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Consórcio agroflorestal aumenta opções de renda em comunidades extrativistas

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  • Culturas agrícolas associadas a espécies florestais trazem mais renda aos produtores e promovem a conservação da floresta no estado.

  • Técnica melhorou renda de famílias que viviam exclusivamente do extrativismo.

  • Estratégia auxilia, especialmente, na entressafra da castanha-do-brasil, principal produto das comunidades extrativistas da região.

  • Arranjos permitem duas safras de grãos e a colheita programada de frutas, com retorno econômico no curto prazo.

  • Os ganhos com a produção nos primeiros anos amortizam os custos de implantação do sistema.

  • Agricultor obteve produtividades de milho e feijão superiores à média registrada no estado, e propriedade se tornou mais produtiva sem abrir áreas de floresta.

Resultados de pesquisas da Embrapa Acre comprovam que o plantio de culturas agrícolas associado a espécies florestais permite aliar produção à conservação da floresta. Produtores rurais da Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, localizada no Acre, adotaram diferentes consórcios agroflorestais para tornar as propriedades mais produtivas. A diversificação da produção tem possibilitado maior oferta de alimento e renda para famílias que antes viviam somente do extrativismo de produtos da floresta, como a castanha-do-brasil, além de gerar ganhos ambientais.

Segundo o pesquisador da Embrapa Tadário Kamel, os arranjos avaliados permitem duas safras de grãos nos anos iniciais e a colheita programada de frutas, com retorno econômico em curto prazo e ganhos que  amortizam os custos de implantação do sistema. “Os sistemas agroflorestais (SAFs) são uma alternativa de produção sustentável para a Amazônia e outros biomas brasileiros. A tecnologia possibilita intensificar as atividades produtivas, sem uso do fogo, otimiza a ocupação do espaço físico da propriedade e contribui para o aproveitamento de áreas degradadas, entre outros aspectos que agregam benefícios às famílias rurais e ao meio ambiente”, explica.

Os SAFs são uma estratégia de produção baseada em princípios ecológicos e econômicos que permite reunir espécies distintas em uma mesma área e, desse modo, proporciona produção duradoura e melhora o uso da terra. A Embrapa investe em pesquisas sobre a eficácia desses sistemas nas diferentes regiões brasileiras. As modalidades estudadas consideram aspectos como as características das espécies, demandas do setor produtivo, especificidades do processo de implantação e condução das diferentes etapas, além da realidade do produtor rural.

No Acre, os arranjos combinam o plantio de espécies florestais típicas da Amazônia, frutíferas e culturas agrícolas de ciclo curto. Desenvolvidos em parceria com extrativistas, os estudos buscam recomendar modelos capazes de incrementar a produção e ampliar as alternativas de renda das famílias, especialmente na entressafra da castanha-do-brasil, carro-chefe da produção nas comunidades extrativistas. Por ser uma atividade sazonal, a coleta do produto se concentra no período de dezembro a março, fator que dificulta a geração de renda nos demais meses do ano.

Fase agrícola

Os estudos com SAFs em comunidades extrativistas iniciaram em 2012, com o projeto Sistemas Agroflorestais para Produção e Recuperação Ambiental na Amazônia (Saram) e a partir de 2016 passaram a receber apoio de outras iniciativas de pesquisa da Embrapa, incluindo o projeto Bem Diverso, desenvolvido em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF).

O extrativista João Evangelista, morador do seringal Porvir, comunidade localizada em Epitaciolândia, um dos cinco municípios que compõem a Resex Chico Mendes, se desfez de uma pastagem de dois hectares para aderir à produção agroflorestal. Com os pesquisadores, definiu uma combinação que alterna produção agrícola e extrativista, em diferentes momentos. Os resultados da fase agrícola agradaram tanto que o produtor dobrou o tamanho da área destinada ao sistema.

Ele conta que a lavoura de milho produziu 4,2 toneladas por hectare, o dobro da produtividade no Acre, de 2,4 toneladas por hectare na época da pesquisa. O feijão rendeu 645 quilos por hectare, resultado também superior à média do estado, de 550 quilos por hectare. Além disso, colheu cerca de mil cachos de banana por ano. Essa produção inicial gerou uma renda familiar média de R$ 4,3 mil reais por hectare/ano. “Atualmente contamos com a produção de banana e citros e já estamos planejando a primeira colheita comercial de açaí e látex de seringueira. Minha propriedade se tornou mais produtiva, sem precisar abrir novas áreas de floresta”, comemora.

A experiência despertou o interesse de outros moradores da comunidade pela tecnologia. Na propriedade de Severino da Silva Brito, o SAF de um hectare, implantado há seis anos, associa o cultivo de castanheiras e seringueiras com diferentes frutíferas. “Com as culturas da banana, cupuaçu e graviola o retorno econômico é mais imediato. Já as espécies extrativistas produzem em médio prazo e por longo tempo. Quero fortalecer a produção de castanha e látex de seringueira e, no futuro, meus filhos e netos poderão coletar esses produtos bem perto de casa”, ressalta.

Composição dos arranjos

Kamel explica que por combinar espécies florestais e diferentes culturas em uma mesma área, os sistemas agroflorestais permitem intensificar a produção e melhoram o uso da terra. Entretanto, a atividade precisa ser planejada e a definição dos arranjos deve considerar os objetivos do produtor rural – seja com foco na produção de alimentos para consumo da família ou para fins de comercialização. A escolha adequada das espécies confere diversidade à produção e permite uma produção escalonada.

“Dependendo da composição dos arranjos, é possível produzir e gerar renda no curto, médio e longo prazos. No contexto da agricultura familiar, a principal estratégia de implantação de SAF prioriza culturas agrícolas de ciclo curto nos primeiros anos e, posteriormente, o cultivo de espécies frutíferas nas entrelinhas das espécies florestais. Já o componente florestal pode garantir renda no futuro, com a oferta de madeira ou produtos não-madeireiros como óleos e sementes”, destaca o pesquisador.

Ainda de acordo com os estudos, além da oferta de produtos com valor comercial, a presença de árvores na produção agroflorestal representa uma estratégia eficiente para valorizar particularidades regionais e conservar os recursos naturais. Cada espécie desempenha uma função no sistema e, em conjunto, oferecem uma série de vantagens econômicas, sociais, culturais e ambientais no processo produtivo.

Custo do sistema

Segundo avaliações econômicas, o custo para implantação de um hectare de SAF no Acre foi estimado em R$8 mil. O valor pode variar, de acordo com o modelo adotado e com a região, em função da necessidade de serviços e insumos e dos preços praticados nos diferentes estados.

O pesquisador Claudenor Sá, que também participou dos estudos, explica que o cálculo da viabilidade econômica de um sistema agroflorestal envolve, além da renda líquida da produção, gastos com insumos e investimento para adequação estrutural da propriedade, entre outros custos relacionados.

“Quando bem planejada, a produção agroflorestal é rentável e o investimento se paga nos primeiros quatro anos, com a renda da safra agrícola. Um dos principais aspectos a considerar é a necessidade de mão de obra na condução do sistema. Cerca de 63% da renda anual obtida corresponde ao custo da mão de obra familiar empregada. Independentemente do modelo de arranjo adotado, é essencial avaliar bem essa demanda para reduzir riscos na atividade”, orienta.

Os conhecimentos técnicos sobre o desempenho e retorno financeiro de sistemas agroflorestais (leia publicação a respeito) visam orientar a tomada de decisão do produtor rural na adoção da tecnologia. Essas informações também podem subsidiar a elaboração de projetos, por instituições de apoio e fomento à produção familiar, com o objetivo de ampliar o uso de SAFs no Acre e outros estados amazônicos.

Restauração florestal

A Assembleia Geral das Nações Unidas declarou a Década da ONU sobre Restauração de Ecossistemas de 2021 a 2030. A iniciativa é um chamado global à proteção e revitalização dos ecossistemas em todo o planeta e reforça a existência de R$ 2 bilhões de hectares de áreas degradadas com possibilidade de restauração no mundo. A meta inicial é restaurar 350 milhões de hectares degradados, até 2030, e os SAFs estão entre as estratégias com potencial para revitalização dos ecossistemas em diferentes biomas.

Relatório Anual da Aliança pela Restauração na Amazônia, espécie de pacto coletivo pela conservação da floresta, apontou a existência de cerca de 2.773 iniciativas de restauração florestal na região, em 2020. Realizadas predominantemente em áreas com menos de 5 hectares, por instituições de pesquisa, incluindo a Embrapa, empresas do setor produtivo, organizações da sociedade civil e organismos internacionais, as ações contemplam um total de 113,5 mil hectares. Os sistemas agroflorestais respondem por 59% das ações.

Conforme Kamel, além de gerar renda, a produção agroflorestal tem sido uma alternativa para recompor a floresta em áreas alteradas, como forma de adequar ambientalmente propriedades rurais familiares, em atendimento a exigências legais. O Código Florestal Brasileiro prevê o uso desses sistemas para essa finalidade. Em reservas extrativistas, assim como em outras áreas da Amazônia, muitas propriedades rurais precisam sanar seus passivos ambientais resultantes da expansão da atividade agrícola, e principalmente, pecuária.

“A dinâmica de desenvolvimento das árvores em arranjos florestais se assemelha ao que acontece em uma floresta nativa. Isso favorece o uso de modelos variados de SAFs na restauração de áreas rurais, tanto na Amazônia como em outros biomas brasileiros, em pequena ou grande escala. Nesse processo, é importante considerar particularidades regionais e as exigências requeridas em cada modalidade de sistema agroflorestal”, enfatiza o pesquisador.

Menos carbono na atmosfera

De acordo com o pesquisador da Embrapa Eufran Amaral, em áreas com sistemas agroflorestais, a diversidade de espécies com variados estratos florestais e sistemas radiculares promove o aumento gradativo da biomassa florestal e da matéria orgânica. Além de proteger o solo e melhorar a biodiversidade local, esse processo natural ajuda na regulação climática e conservação dos recursos hídricos, fatores que favorecem a ampliação dos estoques de carbono (CO2) nesses locais e indicam que os SAFs podem viabilizar a prestação de serviços ambientais em comunidades rurais da Amazônia.

No Projeto Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado (Reca), localizado na divisa de Rondônia e Acre, os benefícios ambientais da produção agroflorestal têm se convertido em renda para 109 famílias. A experiência pioneira da comunidade, que se tornou referência em SAFs na Amazônia e também conta com pesquisas desenvolvidas em parceria com a Embrapa, inspirou ações do terceiro setor voltadas para a redução das emissões de carbono, como o Projeto de Carbono, executado pela empresa de cosméticos Natura e o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável (Idesam). A iniciativa remunera o desmatamento evitado em mil hectares de SAFs implantados há dez anos e 5 mil hectares de floresta nativa.

Entre as etapas do trabalho estão o cálculo das taxas de desmatamento, estruturação de cenários de referência e reconhecimento do protagonismo dos produtores para manter a floresta em pé por meio de práticas produtivas sustentáveis. “Cada família recebe pelos créditos de carbono gerados, de acordo com a avaliação da performance da sua propriedade. Ao mesmo tempo que melhora a renda familiar, a parceria fortalece a proposta do Reca de produzir de forma sustentável, por conciliar ganhos econômicos e ambientais. Nossa meta é zerar o desmatamento nas áreas do projeto, mas iniciativas dessa natureza devem ser ampliadas para outras comunidades”, ressalta o agricultor Sérgio Lopes, um dos parceiros do projeto.

Os sistemas agroflorestais integram o rol de tecnologias capazes de minimizar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e de ajudar o Brasil em ações para cumprimento de metas voluntárias para mitigar os efeitos das mudanças climáticas no planeta, assumidas no Acordo de Paris, durante a edição 2021 da Conferência do Clima (COP26), realizada na Escócia. “Entretanto, é necessário investir em políticas públicas específicas para aumentar o uso desses sistemas produtivos, como alternativa para fortalecer a agricultura de baixo carbono no País”, acrescenta Amaral.

Fonte: Embrapa

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Congresso abordará o uso de forrageiras para melhoria de sistemas produtivos de grãos

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O uso de consórcios de plantas forrageiras como forma de melhorar a eficiência dos sistemas produtivos de grãos será tema de uma das palestras do XXXIII Congresso Nacional de Milho e Sorgo, que será realizado de 12 a 15 de setembro em Sete Lagoas (MG). O evento ocorrerá de forma híbrida, sendo presencial para convidados e on-line para os inscritos.

Apresentada pelo pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril Flávio Wruck, a palestra mostrará resultados de pesquisas com consórcios de segunda safra testados em Mato Grosso. Entre os destaques estão benefícios como a maior ciclagem de nutrientes, acúmulo de matéria orgânica e redução da compactação do solo.

De acordo com o pesquisador, para um bom plantio direto na palha são necessárias ao menos cinco toneladas de matéria seca por hectare. As pesquisas conduzidas pelas equipes da Embrapa e da Universidade Federal de Mato Grosso – campus Sinop – mostraram acúmulos superiores a 14 toneladas de matéria seca por hectare em consórcios de braquiária Paiaguás com nabo forrageiro ou em consórcios múltiplos, com até seis espécies.

Outro benefício dos consórcios está no estoque de carbono orgânico no solo. Resultados que serão apresentados indicam acúmulo de até 600 kg/ha com uso de consórcios, enquanto na testemunha com sucessão soja-algodão foi registrada uma perda de 600kg/ha.

Os resultados que serão apresentados indicarão também os benefícios da ciclagem de nutrientes, chegando a 340kg/ha de potássio disponível na palhada de consórcio com nabo forrageiro e acima de 150kg/ha de nitrogênio na palhada do consórcio de braquiária com crotalária e no sêxtuplo.

Entre os consórcios usados e que serão detalhados na palestra estão alternativas já lançadas, como o Sistema Gravataí, que consorcia braquiária com feijão-caupi, e opções em fase final de validação. Entre os exemplos estão os consórcios de capim como crotalárias, nabo forrageiro, trigo mourisco, níger ou feijão-guandu e ainda consórcios múltiplos com até seis dessas espécies juntas.

A palestra “Potencialidades e uso das forrageiras como alternativas para melhoria da eficiência dos sistemas de produção de grãos” será realizada no dia 15 de setembro, no Painel IX, sobre intensificação agropecuária sustentável. Moderado por Claudinei Kappes, da NemaBio, o Painel contará ainda com palestras sobre o Sistema Antecipe, com o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Décio Karam, e sobre sistemas alternativos de consórcios para melhoria da eficiência dos cultivos para usinas flex, apresentada pelo pesquisador da Embrapa Cerrados Kleberson de Souza.

Inscrições

As inscrições para o XXXIII Congresso Nacional de Milho e Sorgo podem ser feitas no site do evento no endereço www.abms.org.br/cnms/ até o dia 10 de setembro. O valor varia de R$ 100 para estudantes de graduação à R$ 280 para profissionais não associados à Associação Brasileira de Milho e Sorgo.

O Congresso Nacional de Milho e Sorgo é um evento técnico-científico, realizado a cada dois anos pela Associação Brasileira de Milho e Sorgo (ABMS). Nesta edição, a organizadora é a Embrapa Milho e Sorgo, com o tema “Brasil: 200 anos de independência – Sustentabilidade e desafios para a cadeia produtiva de grãos”.

Fonte: Embrapa

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