tiveram curvas longas e achatadas ao longo de um período de tempo”, analisa Bittencourt.

Mas, guardadas as devidas particularidades, será que o Brasil tem algo a aprender com essa segunda onda na Europa para evitar ou minimizar os danos?

“O vírus depende da proximidade entre duas pessoas para continuar circulando. Portanto, as medidas de distanciamento físico, o uso de máscaras e a lavagem de mãos continuam importantíssimas”, destaca Brito.

Ao mesmo tempo, as autoridades de saúde pública precisam reforçar as medidas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conter a pandemia. Uma dessas políticas está na criação de um amplo programa de testagem. “Só assim conseguimos detectar os casos, especialmente os assintomáticos, e isolá-los pelos próximos 14 dias”, diz Stein.

Nessa mesma linha, outra ação que faz a diferença é o rastreamento de contatos. Na prática, isso significa ir atrás e informar rapidamente os indivíduos que estiveram próximos a alguém infectado pelo coronavírus de que eles também precisam fazer o teste e, se for o caso, obedecer uma quarentena.

Dificuldades pelo caminho

De acordo com os especialistas ouvidos para essa reportagem, o Brasil apresenta falhas nesse momento de preparação para conter uma eventual segunda onda da covid-19.

“Um aspecto preocupante é uma diminuição do número de testes distribuídos pelo Ministério da Saúde durante o mês de setembro”, aponta Stein.

Com a atual tendência de queda nos números de casos e mortes, esse é justamente o momento de ampliar o diagnóstico, pois fica mais fácil acompanhar o avanço do coronavírus pelo país e tomar as medidas necessárias citadas acima: isolar e rastrear possíveis contatos.

De acordo com os dados disponibilizados no site do próprio Ministério da Saúde, até o momento, o Brasil realizou 15,5 milhões testes para detectar a covid-19. Desses, apenas 7,5 milhões eram exames de PCR, que detectam o vírus ativo, com capacidade de ser transmitido para outros indivíduos.

Os 8 milhões restantes, que representam mais da metade do total informado pela pasta, são os testes rápidos. Eles apenas constatam se a pessoa já teve contato com o Sars-CoV-2 no passado, mas não têm o poder de avaliar se o coronavírus está circulando naquele momento pelo organismo.

Com apenas a informação do teste rápido, de nada adianta fazer o isolamento ou o rastreamento de contatos: como a doença possivelmente já passou (muitas vezes sem dar sinal algum), o paciente pode ter transmitido o vírus para muitas pessoas com quem interagiu.

O Brasil ainda tem um tempo para fazer a lição de casa e estar mais preparado para uma eventual segunda onda. Se esse fenômeno vai se concretizar, isso se relaciona a uma série de variáveis.

“Não é possível ter certeza, pois isso depende de coisas que a gente não sabe e também de intervenções que podemos colocar em prática. A gente vai se preparar? Ou vai deixar rolar? Qual vai ser o status de desenvolvimento de remédios ou vacinas daqui a alguns meses? Não sabemos tudo o que vai acontecer, mas podemos tomar as decisões adequadas para este momento”, analisa Bittencourt.


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Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Rio volta a ter fila por leitos de UTI para Covid-19 pela 1ª vez desde junho

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Paciente em leito hospitalar
Agência Brasil

Aumentos de internações em São Paulo e Rio de Janeiro apontam indícios de uma segunda onda da Covid-19

Pela primeira vez desde junho a rede SUS da cidade do Rio de Janeiro possui mais pessoas na fila por uma vaga de UTI para Covid-19 do que leitos disponíveis. Nesta terça-feira, segundo a secretaria municipal de Saúde, há 513 pacientes internados em leitos de terapia intensiva na rede pública da capital — que inclui leitos de unidades municipais, estaduais e federais, atingindo uma ocupação de 93%. Há, no entanto, 73 pessoas aguardando transferência para algumas das 39 vagas restantes.

Apesar de divulgar a taxa de ocupação e o número de pacientes internados na rede SUS o município não informou a quantidade de leitos totais de UTI, sugerindo procurar o governo do estado e o Ministério da Saúde sobre a quantidade de vagas que cada ente administra na capital

Ainda segundo a secretaria municipal de Saúde, a taxa de ocupação nos leitos SUS de enfermaria é de 70%. Já nas unidades geridas pela prefeitura, a ocupação na terapia intensiva é de 97% das 271 UTIs.

Pela quinta semana consecutiva, o estado apresentou uma alta no pedido de internações para pacientes com Covid-19. Um levantamento do jornal O Globo com dados da Secretaria estadual de Saúde mostra que, na última semana epidemiológica — entre os dias 15 e 21 de novembro — , as unidades de toda a rede SUS do Rio pediram vagas para 1.044 pessoas com suspeita ou caso confirmado de coronavírus.

A procura por leito na rede saltou 93% em quatro semanas: entre 18 e 24 de outubro, tinham sido requisitadas 540 vagas. O quadro constatado pelo jornal foi o que levou as autoridades federais, estaduais e municipais a deflagrarem nesta segunda-feira um plano de ação rápida, em que suspendem cirurgias eletivas — desde que não sejam oncológicas ou bariátricas, entre outras — e ofertam mais 214 vagas para pacientes com a doença.

RJ tem 8º dia de aumento na média móvel de casos e mortes

Estado do Rio registrou 113 mortes e 2.145 novos casos do novo coronavírus nesta terça-feira, de acordo com a última atualização feita pelo governo estadual. Com isso, a média móvel chega ao oitavo dia em alta, com tendência de aumento no contágio da doença.

O crescimento de 216% na média móvel de óbitos, na comparação com duas semanas atrás, é o maior índice desde o dia 20 de abril, auge da pandemia. Ao todo, são 340.833 infectados e 22.141 vidas perdidas em todo o território fluminense desde o início da pandemia, em março.

Nesta terça, a capital concentrou 75% das mortes (85) registradas e 45% dos casos (961). Ao todo, a cidade do Rio soma 132.349 infectados e 13.064 vítimas da doença desde março.

Com os dados atualizados, a média móvel passa a ser de 95 mortes e 1.537 casos. Em comparação com duas semanas atrás, há uma subida de 43% na média móvel de casos e de 216% na média móvel de mortes, o que, por estar bem acima de 15%, indica um cenário de aumento no contágio da doença, pelo oitavo dia seguido.

Nos dias 6, 8, 9 e 10 de novembro não houve atualização no número de mortes, de acordo com o governo, em função de um problema no sistema do Ministério da Saúde, já solucionado. Este fato ainda pode influenciar no cálculo da média móvel durante alguns dias. No entanto, mesmo que os números tivessem sido preenchidos naquelas datas, seguindo a tendência diária daquele momento, ainda assim, seria observado um aumento.

A análise dos dados foi feita a partir do levantamento do consórcio de veículos de imprensa, que reúne informações das secretarias estaduais de Saúde.

Anúncio de testagem em massa

O governador em exercício do Rio de Janeiro, Claudio Castro, anunciou nesta terça-feira (24) a testagem em massa entre as ações de combate à Covid-19 no estado.

Segundo Castro, o governo estadual pretende divulgar nos próximos dias onde vão funcionar os postos de diagnóstico precoce, que vão contar com exames de imagem e os testes RT-PCR.

O governador em exercício também confirmou que vai se reunir com as prefeituras da Região Metropolitana para aumentar o número de vagas oferecidas nos hospitais.

Entre as justificativas para o aumento dos indicadores da doença no Rio, na última semana, Castro considerou que a realização do primeiro turno das eleições municipais, no último dia 15, pode ter influenciado na disseminação do novo coronavírus.

Fonte: IG SAÚDE

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