Orquestra de Mato Grosso já recebeu uma boa fortuna desde que foi criada há 10 anos

Enquanto a orquestra comandada pelo secretário de Cultura, Leandro Carvalho, mantem o caixa em dia com o Estado, artistas de Mato Grosso brigam para receber uma dívida de R$ 1,8 milhão referentes a 2016

Rui Matos | Portal Mato Grosso

Jr Silgueiro | GcomMT

Leandro Carvalho

Secretário de Cultura Leandro Carvalho

A Secretaria de Estado de Cultura não tem nenhuma relação direta com as demais pastas econômicas do Governo de Mato Grosso, no entanto está arrolada a cifras milionárias que podem desencadear o mais novo escândalo da gestão Pedro Taques, além de se tornar provável alvo do Ministério Público Estadual (MPE) e do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Valores liberados pelo governo aos projetos de interesse do secretário Leandro Carvalho somam, só na gestão atual, quase R$ 8 milhões. Somados os repasses feitos desde 2007, o montante que foi direcionado à Orquestra de Mato Grosso chega a R$ 17.588,539,24, no período que vai de janeiro de  2007 a agosto de 2017. Curiosamente, essas informações não estavam mais disponíveis no portal Fiplan (http://web.fiplan.mt.gov.br/html/listaProcessos.php) até o fechamento desta matéria.

O montante que foi direcionado à Orquestra de Mato Grosso chega a R$ 17.588,539,24 no período que vai de janeiro de 2007 a agosto de 2017. Só na gestão Pedro Taques foram quase R$ 8 milhões

Em meio a esse turbilhão, corre pelos bastidores do Palácio Paiaguás que o secretário Leandro Carvalho já está limpando as gavetas e deixará a pasta em dezembro para se dedicar a seus projetos em São Paulo, onde mora. O pedido de desligamento já teria sido feito, informalmente, ao governador Pedro Taques. Já no meio cultural, o motivo para a saída de Carvalho seria o desgaste provocado pelo distanciamento com artistas e produtores culturais.  A revelação, nessa semana, de que a secretaria tem uma dívida de R$ 1,8 milhão com 30 artistas selecionados no projeto Circula MT 2016, reforça o falatório, mas continua ínfimo diante do montante repassado à sinfônica. “Nunca imaginei que a orquestra fosse um dia usada para interesses pessoais”, reclamou o idealizador da Orquestra de Mato Grosso e ex-secretário de Cultura, João Carlos Vicente Ferreira, que a criou como Orquestra de Câmara de Mato Grosso.

Divulgação

Leandro cArvallho e Mauricio de Souza

Sozinho, Mauricio de Souza recebeu quase o mesmo valor destinado a 10 escritores mato-grossenses

Enquanto o ralo continua aberto aos acordes eruditos regidos pelo próprio secretário de Cultura, para o segmento literário a pasta destinou apenas R$ 500 mil para o Prêmio Mato Grosso de Literatura em 2016 e 2017. Na primeira edição foi destinado o valor de R$ 20 mil para cada um dos 10 autores selecionados. Desses, 9 escritores procuraram as editoras Carlini & Caniato e Tanta Tinta para edição das obras. Na edição de 2017 o valor subiu para R$ 30 mil, sendo que oito dos 10 vencedores também editaram pela Carlini & Caniato. O editor Ramon Carlini observa que projetos envolvendo escritores regionais foram apenas esses. Fora desse rol de poucos privilegiados diante da vastidão de escritores em todos os gêneros, teve o Instituto Mauricio de Souza que faturou sozinho quase R$ 300 mil para criar um gibi de tiragem limitada com foco no Pantanal.

 

Espere ai! Alguém poderá dizer: “O Estado não patrocinou a LiteraMato”? Não. A 1ª Feira Literária de Mato Grosso, chamada de LiteraMato e orçada em R$ 3 milhões foi cancelada na semana da abertura. Em nota oficial, postado no site do evento, apenas uma justificativa pouco convincente: "Em virtude de questões técnicas e operacionais, e com o intuito de fazer a melhor festa literária de Mato Grosso, a Casa de Guimarães informa o adiamento da LiteraMato, que seria realizada de 19 a 22 de Outubro, em Cuiabá. O evento acontecerá no início de 2018 e a data será informada em breve. Agradecemos a todos pela compreensão!". Ah, mas teve também a FLIC, Feira do Livro de Chapada dos Guimarães. Sim. Essa foi realizada, porém, sem financiamento do Estado. “A Feira do Livro de Chapada dos Guimarães foi motivada por uma emenda parlamentar de R$ 200 mil do deputado Guilherme Maluf, que destinou os recursos por meio da Secretaria de Estado de Educação. Não sei o que acontece, pois esse projeto também não foi pago. Onde está o dinheiro? Estamos devendo hotel, restaurantes, pessoal que trabalhou na produção, escritores do Brasil e de Mato Grosso que participaram de mesas e debates, locação de tendas, padaria, além de outras despesas. Enfim, devemos todo o projeto”, desabafa Ramon.

Divulgação

Vicente Paulo

Vicente Paulo: Pagar Mauricio de Souza e não pagar nossos artistas é uma contradição e desrespeito com o dinheiro público”

O artista plástico Vicente Paulo, que está prestes a completar 30 anos de carreira, diz que já viu algumas aberrações nas gestões anteriores e na atual, entretanto, existem algumas pontuações que o atual secretário fez que merecem ser reconhecidas. Há pequena iniciativa em audiovisual, na reabertura do Cine Teatro e na Escola de Teatro. “Cito a CPF da Cultura. Aprovação de Leis que escalonam de maneira gradativa os recursos para a cultura, além da descentralização. Por outro lado, o secretário Leandro Carvalho não consegue ter diálogo com a classe. Aliás, nunca teve”. Vicente se recorda de que muitos artistas foram perseguidos de alguma forma. “Quando entrou no governo, o secretário encaminhou mais de 600 projetos para o Tribunal de Contas sem antes separar o joio do trigo. Nem todos são malandros, como talvez pensasse ele à época”.

Portal Mato Grosso

Vicente Paulo

Capucine: "É um retrocesso ter uma secretaria que não tem condições de desenvolver a cultura estadual e ainda traz bienais de outro Estado"

Capucine Picicaroli também é artista plástica de longa data em Mato Grosso e não está muito contente com a política cultural. Segundo ela, a secretaria atuou timidamente nesses dois anos e meio de governo. “Leandro Carvalho deu mais atenção à mostra vinda de São Paulo, por exemplo. Isso não foi de graça. Me sinto péssima. É um retrocesso ter uma secretaria que não tem condições de desenvolver a cultura estadual e ainda traz bienais de outro Estado. O resultado é o que vimos, sem público, sem envolvimento. Tiveram que chamar estudantes nas escolas para dar público. Sinto pelo secretário, por minha Cuiabá e pelos colegas de arte. Foi ruim para todos”.

“Na ocasião Taques se comprometeu em ampliar o recurso destinado a Cultura, construção de um Congodromo em Vila Bela da Santíssima Trindade, pista especializadas para a Cavalhada de Poconé e a nova biblioteca Estevão de Mendonça. Nada disso foi cumprido”, alerta Mahon

Vicente Paulo ameniza, sem deixar de ser crítico. Para ele, não há problema em se fazer intercâmbios, troca de conhecimentos, de informação, trazer o que tem de novo. No entanto, diz acreditar ser necessário o diálogo com a classe. “O secretário precisa ter ao menos uma ideia do que cada segmento pensa sobre os rumos que querem e preferem seguir. É difícil entender porque gastar milhões trazendo exposições de São Paulo, ou contratando Mauricio de Souza a peso de ouro, sem antes contemplar as demandas locais. Se não pode ajudar com R$ 40 mil para um artista desenvolver um produto regional, porque pagar quase R$ 300 mil para o criador da Monica e do Cebolinha? Será que o estúdio Mauricio de Souza não vai receber também? Pagar Mauricio de Souza e não pagar nossos artistas é uma contradição, disparate, imoralidade e desrespeito com a classe artística e com o dinheiro público”.

Osmar Cabral Jr

Eduardo Mahon

Eduardo Mahon: "Conselho de Cultura ainda não tem vice-presidente e nem regimento interno aprovado"

Nesse momento de crise, nem o governador escapou de críticas e cobranças. O escritor e membro da Academia Mato-grossense de Letras, Eduardo Mahon, recorda que Pedro Taques esteve na Casa Barão de Melgaço, que é a sede da Academia Mato-grossense de Letras, fazendo promessas. “Na ocasião Taques se comprometeu em ampliar o recurso destinado a Cultura, construção de um Congodromo em Vila Bela da Santíssima Trindade, pista especializadas para a Cavalhada de Poconé e a nova biblioteca Estevão de Mendonça. Nada disso foi cumprido”, alerta Mahon. Segundo ele, acreditava-se, ainda, que o currículo altamente qualificado do secretário Leandro Carvalho falasse por si, o que não ocorreu até o momento. “Só depois de dois anos à frente da pasta que foi realizada eleição para composição do Conselho de Cultura, que até hoje não tem sequer vice-presidente. Como funcionar dessa forma se nem o Regimento Interno foi votado até o presente momento. Por conta disso, nenhum projeto cultural foi apreciado. O pouco se que fez foi à revelia do Conselho de Cultura”, completou. Eduardo Mahon, que é advogado, salienta que o que mais se discute no momento não é a legalidade, ou não, desses milhões de reais repassados à Orquestra de Mato Grosso, que é uma entidade privada. Tudo pode ter sido repassado observando os preceitos da legalidade. No entanto, será que esses R$ 17 milhões foram repassados dentro dos preceitos morais”? Capucine Picicaroli finaliza: “Todos sabemos que os recursos são limitados, mas se bem planejado dá para se fazer alguma coisa. A verba que foi gasta nessa gestão não ficou totalmente no Estado, não a maior parte”.

Orquestra 01
Orquestra 01
Orquestra 01

 

Orquestra 01

 

 


Fonte: Portal Mato Grosso

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