AGRO & NEGÓCIO

Artigo: Produtividade de fruteiras no Brasil e grandes regiões: análise dos dados do Censo Agropecuário de 2006 e 2017

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Clóvis Oliveira de Almeida
José da Silva Souza

A Tabela 1 traz a variação percentual do rendimento físico de oito fruteiras nas grandes regiões brasileiras, calculada com base nos dados dos Censos de 2006 e 2017. As fruteiras selecionadas estão entre as mais importantes do país e são todas do portfólio de pesquisa da Embrapa Mandioca e Fruticultura: abacaxi, banana, laranja, limão, manga, mamão, maracujá e tangerina. A região Nordeste destaca-se como a primeira produtora de manga, maracujá e mamão e é a segunda em abacaxi, banana, laranja, limão e tangerina, que têm a região Sudeste na liderança.

Uma análise fria, pouco cuidadosa e restrita aos números em si sugeriria que, nesse período, a região Nordeste teria registrado perda de rendimento em relação a seis fruteiras das oito consideradas (Tabela 1). As únicas exceções seriam abacaxi e mamão, que teriam registrado ganhos de rendimento. Esse movimento observado na região Nordeste, praticamente se repetiu no país. A exceção seria apenas em relação à laranja, que apresentou ganhos de rendimento médio  – um reflexo dos também ganhos de rendimento na principal região produtora do país, a Sudeste. Aliás, a região Sudeste teria apresentado o melhor desempenho, seguida das regiões Centro-Oeste e Sul, em número de fruteiras com ganho de rendimento no período: seis entre as oito selecionadas. Ainda com relação a esse mesmo indicador, a região Norte teria apresentado o mesmo resultado da região Nordeste, ou seja: apenas duas, entre as oito fruteiras, teriam registrado ganhos de rendimento.

No entanto, ao contrário do que parece e do que muitos pensam e repetem, os números não falam por si. Sem uma análise quanto ao método e ao contexto em que foram gerados, os números podem levar a interpretações enganosas. Por essa razão, toda análise de dados deveria ser seguida, sempre que possível, de apreciação crítica do método e do contexto.

 
Tabela 1. Rendimento de fruteiras selecionadas no Brasil e grandes regiões: Censos 2006 e 2017. 

 
1 Inclui bergamota e mexerica.
Fonte: IBGE (2020), dados básicos.

 
Umas das principais desvantagens do método matemático para o cálculo da variação percentual estão associadas e são comuns a todo método que utiliza medidas pontuais afastados no tempo (a exemplo dos valores extremos de uma possível série de dados): não captar a “tendência” com base em toda a informação de uma série de dados e a sensibilidade do resultado aos anos de referência (ALMEIDA, 2014). Portanto, no caso em análise, o método apenas permite comparar o rendimento físico em 2017 com o rendimento em 2006, não sendo possível saber o que aconteceu nos demais 10 anos dentro desse intervalo, tampouco a tendência. Ou seja, os resultados encontrados não podem ser extrapolados porque não se pode ter uma ideia confiável de tendência com base em apenas duas observações (no caso, os rendimentos médios em 2006 e 2017). A situação se tornaria ainda mais crítica se houvesse ocorrência de atipicidade em um ou em ambos os dados. E é justamente essa alta sensibilidade dos resultados aos anos de referência que torna ainda mais necessária uma análise de contexto, ou seja, o conhecimento das condições sob as quais os dados foram gerados. No caso de dados relacionados à agricultura, as condições climáticas e tecnológicas são as principais determinantes de desempenho.

Nesse sentido, o fraco desempenho da região Nordeste poderia ser explicado por um fenômeno climático: a severa estiagem que ocorreu na região de forma contínua e prolongada no período 2012 a 2018, sendo considerada uma das piores secas dos últimos 100 anos (BURITI e BARBOSA, 2018, apud AQUINO e NASCIMENTO, 2020), frente às condições pluviométricas normais vigentes em 2006. A maior parte da produção de frutas no Nordeste, com ou sem o uso da irrigação, ocorre em região de clima semiárido, que apresenta maior risco de estiagem, a exemplo do maracujá, manga, uva, abacaxi, acerola, banana, caju e melão. As exceções seriam as lavouras de laranja, limão e mamão, para as quais a produção se encontra fora do semiárido, mas ainda com pouco uso da irrigação, especialmente as duas primeiras. De forma geral, o estresse hídrico do período teve impacto direto sobre o volume e a frequência da irrigação. A pior situação ocorreu em Livramento de Nossa Senhora, Bahia, principal produtor de maracujá do Brasil e importante polo de produção de manga do estado: a frequência da irrigação foi reduzida para apenas um dia por semana nos piores momentos da estiagem. Mas, ainda que em menor intensidade, a frequência da irrigação também foi reduzida em outros importantes polos de produção de frutas no semiárido baiano: Bom Jesus da Lapa (segundo maior produtor de banana do Brasil) e Juazeiro (um dos principais produtores de manga e de uva do país). As produções de laranja e limão, embora concentradas fora da região semiárida, também foram afetadas pela estiagem, principalmente por causa do pouco uso da irrigação.

Apenas as lavouras de abacaxi e mamão registraram ganhos de produtividade na região Nordeste. A utilização de variedades de abacaxi mais tolerantes ao estresse hídrico, bem como o uso da irrigação em importantes áreas produtoras da região, provavelmente explicaria o desempenho da lavoura. Mas o desempenho da lavoura de mamão, certamente, seria explicado pelo efeito combinado do clima com o uso complementar da irrigação. A produção de mamão na região Nordeste se concentra no Sul e Extremo Sul do litoral baiano, tendo o município de Prado como o maior produtor da região, cujo clima predominante é quente e úmido e apresenta índice pluviométrico superior a 1.500 mm anuais. O uso da irrigação, de forma complementar, é uma prática comum nessa região produtora. A segunda maior região produtora de mamão na Bahia é o Oeste Baiano, cujo clima é do tipo semiárido, mas o uso da irrigação é feito de forma intensiva.

Portanto, fica evidente que as condições adversas do clima, a exemplo das secas severas e prolongadas que ocorrem com maior frequência na região Nordeste, podem influenciar de forma direta a evolução da área plantada e do rendimento, e tanto maior será essa influência quanto menor a dotação tecnológica e a disponibilidade de fontes permanentes de água para uso na irrigação (ALMEIDA, 2014).

Referências

ALMEIDA, C.O. de. Método exploratório de indicadores de adoção de variedades melhoradas. Crua Almas: Embrapa Mandioca e Fruticultura, 2014. – (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 59).

AQUINO, J. R. de; NASCIMENTO, C. A. do. 2020. A GRANDE SECA E AS FONTES DE OCUPAÇÃO E RENDA DAS FAMÍLIAS RURAIS NO NORDESTE DO BRASIL. Rev. Econ. NE, Fortaleza, v. 51, n. 2, p. 81-97, abr./jun., 2020. Disponível em: < https://ren.emnuvens.com.br/ren/issue/view/109/showToc>. Acesso em: 20 jun. 2020. 

BURITI, C. O.; BARBOSA, H. A. Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o semiárido brasileiro? Lisboa/ Portugal: Editora Chiado, 2018.

IBGE. Sidra: Censo Agropecuário 2006, 2020. Culturas temporárias. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/2868. Acesso em: 20 abr. 2020.

IBGE. Sidra: Censo Agropecuário 2006, 2020. Culturas permanentes. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/2887. Acesso em: 20 abr. 2020.

IBGE. Sidra: Censo Agropecuário 2017, 2020. Culturas permanentes. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6955. Acesso em: 20 abr. 2020.

IBGE. Sidra: Censo Agropecuário 2017, 2020. Culturas temporárias. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6957. Acesso em: 20 abr. 2020.

Fonte: Embrapa

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AproClima passa a disponibilizar mapa interativo de umidade no solo

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Defesa Agrícola

AproClima passa a disponibilizar mapa interativo de umidade no solo

A informação vai auxiliar o produtor na tomada de decisões no campo, sobretudo para uma semeadura bem-sucedida

23/09/2020

Os fenômenos climáticos interferem diretamente na produção agrícola, seja no plantio ou na colheita. O produtor rural precisa estar constantemente atento às mudanças climáticas para garantir uma boa produtividade no campo. Com isso, o projeto AproClima, desenvolvido pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), vai disponibilizar mais uma opção de informação, o mapa interativo com a previsão de umidade no solo em todas as regiões do Estado.

“A novidade vai permitir ao produtor uma análise precisa que vai auxiliá-lo na hora do plantio”, ressaltou a engenheira agrônoma, pós-doutora em Fitotecnia e gerente de Defesa Agrícola da Aprosoja, Jerusa Rech. Para garantir uma semeadura bem-sucedida, Jerusa explica que é preciso ter uniformidade na germinação, e isso só é possível com uma boa umidade no solo, relacionando o gráfico de precipitação de chuva com o gráfico de umidade.

O AproClima é a principal fonte de informação climática do produtor rural, Anderson Martins, do município de Água Boa (a 736 km de Cuiabá). Nos mapas interativos, ele consegue ter acesso as temperaturas máximas e mínimas, previsão e acumulados de chuva para a sua região. “Agora com o mapa de umidade no solo vou ter mais exatidão, segurança e assertividade na lavoura. Isso porque a umidade é um fator preponderante para a tomada de decisões no campo”, destacou.

Para ter acesso aos mapas interativos semanais e aos relatórios quinzenais, o produtor pode acessar o site www.aproclima.aprosoja.com.br, ou baixar o aplicativo da Aprosoja, disponível na Google Play e na App Store. As informações também são enviadas por WhatsApp, com gifs interativos.

AproClima – Lançado há um ano, o projeto conta atualmente com 38 estações meteorológicas distribuídas em áreas produtivas nas quatro regiões de Mato Grosso. Os dados das estações são coletados todos os dias e enviados para a plataforma do AproClima. A iniciativa conta com a parceria do Sistema Tempo Campo (Esalq/USP) e o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

 

 

 

 

Fonte: Ascom

Assessoria de Comunicação

Contatos: Telefone: 65 3644-4215 Email: [email protected]

Fonte: APROSOJA

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