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Bertold Brecht, a democracia e a extrema direita

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Por Juracy da Silva

Sempre é bom a gente tentar entender a realidade atual que nos cerca, sem perder de vista a caminhada da história, os acontecimentos que marcaram a vida de países e de gerações, o surgimento dos conflitos, das guerras e as razões que levam alguns grupos que tentaram impor suas crenças, suas ideologias e suas visões de mundo, utilizando-se da violência institucionalizada, inclusive das armas para dizimar populações inteiras.

Costuma-se dizer que a Guerra é a demonstração cabal da intolerância, do ódio, enfim, da bestialidade humana. Campos de concentração, massacres de populações civis, tortura, uso de armas de destruição em massa, fornos crematórios, fuzilamentos e outras formas cruéis de tratar “inimigos”, até mesmo compatriotas atestam muito bem os horrores das guerras, inclusive das guerras civis, apesar de que alguns teóricos imaginam que “a Guerra é a politica por outros meios”, pois tudo gira em torno do poder e também das ambições desmedidas.

Como a omissão, a passividade, a alienação e a conivência acabam gerando as catástrofes, como foi com o avanço do nazi-facismo na Europa de antes da Segunda Guerra Mundial e em boa parte o que está acontecendo nos dias de hoje nos EUA, em vários países europeus e diversas outros, inclusive no Brasil,  com o avanço dos extremistas de direita, da violência institucionalizada e as ameaças `a democracia e ao Estado de direito.

O texto de Bertold Brecht continua muito mais atual do que estamos imaginando, basta pararmos um pouco para observarmos a violência institucionalizada e o poder do crime organizado, das milícias, enfim, de um verdadeiro estado paralelo, contra a população excluída e marginalizada, os negros, as minorias, as mulheres, as pessoas deficientes, onde o racismo, o machismo, a homofobia, o feminicídio, a disseminação dos discursos de ódio e de intolerância estão cada vez mais presentes em nossa sociedade, principalmente nas chamadas “redes sociais’.

A invasão recente do Congresso Americano, por uma grande massa de extremistas de direita, estimulados pelo então Presidente Trump, que tentavam impedir que em Sessão Constitucional os Congressistas americanos homologassem a vitória do Presidente Eleito Joe Biden e que acabou deixando 5 pessoas mortas, deve servir de alertar ao que eventualmente pode acontecer no Brasil em algum momento futuro.

O caso do Deputado Federal do PSL/RJ, Daniel Silveira é apenas a ponta de um grande iceberg que está minando e colocando em sério risco as instituições nacionais, a ordem democrática e o estado de direito.

Em seu relatório sobre a manutenção ou relaxamento da prisão  do referido Deputado Federal Magada Mofatto, relatora da matéria, ao apresentar seu parecer favorável `a aprovação da prisão decretada pelo STF  e transcrever alguns trechos do video/live postado pelo citado parlamentar em suas redes sociais, com linguagem extremamente chula, a mesma menciona que “Temos entre nós um deputado que vive de atacar a democracia e as instituições e transformou o exercício de seu mandato  em uma plataforma de propagação do discursos do ódio, de ataques às minorias, da defesa de golpes de estado e de incitação à violência contra as autoridades públicas”. E que a defesa da impunidade parlamentar e da liberdade de expressão, não pode ser exercida contra a democracia, o estado democrático de direito e o respeito às instituições.

Apesar do parecer da Relatora e do conteúdo anti-democrático e de ataque aos ministros do STF, a votação no Plenário da Câmara Federal foi majoritariamente pela manutenção da prisão do Deputado Daniel Silveira, mas houve um numero razoável de parlamentares que indiretamente fizeram coro com as aleivosias do referido parlamentar, quando 130 Deputados, de diversas partidos, a maioria conservadores e de direita e centro-direita, representam quase um terço dos deputados presentes (26,2% de um total de 497 presentes), que aprovaram o conteúdo da “live” do Deputado que teve a prisão decretada pelo Ministro Alexandre de Moraes e homologada pelo Pleno (11 votos a zero) do STF e foi referendado por ampla maioria pelo plenário da Câmara dos Deputados dá a dimensão do problema politico e institucional.

Diversos ou com certeza a maioria desses parlamentares que votaram pela soltura do “colega” encarcerado são militares ou fazem parte do aparato de segurança dos Estados. são policiais estaduais civis, militares ou fazem parte de forças de segurança federais ou até mesmo pertencem ou pertenceram aos quadros das Forças Armadas e outros, civis, pertencem ou apoiam grupos radicais ideológicos de extrema direita e representam milhões de eleitores espalhados por diversas estados, inclusive Mato Grosso, onde, dos 8 deputados federais, três voltaram pelo relaxamento da prisão do colega encarcerado.

Diante do achincalhe, aleivosias, ataques, ameaças, difamação, com palavras chulas proferidas pelo citado Deputado, aos ministros do Supremo Tribunal Federal, a instituição maior do Poder Judiciário a quem cabe a interpretação e a guarda da Constituição Federal nos dá a dimensão do nível a que estamos chegando.

Em ocasião anterior um dos Filhos do Presidente Bolsonaro, deputado federal pelo Estado de São Paulo, em palestra no Estado do Paraná disse que para “fechar o STF bastava um jipe com um cabo e um soldado”, posteriormente um outro grupo bolsonarista atacou fisicamente, ao estilo Ku Klux Kan (KKK), com rojões e tochas o STF e em várias manifestações de apoiadores do Presidente, inclusive com a presença do mesmo, portavam cartazes e faixas pregando o fechamento do STF e do próprio Congresso Nacional, a intervenção militar/golpe de estado e a defesa do AI-5, o instrumento que representou o arbíbrio, a censura, as prisões de opositores, a cassação de mandatos, a tortura e o fechamento do congresso, por quase duas décadas de governos militares no Brasil.

Não podemos também esquecer de uma “famosa” reunião do Presidente Bolsonaro, no Palácio do Planalto, com todos o seus ministros, o então ministro da educação, considerado um dos expoentes do grupo ideológico de apoio a Bolsonaro, disse de forma clara “que, por mim, eu prendia todos esses vagabundos, a começar pelos do STF”, demonstra que a falta de respeito `as autoridades, ministros que integram a mais alta corte de justiça de nosso país, não mereceram, naquela ocasião o mínimo de respeito. Todos os presentes, inclusive o Presidente da República, ouviram as aleivosias do então ministro e se calaram. Existe um provérbio que diz “quem cala consente”.

Isto demonstra que existe uma base de apoio de direita e extrema direita dentro do próprio Governo Bolsonaro e também nos aparatos de segurança e repressão do próprio estado brasileiro (considerando os estados federados e a União), que não se cansam de fustigar e denegrir tanto os partidos de esquerda, os movimentos sociais, as ONGs e, principalmente o Poder Judiciário, assacando contra os Ministros da Suprema Corte (o STF). Isto é uma afronta contra a integridade física e moral dos ministros, contra a separação, a independência e harmonia entre os poderes e contribui sobremaneira para o enfraquecimento das instituições nacionais aos olhos do povo.

Voltando ao caso dos EUA, vale destacar que a  Ku Klux Klan é uma organização terrorista, integrada apenas por brancos, que surgiu nos Estados Unidos, na virada de 1865 para 1866, logo após a Guerra Civil Americana. Esse grupo foi criado para promover os ideais do supremacismo branco, ideais racistas, e a cultura do ódio e da violência, que se alinham com a ideologia da extrema direita, que promovem a segregação e o ódio contra negros e outras minorias, principalmente imigrantes, que ainda persiste agindo nos EUA na atualidade.

Durante décadas a KKK costumavam atacar e incendiar igrejas, residências ou estabelecimentos comerciais de negros, utilizando tochas e máscaras para encobrir os rostos.

No caso do Brasil, a conclusão a que se pode chegar é que existe um conflito muito mais sério e profundo de natureza ideológica, político institucional e partidário do que podemos imaginar, cujas consequências podem ser altamente desastrosas para a paz social, a democracia e para as liberdades e os direitos civis, inclusive os direitos humanos.

Se nada for feito para pacificar o país, com toda certeza as eleições gerais de 2022, principalmente para Presidente da República, poderão ocorrer dentro de um clima de grande acirramento e de conflitos políticos, eleitorais e ideológicos com sérias consequências para as instituições e para o futuro do Brasil, incluindo a aventura de um golpe de Estado e a supressão das liberdades democráticas, a considerar a contaminação política e ideológica que já existe no seio das Forças Armadas,  como relatado  nas revelações contidas no Livro recém publicado pelo General Vilas Boas, Comandante do Exército há pouco mais de 2 anos, quando afirma o “alerta/ameaça” que foi feito ao STF em relação a um julgamento de habeas corpus de Lula, naquela ocasião, com respaldo do Estado-Maior do Exército.

Com todo o respeito ao Autor do Livro, cabe, no entanto, destacar e realçar que as Forças Armadas, mesmo que o Presidente da República (que tiver sido eleito e estiver de plantão, por alguns anos, como Chefe de Governo e de Estado) seja o Comandante Supremo das Forças Armadas, essas são, pela Constituição Federal, Instituição do Estado brasileiro e jamais um órgão deste ou daquele governo.

Todas as vezes que as Forças Armadas se desviam de suas funções constitucionais e se enveredam para o lado da política partidária ou se alinham ideologicamente aos governantes de plantão, podem colocar em risco a estabilidade democrática e causar sérios danos ao país, a começar pela quebra da hierarquia e disciplina dentro da caserna que será contaminada pelo embate partidário, político e ideológico.

Com certeza não vivemos mais nos tempos dos capitães do mato, quando os militares estavam a serviço dos donos do poder e das oligarquias que os apoiavam. O papel das Forças Armadas é muito mais nobre do que ficar se imiscuindo em disputas políticas, eleitorais e ideológicas, cabe `as mesmas a defesa da soberania, `a garantia da Lei e da Ordem, a defesa da pátria, do território brasileiro e das instituições nacionais e contribuírem para a conquista e manutenção dos Objetivos Nacionais Permanentes, internamente e no contexto internacional

Quem viver verá!

Juracy da Silva é professor universitário, titular e aposentado UFMT, sociólogo, mestre em sociologia, colaborador de alguns veículos de comunicação. Email [email protected] [email protected]

Texto de Bertold Brecht:

“Primeiro levaram os negros me importei com isso, eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas me importei, mas não com isso, eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, mas como tenho meu emprego, também não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde, como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo” Bertold Brecht 1898 – 1956.

 

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Ensino remoto na formação farmacêutica: “Do calor humano à tela fria de um computador”!

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Por Ednaldo Anthony Jesus e Silva

Confesso que este tema não é tão simples de ser abordado e debatido em limitadas frases de exposição do atual processo didático pedagógico de ensino aprendizagem ao “Novo Normal”.

Desde que publicada as Diretrizes Curriculares Nacionais, Resolução CNE/CES nº 6 de 19 de outubro de 2017, um modelo acadêmico delineado em competências e habilidades entrou em vigência para formação de egressos na Graduação de Cursos de farmácia pelo país. Um modelo inovador, propositivo, sapiente em suas “entrelinhas” que veio para garantir a formação deste importante profissional da área da saúde em três grandes eixos de formação: cuidado em saúde, tecnologia e inovação em saúde e gestão em saúde.

Na docência de Ensino Superior somos desafiados diuturnamente a produzirmos o melhor conteúdo de formação profissional, dentro das atuais ferramentas pedagógicas do empoderamento digital, sendo o professor o interventor e intermediador do processo de ensino aprendizagem dinâmico e hiperativo. São tempos extra classe, dedicados a elaboração de aulas síncronas e assíncronas, atividades formativas e de avaliação continuada, demanda técnica e administrativa de condução de aulas em ambiente virtual, manuseio de ferramentas como google meeting, microsoft teams, zoom, gravações MP4, veiculação de aulas gravadas em portal acadêmico de diversas plataformas disponíveis nas Instituições de Ensino Superior espalhadas pelo país do “Oiapoque ao Chuí”, entre tantas diferenças regionais, culturais e sócio econômicas vivenciadas.

Sempre defendo a tecnologia da informação como ferramenta pedagógica complementar no processo educativo, mas não a integralidade de formação 100 % (cem por cento) de ensino a distância ainda mais na área da saúde.

Neste cenário de profundas transformações e de reinvenções dos processos educacionais nos deparamos com um cenário pandêmico sem precedentes de normalidade, na qual os números de desempregados só aumentam no país, o índice inflacionário em alta tende a amedrontar as famílias brasileiras e a oportunidade de acesso a informação se torna cada vez mais limitante na medida em que a palavra emanada na atual conjuntura neste momento é “Sobrevivência”.

O cenário prático de formação profissional na área da saúde é de vital importância e imprescindível para a garantia de excelência na prestação de serviços farmacêuticos à sociedade.

Inúmeras indagações vêm à tona em um momento altamente reflexivo, haja vista que a pós-graduação é uma área extensiva e complementar da formação de graduação dos futuros farmacêuticos do país, grifo-às:

O Ministério da Educação (MEC) tem acompanhado e fiscalizado as mantenedoras no tocante ao cumprimento das diretrizes curriculares nacionais de formação em Curso de Farmácia no país?

A acessibilidade a estas ferramentas pedagógicas de ensino digital por meio da internet é uma realidade em todas as classes econômicas da sociedade no atual cenário de desemprego e uma economia em declínio constante?

O MEC juntamente com o Governo Federal possui um projeto de retomada gradual de acompanhamento de indicadores de qualidade e processos avaliativos constantes de formação acadêmica nos Curso de Farmácia do Brasil?

O Conselho Federal de Farmácia (CFF) na tentativa de proibir a inscrição de egressos que sejam formados na modalidade, exclusivamente a distância, editando resolução que aborda a temática, conseguirá impor a sociedade e aos governantes uma profunda reflexão sobre o ensino farmacêutico, mesmo que isso extrapola as esferas jurídicas competentes?

O CFF enquanto autarquia de classe que regulamenta o exercício profissional e suas áreas de atuação no varejo farmacêutico, cumpre a contento o seu papel de ampliar a oferta de serviços farmacêuticos à sociedade. São mais de 135 áreas de atuação do profissional farmacêutico reconhecidas e regulamentadas por resoluções, tais como, saúde estética, ozonioterapia, radiofármacos, floralterapia, perfusão sanguínea, vacinas e tantas outras a qual recomendo ao leitor uma busca ao site eletrônico: https://bit.ly/3ul8ZPo para mais informações e esclarecimentos sobre o tema.

Talvez muitas destas respostas não obtenhamos de imediato, porém é necessário o debate ostensivo no campo das ideias e ideais entre os “expertises” da educação farmacêutica brasileira, mobilizando as entidades que nos representam no campo educacional, tais como, Comissões de Ensino do Sistema CFF/CRF’s, Associação de Ensino Farmacêutico (ABEF),  Comissão Assessora de Educação Farmacêutica do Conselho Federal de Farmácia (CAEF) e instituições como Ministério Público Federal, Ministério da Educação, Procon e tantos outros que poderão contribuir de maneira propositiva e resolutiva para os rumos da formação farmacêutica no País, não só na área farmacêutica mas em toda abrangência da saúde, uma vez que as aflições e angústias só aumentam.

*Ednaldo Anthony Jesus e Silva é farmacêutico Hospitalar e Clínico e conselheiro regional do CRF-MT. 

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