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Carmen Costa a Ludmilla: espetáculo homenageia cantoras negras do país

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Bernardo Cartolano

“Vozes Negras – A Força do Canto Feminino” homenageia 13 cantoras negras que fizeram história na história da música do país

Cobrir um século da presença das mulheres negras na música brasileira não é uma tarefa fácil. Ao longo desse período, muitas se destacaram e ficaram marcadas para sempre na cultura do país – cada uma em seu período histórico e dentro de um gênero musical diferente. Agora, 13 dessas artistas serão homenageadas em seis espetáculos antológicos em “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino”, que estreia nesta quinta-feira (30) no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

A vida e obra de Elza Soares, Alcione, Alaíde Costa, Ludmilla, Margareth Menezes, Iza, Sandra de Sá, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Dolores Duran, Carmen Costa, Elizeth Cardoso e Tati Quebra Barraco serão encenadas e debatidas no palco. Cada espetáculo esmiúça a vida de duas artistas (exceto no espetáculo seis, que homenageia três delas), que são separados por contexto histórico-cultural em que cada uma esteve imersa. Os episódios tem apresentação da artista Veronia Bonfim.

A divisão dos seis espetáculos é feita da seguinte forma: a era de ouro do rádio; samba, terreiro e ancestralidade; samba-canção e bossa-nova; do samba ao jazz; do soul ao afropop; e novas gerações. Cada um conta com participações especiais de cantoras (das homenageadas, Alaíde Costa, Sandra de Sá e Margareth Menezes participam) e intelectuais que participam de debates com o público na metade das apresentações.

Ao iG Delas, Menezes afirma que foi impactada pelo resultado, uma sensação que foi além da reverência que recebeu. “Assistir a essa maravilhosa homenagem feita a mim e à gigante Sandra de Sá me deixou muito feliz e emocionada”, afirma a cantora, que é homenageada ao lado de Sá no quinto espetáculo, que retrata o soul e o afropop.

Histórias de pioneirismo

O idealizador, diretor e um dos dramaturgos do projeto, Gustavo Gasparini afirma que teve a ideia de criar o espetáculo como forma de discutir a mulher negra na sociedade a partir das histórias das cantoras pretas brasileiras. A dramaturgia também é assinada pelo jornalista e realizador cultural Rodrigo França.

“Essas mulheres negras tiveram uma relevância além do talento musical e artístico de cada uma”, explica Deborah Medeiros, que assina a supervisão de representações raciais e de gênero da peça. “Elas estavam em uma posição em que não eram esperadas e só foram admitidas nesses espaços porque também existia uma excepcionalidade e conjunções históricas que tornaram possível a carreira delas”.

“Vozes Negras” busca não apenas celebrar as artistas, mas também evidenciar a trajetória pessoal de cada uma e debater sobre racismo, africanidade, feminismo negro, ancestralidade e a influência dessas estrelas dentro dos movimentos negros e na constituição da educação antirracista. Para os autores e a consultora, é também uma ferramenta política e de diálogo sobre raça.

Medeiros contextualiza que as artistas negras tinham competência, mas tinham investimentos, acessos e pagamentos diferenciados – algo que, ela afirma, pouco mudou com o passar dos anos.

“Você não tem a mesma disponibilidade das instituições e patrocínio para as artistas negras no campo da música baiana, por exemplo, como Margareth Menezes. O que difere é que hoje, dado à pressão e organização de movimentos negros em todos os campos, há uma pressão para que essas pessoas fiquem mais visíveis”, aponta

Como destaque do racismo nessas trajetórias, Gasparini cita como exemplo Alaíde Costa e Dolores Duran, homenageadas da bossa-nova, considerado um movimento cultural elitista. “O racismo que elas sofreram foi muito mais violento. No caso de Dona Ivone Lara e Clementina de Jesus, que se situam no terreiro, o racismo é menos forte porque estavam em um ambiente negro do samba; mas tem o sexismo: as famílias não curtiam que elas cantassem samba para os outros, só no seio familiar”, explica.

O diretor também destaca Elza Soares e Alcione, que são homenageadas no espetáculo sobre samba e jazz: “São histórias de mulheres poderosas, mas diferentes. Alcione talvez seja a cantora negra mais empoderada da história da música brasileira. Ela tinha uma estrutura familiar muito forte que dava segurança a ela. Elza conquistou milhões de coisas e perdeu na montanha-russa com o Garrincha. A família dela era mais disfuncional, digamos assim. Mas as duas são gigantes. É interessante ver a história delas caminhando juntas”.

França destaca Carmen Costa e Elizeth Cardoso, as damas negras da era de ouro do rádio. “Elas mexem muito comigo porque nunca negaram sua negritude em uma época que, por conta da estrutura da sociedade e da indústria, tiveram que embranquecer sua estética. Ainda temos resquícios dessa estrutura”, aponta.

“Dona Ivone Lara foi referência. Minha mãe e meu pai colocavam para a gente ouvir na vitrola de domingo. Também não dá para negar a contribuição de Margareth Menezes, essa orixá viva”, acrescenta o dramaturgo.

O reconhecimento do pioneirismo dessas mulheres também é presente. Por exemplo: Dolores Duran é considerada até hoje a mulher mais gravada da história da música brasileira, mesmo 60 anos depois da morte dela. está sempre presente. “Dolores foi a mulher que começou a compor. Tinha existido Chiquinha Gonzaga, Carmen Costa escreveu uma ou outra, mas Dolores se tornou a grande compositora”, aponta Gasparini.

França acrescenta que os espetáculos são uma oportunidade de potencializar a importância das mulheres representadas em cena. “Infelizmente, a cultura negra brasileira é invisibilizada, apagada e muitas vezes embranquecida ou que nunca tiveram seu contexto racial dito. Só é possível avançar tendo consciência das nossas raízes, que é algo relacionado às filosofias africanas”, aponta o dramaturgo. “Não dá para avançar sem se dar conta dos legados de nossas ancestrais do passado, presente e futuro”.

Para dar força a essas histórias, foi importante para os dramaturgos escolher apresentar mulheres que não são tão conhecidas pelo grande público. Gasparini aponta que cada cantora viveu momentos muito diferentes. Foi o que o motivou a chegar na organização da série e, ao mesmo tempo, reverenciar os feitos de cada uma. “Falar delas é fazer justiça num país que não tem memória”.

A atriz Vanessa Brown, que compõe o elenco da peça interpretando Sandra de Sá, afirma que é uma representação a todas as mulheres negras do país que, muitas vezes, não têm espaço para falar ou ser escutadas. “É uma honra poder participar falando dessas mulheres negras e representando com mulheres negras incríveis em cena”, aponta.

Discussão política

Em “Vozes Negras”, os debates não acontecem depois que o espetáculo acaba, mas mais especificamente no terço final das peças, de acordo com Medeiros. Gasparini se inspirou livremente no Teatro Fórum, uma modalidade elaborada pelo diretor brasileiro Augusto Boal. A contribuição mais reconhecida dele é a criação da metodologia do teatro do oprimido, que une a linguagem do teatro com ação social.

“Queria que o espetáculo fosse além do entretenimento”, explica o diretor. “Então, há uma conversa com a plateia para discutir sobre o que ela acabou de ver com uma debatedora. Se pensa sobre o legado dessas mulheres, como elas ajudaram a sociedade a caminhar, o que ainda está em falta, se as problemáticas delas ainda estão presentes ou se foram superadas”.

Djamila Ribeiro, Erica Malunguinho, Nina Silva, Erika Hilton, Patrícia Santos e Preta Ferreira são algumas das mulheres que atuarão como debatedoras com o público. “As vozes nesse momento passam a ser de uma mulher contemporânea intelectual e da plateia”, pontua Gasparini.

Medeiros complementa que há uma força ainda maior quando esse contato é feito por meio de mulheres negras. “A gente não quer falar de racismo e não quer marcar as identidades raciais. Quando o espetáculo convida mulheres negras com narrativas interessantes e dá o microfone para elas, é algo de uma potência incrível. O Brasil não está acostumado a ouvir mulheres negras nessa localização, muito menos fora”.

França acrescenta que essa interação é uma oportunidade de fazer ecoar vozes não apenas sobre os envolvidos na produção do espetáculo, mas de espectadoras e espectadores negros que têm suas vozes silenciadas devido às estruturas e questões históricas brasileiras.

O realizador cultural acrescenta ainda a influência do teatro negro do Rio de Janeiro em todo processo: “Para fazermos uma análise plena do que a sociedade é, é preciso racializar. Por mais que seja um teatro musical, ao qual muitas pessoas enxergam como entretenimento sem obrigação de provocar reflexão, esse projeto reflete sobre o papel das pessoas negras e das pessoas não negras dentro da sociedade”, começa.

“É impossível fazer qualquer análise da sociedade brasileira que não passe pela racialização, seja teatro, cultura, economia, riqueza, cinema… Se queremos discutir de uma maneira plena e responsável, é preciso racializar. É um espetáculo que, ao mesmo tempo, conta histórias de personagens e a nossa própria história”, finaliza.

Para Medeiros, existe um poder político fundamental na estrutura do teatro crítico, presente na discussão de ideias entre público e artistas, em conseguir fazer com que as informações alcancem um grande número de pessoas. Com isso, a consultora afirma que o que foi discutido é capaz de causar impacto e reflexão, mas também mudanças no entorno de quem estiver presente enquanto público.

“Falar sobre raça ainda causa impacto porque trazemos para a discussão pautas que estão muito soltas e desarrumadas. Quem sabe provocando discussões, aquela pessoa saia dali e não fique só nos aplausos, emoção ou no desfrute no espetáculo. Quem sabe possa ser transformador para que possam adotar práticas antirracistas de fato”, afirma Medeiros.

Os capítulos de “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino” são apresentados de quinta a sábado até 7 de agosto, com ingressos entre R$ 25 e R$ 150 . Todos os domingos, há transmissão pelo Teatro Sérgio Cardoso Digital, que pode ser assistida pelo site ou aplicativo do #CulturaemCasa.

Fonte: IG Mulher

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Agosto lilás: Violência patrimonial restringe independência feminina

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No Brasil, milhões de mulheres sofrem com a violência patrimonial todos os dias
Foto: Unsplash

No Brasil, milhões de mulheres sofrem com a violência patrimonial todos os dias

Em celebração aos 16 anos da Lei Maria da Penha, o mês de agosto é conhecido como o mês da luta contra a violência doméstica. A lei, que foi criada em 7 de agosto de 2006, estabelece 46 artigos que buscam proteger a integridade física e psicológica da mulher. 

Entre as formas de violência doméstica descritas na legislação federal, uma das menos conhecidas e debatidas pelos brasileiros é a violência patrimonial.

O artigo 7 da Lei Maria da Penha define a violência patrimonial como “qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades”.

Na maioria dos casos, as vítimas são mulheres que não têm fonte fixa de renda e dependem de parceiros para sobreviver. “Diversos motivos podem prender uma mulher nessa armadilha, como a dependência financeira e o medo de prejudicar os filhos. Porém, a questão emocional tende a pesar mais’’, afirma Lana Castelões, advogada de família da Albuquerque Advogados.

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De acordo com a especialista, esse tipo de violência ainda é pouco denunciada no país. “A violência patrimonial é comum, porém subnotificada, tendo em vista que, na maioria dos casos, as vítimas desconhecem a possibilidade de registrar a ocorrência’’.

Brasil não tem dados formados sobre violência patrimonial
Foto: Freepik

Brasil não tem dados formados sobre violência patrimonial

Para a advogada, as vítimas não têm conhecimento das medidas legais que podem guiar a situação. Desde 2015, a falta de pagamento de pensão também se enquadra na lei. “Muitas pessoas não sabem que esse crime se encaixa quando um responsável legal, que tem recursos financeiros, deixar de pagar pensão alimentícia para a mulher’’.

Desigualdade

A desigualdade de gênero é um fator predominante nesse crime. As demandas de casa e o cuidado com os filhos geralmente restringem as mulheres na posição de ‘dona de casa’. Sem a chance de trabalharem ou conquistarem a independência financeira, essas vítimas passam a depender financeiramente e emocionalmente dos parceiros.

A pesquisadora Clara Fagundes reflete que, nos últimos anos, as mulheres ganharam mais espaço no mercado, mas ainda não existe liberdade para o gênero. ‘’Mulheres ainda são impedidas de buscar a independência financeira, seja por regras religiosas ou políticas que prejudicam a ascensão materna no mercado, seja por relações familiares abusivas ou crenças machistas’’.

A profissional afirma que a falta de representatividade, a dissociação do feminino à ideia de liderança, a priorização do amor romântico, a sobrecarga feminina com os trabalhos domésticos e a ideia sexista de que existem trabalhos de homem e de mulher são os principais fatores que afastam as mulheres dessa liberdade.

Mulheres não conseguem se libertar da violência patriarcal por diversos fatores
Foto: Fundação CEPERJ

Mulheres não conseguem se libertar da violência patriarcal por diversos fatores

“A cultura patriarcal também impacta as mulheres de forma individual. A falta de confiança é um obstáculo para muitas na busca pela sua independência. Esse fenômeno pode ser chamado de “síndrome da impostora” e leva mulheres a questionarem sua capacidade todos os dias, em casa ou no trabalho’’.

Para Fagundes, a falta de oportunidades no mercado pressiona mulheres a continuarem em relações abusivas e degradantes. “Mulheres com poder de decisão sobre a própria vida costumam ser também independentes financeiramente’’, declara.


Por mais que não existam dados nacionais sobre a violência patrimonial, o Dossiê da Mulher, produzido no Rio de Janeiro, conseguiu datificar as problemáticas em torno desse crime. De acordo com a análise, que é realizada anualmente no estado carioca, 79,3% dos casos dessa violência foram praticados dentro de casa.

Furto de documentos é uma forma de violência patrimonial que tenta apagar a liberdade e identidade de mulheres
Foto: André Leonardo

Furto de documentos é uma forma de violência patrimonial que tenta apagar a liberdade e identidade de mulheres

Entre os tipos de crime, 50,4% foram de dano, 41,8% foram violação de domicílio e 8,8% foram de roubo de documentos.

Uma das mulheres que tiveram de lidar com a violência patrimonial foi a vendedora C.I*. O crime aconteceu sem que ela percebesse: ‘’Eu tinha um relacionamento há 6 anos e era casada há 3 anos. Um dia, eu saí para trabalhar e, quando retornei, ele tinha vendido todas as minhas coisas’’, diz. “Ele sumiu com tudo, só estavam minhas roupas por lá’’.

O parceiro, na época, chegou a deixar os filhos de C.I* passarem fome. Depois dessa situação, ela percebeu que precisava terminar a relação. ‘’Foi aí que eu dei um basta em tudo’’.

Para a matriarca, é necessário muita força e coragem para conseguir ser independente. ‘’Seja forte e corajosa para dar um basta. Pode parecer o fim, pode parecer que nada mais tem faz sentido e que a dor nunca vai passar. Com o tempo, eu juro que a dor vai embora’’, finaliza.

Fonte: IG Mulher

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